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Pontes


Pontes (IV) Passado—Futuro

Miguel Oliveira Panão

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Quando mudamos no calendário o ano fazemos uma pequena experiência, embora significativa, desta passagem do passado para o futuro. O passado é inalterável. O futuro é incerto. O passado é o que sabemos e podemos vir a saber, mas do futuro pouco ou nada sabemos. O que realmente vivemos e faz uma ponte entre o passado e o futuro é o presente, mas não só. O que planeamos realizar no futuro com base na experiência passada revela uma segunda ponte entre o passado e o futuro: a história.

O presente é uma ponte que liga o fio da nossa história, mas é um momento demasiado evasivo para ser apreendido. Porém, é a realidade que toca tudo na nossa vida através do que designamos por instante. O passado contém a memória cujo efeito faz-se sentir a cada instante através das condições de possibilidade que revela aquando das nossas escolhas. E nós estamos em permanente acto de escolher, mesmo que não nos demos conta disso.

Diz o físico Carlo Rovelli no seu livro ”A Ordem do Tempo” que — «a noção de “presente” diz respeito às coisas próximas, não às distantes. O nosso “presente” não se estende a todo o universo. É como uma bolha perto de nós.» Uma noção acolhedora se não fosse abanada pelo que Rovelli expressa umas linhas depois dizendo que — «a ideia de que existe um agora bem definido em todas as partes do universo é, portanto, uma ilusão, uma extrapolação ilegítima da nossa experiência.» Na minha limitada interpretação creio que Rovelli pretende ajudar-nos a entender que não há um presente que seja universal, mas pessoal. Cada pessoa goza da sua experiência do momento presente. Mas quando não guardamos para nós o presente e partilhamos o que vivemos com os outros, o presente como ponte entre o nosso passado e a perspectiva futura converte a experiência pessoal em relacional. E penso que será dessa experiência relacional que nasce a história.

O que somos sem história senão pessoas sem passado ou futuro? A história não se reduz a um mero relato sequencial de acontecimentos. Pode haver alguém que saiba para onde pode ir, sem saber de onde vem? Apesar de não ser historiador, o modo como sinto importante a história como ponte entre passado e futuro é através da imagem de um entrelaçar de momentos presentes que procuramos compreender para nos compreendermos.

Nos últimos tempos tenho-me interessado por biografias. Algo que jamais esperaria, mas ao entrar na história de cada pessoa comecei a reconhecer como tudo o que aconteceu à sua volta é causa de muito daquilo que se desenrola à minha e à tua volta. À medida que a história permite compreendermos o nosso passado, começamos, gradualmente, a reconhecer os caminhos que podemos percorrer ou percorreremos no futuro. Existem obras que demonstram essa visão. Estou a pensar, por exemplo, no “The Machine Stops” de 1928 escrito por E.M. Forster que parece um retrato fiel do que acontece hoje com a nossa dependência da internet. Ou, então, no mais recente Snow Crash de Neal Stephenson de 1992 que fala do Metaverso que Mark Zuckerberg tornou real (será que percebeu que a obra era distópica)? E o risco que corremos sem a história como ponte será o esquecimento.

Ao receber o prémio Templeton, o filósofo Charles Taylor dizia que — «num certo sentido, o mundo moderno, e o que podemos chamar de mundo secular, entre outras coisas, levou as pessoas a querer esquecer certas respostas às questões da vida.» Mas o perigo maior, diz Taylor, não está somente em esquecer certas respostas, mas, também, certas perguntas. E quando vejo a sociedade a repetir os mesmos erros do passado, sinto mais ainda a importância de viver o momento presente e a história como ponte que oferece um rasgo de esperança que assegure um futuro melhor do que qualquer passado (como dizia Teilhard de Chardin).

Há quem pense que só podemos viver intensamente o presente se nos desapegarmos do passado e do futuro. Pode ser pelas feridas que no passado se abriram, e pelo abismo que um futuro obscuro apresenta, receiam que essas feridas se mantenham abertas. Mas, enquanto não compreendermos a fundo o passado para podermos construir um futuro melhor, consumimos o presente à procura de gratificações instantâneas. Não posso desapegar-me do passado ou do futuro, sem me desapegar, também, do presente experimentando o abismo do vazio. Talvez por isso o tempo seja uma experiência de unicidade entre passado e futuro através da ponte do presente.


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