Entrevista | Rubrica promovida em parceria com o Correio do Vouga
É “imperativo equilibrar a ação tecnológica dos humanos” com o sentido da sabedoria – afirma o convidado da Comissão Diocesana da Cultura para a tertúlia do dia 26 de março (no Centro Universitário Fé e Cultura, às 21h30), em resposta a três questões colocadas pelo Correio do Vouga, por e-mail.
Professor, tradutor e investigador do Instituto de Filosofia da Universidade do Porto, Jorge Leandro Rosa defende uma “justiça climática” que passa pelo decrescimento económico nos países mais desenvolvidos. “Se é inegável que o crescimento é um benefício para aqueles povos que vivem abaixo de um certo limiar de pobreza, não é tão evidente que ele continue a favorecer aqueles que, beneficiando já de uma vida material digna, vão acabar por sofrer direta e indiretamente os efeitos da disrupção do sistema climático planetário, com todas as suas consequências ambientais, sociais e económicas”. Em foco, na tertúlia da próxima quinta-feira, estará o tema “cristianismo e desafio ecológico”.
CORREIO DO VOUGA – Temos realmente consciência do “desafio ecológico”, enquanto comunidade, ou é uma questão que passa ao lado, até “batermos com a cabeça na parede”? O que é preciso para despertarmos?
JORGE LEANDRO ROSA – O “desafio ecológico” foi, ao longo de muitos milénios, o desafio que a natureza pôs ao ser humano: o desafio dos recursos incertos, das doenças, das feras, da seca e das tempestades. Muitas culturas aprenderam a viver com esses constrangimentos e construíram as suas espiritualidades em torno desses perigos. Digamos, para empregar uma linguagem moderna, que essas culturas, suportando embora fragilidades impressionantes, se adaptavam e encontravam satisfação e razão de viver nos ecossistemas de que estavam dependentes. O mito do Bom Selvagem teve vida longa no Ocidente: supunha-se que estes povos não só desconheciam a agricultura como em nada influíam no seu meio ambiente. Sabemos hoje que tal não corresponde à realidade: mesmo as tribos da Amazónia tiveram impacte no seu meio físico, botânico e zoológico. Simplesmente, esses seres humanos viviam socialmente numa escala temporal muito diferente da nossa, que conduz agora uma espantosa aceleração de tudo.
Quer isso dizer que o “desafio ecológico” se inverteu: somos nós que não só dominamos as outras formas de vida, mas também as pomos em perigo. Mesmo que não poluíssemos de modo notório os solos e os cursos fluviais, a aceleração dos nossos modos de vida seria já a causa de um divórcio gravíssimo entre a humanidade e a natureza. Com efeito, os usos que damos ao espaço e ao tempo têm efeitos mais danosos do que as simples emissões e indústrias poluentes. Torna-se, pois, imperativo equilibrar a ação tecnológica dos humanos pela aspiração à sabedoria. Embora se diga que a ciência e a técnica tudo podem remediar, fenómenos como a extinção maciça de espécies e a mudança climática não têm solução científica que não passe pela restrição das causas dessas tendências. A questão não está no fim da vida no planeta, mas antes no desaparecimento dos recursos ambientais para um tipo de vida como o nosso.
Como vê o papel da religião, nomeadamente o cristianismo nesta questão? Ajuda a despertar ou a adormecer?
Os teólogos e os exegetas têm vindo a discutir as representações da natureza na Bíblia. Mas em épocas em que a natureza é pujante, não surpreende que as representações fossem maioritariamente aquelas do seu poder como instrumento de Deus. No séc. XX, diante dos estragos provocados pela sociedade industrial, começámos a ter a perceção de uma natureza frágil e injustiçada, o que permitiu que reencontrássemos inspiração ecológica em S. Mateus e noutras passagens dos Evangelhos. Nos anos 1930 e 40, afirma-se a obra ainda hoje surpreendente de um jesuíta e paleontólogo, o Padre Teilhard de Chardin, com a sua visão de uma convergência entre a ascensão do Espírito e o tempo orgânico. Para Teilhard, o progresso já não é aquele que arranca o homem à natureza, mas, ao invés, aquele que o leva a reintegrar-se na natureza no que esta tem de mais profundo e genésico. Reconciliados com a atividade incessante da natureza, os seres humanos podem, então, retomar o fio condutor das suas próprias ações.
Ao longo do último século, a relação entre perspetiva cristã e perspetiva ecológica foi oscilante e muitas vezes politizada e incompreendida. Ainda assim, essas e outras sementes “ecológicas” puderam florescer em muitas igrejas: recordo-me das iniciativas das igrejas protestantes, das reflexões dos bispos brasileiros, dos apelos do Patriarca Bartolomeu de Constantinopla e, é claro, das intervenções do Papa Francisco, que teve, a este respeito, uma influência que vai muito para além do mundo católico. Este “urdiu” uma convergência de grande alcance, que não pode cair no esquecimento e que se traduziu na quase simultaneidade da saída da Carta Encíclica Laudato Si e da realização da COP de Paris em 2015. A Encíclica está escrita sob o signo da “ecologia integral”, abrangendo a questão do clima e denotando uma compreensão mais profunda do ambiente que não posso aqui desenvolver.
Tem defendido a ideia de decrescimento. Pode explicar em que consiste? É a solução para o desafio ecológico?
Conviria considerar dois tempos: o caminho feito até à COP21/Laudato Si e o caminho feito desde aí. Antes de 2015, era predominante uma concepção das ameaças ao ambiente centrada na poluição local e regional. Com o Acordo de Paris, emergiu, quase de um dia para o outro, a noção de uma emergência planetária. Embora solidamente baseada na ciência, esta perspectiva parece a muitos abstracta e de difícil compreensão, o que deu espaço ao negacionismo climático. Mas como o aquecimento global progride inexoravelmente, todos começamos a testemunhar algumas das suas consequências mais evidentes.
O que tem isto a ver com as propostas de decrescimento? O incremento do efeito de estufa favorecido pelas emissões carbónicas é, em grande medida, um efeito da actividade económica humana. O produtivismo, ao globalizar-se, generalizou o culto do crescimento e ampliou as emissões. Ora, se é inegável que o crescimento é um benefício para aqueles povos que vivem abaixo de um certo limiar de pobreza, não é tão evidente que ele continue a favorecer aqueles que, beneficiando já de uma vida material digna, vão acabar por sofrer directa e indirectamente os efeitos da disrupção do sistema climático planetário, com todas as suas consequências ambientais, sociais e económicas. A “justiça climática” deve, pois, traduzir-se numa reavaliação constante dos objectivos da economia.
Terminarei dizendo que, a meu ver, o decrescimento económico só será possível e desejável se as nossas sociedades reencontrarem a disponibilidade para se ocuparem de outros “crescimentos”, à cabeça dos quais colocaria as dimensões espirituais da vida humana.