Sáb. Set 25th, 2021
Modos de interação entre ciência e religião

Perspectivas


Décima Primeira Perspectiva: Transcendente

Miguel Oliveira Panão

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Há muito tempo, numa aula de matemática, um professor falava de equações transcendentais. Para um crente, o olhar deveria ficar desperto, mas confesso que não retenho qualquer memória de um sentimento de espanto. Há pouco tempo, voltei a cruzar-me com esta expressão e deixei-me levar pela curiosidade. A razão de uma função ser transcendente é por “transcender” a álgebra, ou seja, é uma função que não pode ser expressa como uma sequência finita de termos usando as operações algébricas — +, -, ×, ÷, ^, √ — como é o caso do logaritmo, um exemplo de uma função transcendente. São funções que estão para além das operações simples que lhes podem dar origem e, por isso, são funções que dão origem a muitas outras. A perspectiva que abre o nosso horizonte, de modo a irmos “para além” da percepção sensível do mundo é a transcendente.

Em Teilhard de Chardin, sacerdote jesuíta e paleontólogo, lemos que o transcendente corresponde a tudo o que está para além do “tempo” e do “espaço”. Não se pode dizer, em rigor, ser uma dimensão sem tempo ou espaço, por estar para além desses e, por isso, refere-se a um nível de interpretação da realidade que exige um algo mais da nossa compreensão. A perspectiva transcendente, procura, antes de tudo, o todo que é mais do que a soma das partes. Por isso, talvez esta seja uma perspectiva impossível de apreender por nós próprios, mas de nos deixarmos apreender por ela. E daí o desafio que nos apresenta por sermos seres cuja experiência psicossomática acontece no tempo e no espaço. Seria preciso algo ou alguém que nos transportasse para a dimensão da realidade transcendente para nos abrir a possibilidade de encontrar o horizonte de significado aberto por esta perspectiva. Penso, por exemplo, no “Mundo Plano” (Flatland) de Edwin Abbott.

Para o mundo plano, uma esfera que o atravessa começa por ser um pequeno ponto, transformando-se num círculo perfeito e volta a um ponto antes de desaparecer. No plano da nossa existência, a perspectiva transcendente é acolhida na medida em que as suas manifestações nos transformam a partir do nosso interior. Porém, de um modo tão profundo que se torna difícil verbalizá-lo. Aliás, a dificuldade em partilharmos aos outros a nossa experiência da perspectiva transcendente provém da forma mais imediata com que o fazemos: a imaginação. Ora, se o que imaginamos considerarmos como irreal, será difícil aceitar esta perspectiva. Contudo, por que razão sequer imaginamos se a imaginação não pertencesse à realidade?

Quantas coisas materiais que hoje fazem parte do nosso quotidiano não foram fruto da imaginação? A imaginação não é irreal, mas uma porta para a dimensão transcendente da realidade. Depois, com o tempo e a evolução da nossa compreensão do mundo, encontramos, pouco a pouco, um sentido e significado do transcendente imaginado até que se incarne, de algum modo, na nossa realidade sensível. Por outro lado, o que nos transcende mantém a mente aberta a acolher a mais impensadas ou irreais ideias. E não se deve confundir a imaginação com a ilusão. A ilusão é uma concretização fechada de algo impossível que se materializa aos nossos olhos. Por isso, quando deixa de ser um entretenimento, sujeitamo-nos a ser desiludidos porque iludidos. Com o transcendente que percepcionamos pela imaginação não é assim.

O que nos transcende pela imaginação impulsiona-nos a ir para além de nós próprios, de modo a criarmos um lugar interior aberto a acolher amanhã o impossível de hoje. O transcendente anima-nos na procura do profundo escondido no interior de cada coisa neste mundo para nos revelar o seu “mistério.” É habitual entendermos por “mistério” um enigma a resolver, mas o sentido profundo e transcendente desta palavra expressa uma “realidade escondida”, sendo a mais óbvia: a Eucaristia.

É um pedaço de pão. Para as crianças parece uma bolacha fina sem sabor. Ou, como disse um amigo ao provar uma hóstia que não estava consagrada — «sabe a miluvit» (uma papa do meu tempo). A mim não sabia a miluvit, mas, também, não me interessava o sabor. Diziam-me que era Jesus e eu vivia como se assim fosse, até que um dia algo inesperado aconteceu-me. Estava numa missa de um encontro internacional de jovens e fui comungar. Recebi o Senhor. Ajoelhei-me e comecei a chorar. Porquê? Era esse o meu dilema. Não havia qualquer motivo para verter lágrimas. Apenas uma vontade enorme de me confessar a seguir, o que parece contraditório, pois, a confissão precede a comunhão sacramental, mas a lógica de Deus é diferente da nossa. Creio, hoje, que chorei por experimentar o bálsamo da perspectiva transcendente, através da qual fazia a experiência de me sentir profundamente amado por Deus.


Imagem de Gerd Altmann por Pixabay