Ter. Dez 7th, 2021

In Memoriam

Pe. João Gonçalves

[n. 28/03/1944 | ordenação presbiteral 21/12/1969 | m. 08/12/2020]


Testemunho | Pe. Querubim Silva

Um Abraço Amigo

 

         Querido Padre João Gonçalves

         Os inícios de outubro do longínquo ano de 1957 marcaram para sempre o começo de uma fase nova da nossa história comum: tua, do P. José Camões e de mim próprio. A entrada no Seminário de Santa Joana Princesa em Aveiro daria início a uma caminhada lado a lado, ao longo de 12 anos de Seminário – Aveiro e Olivais -, e que só atingirá a meta no convívio da eternidade.

         Profeticamente, pelas mãos não sei de quem, temos uma fotografia do trio, imagino que em algum daqueles passeios de sábado, pelas marinhas. É que, na verdade, por insondáveis caminhos da Providência, sempre estivemos juntos e nos apoiámos mutuamente, sem excluir, naturalmente, os outros dois, que fizeram derivações no caminho, mas voltaram a juntar-se a nós no lote dos ordenados presbíteros – O P. Fausto e o saudoso P. José Manuel.

         Talvez por seres quase três anos mais velho que nós, foste, desde o princípio, uma referência, essencialmente pelo teu espírito pacificador, pela tua indestrutível boa disposição, pela tua espiritualidade serena. Sobretudo para mim, principalmente nas horas mais turbulentas, foi no diálogo contigo, foi na sacramento da Reconciliação mediado por ti, que encontrei os ouvidos e o coração que me escutassem, a palavra iluminadora e o impulso da alegria para prosseguir.

         Há momentos, falava ao telefone com o nosso P. João Branco, sobre ti, sobre a tua generosa e radiante entrega ao cuidado dos mais débeis – os doentes, os pobres, os reclusos. Ele dizia: “tenho a certeza que ele foi disparado para o Céu”. Inadvertidamente travei essa tua viagem: “Se encontrou pelo caminho alguma prisão, ainda ficou por lá a cuidar dos seus inseparáveis presos!”

         A tua marca há de perpetuar-se no património espiritual desta Diocese de Aveiro – o teu amor aos deserdados, aos marginalizados. Que, afinal, já era sensível nos tempos do Seminário de Aveiro, na Conferência Vicentina, que nos levava aos pobres de Santiago e aos presos da Cadeia de Aveiro.

         Devo-te um agradecimento que acho que nunca fiz. Durante a Missão Jubilar, promoveste a visita de Jovens à Reclusão de Aveiro. E conseguiste que um grupo de Angeja tivesse essa experiência. Terá sido, porventura, das “atividades” que mais calou fundo nessa gente.

         O nosso Presbitério vai sentir a tua falta. Já vínhamos notando a tua ausência na sorridente moderação das “cerimónias” na Catedral, sobretudo nas Missas Crismais. Não sei se alguma vez trataste com aspereza ou azedume as nossas irrequietudes de clero buliçoso. E isso ajudava-nos a viver esse dia com um espírito de alegria familiar.

         Celebrarás na Liturgia Celeste – assim o creio – o próximo Natal e o 51.º aniversário da nossa Ordenação Presbiteral. Se eu por cá estiver, vou ter-te ao meu lado, nesse dia 21 de dezembro. Espero que me tenhas também contigo. Já agora, dá um abraço “celestial” aos amigos e conhecidos que encontrares por aí, desde os nossos familiares, aos nossos colegas, aos nossos Bispos…

         Até um dia destes, meu querido Padre João.


Foto: Agência Ecclesia