Qui. Jun 24th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)
Este texto é um extrato da Conferência proferida no Congresso da União de professoras católicas alemãs. A reunião teve lugar na grande sala da Saalbaus municipal. Ali proferiu a 18 de Maio, às 10 horas da manhã a conferência principal intitulada: Tempos difíceis e formação. A conferência articula-se com uma série de respostas ou soluções práticas aos problemas que a desastrosa situação económica da Alemanha trouxe ao sistema educativo, que se viu muito prejudicado com a redução dos apoios e subsídios.

Edith Stein*

«A crise económica do último verão e as medidas de emergência tomadas produziu um efeito drástico para o conjunto da instituição formativa. As consequências de tais medidas foram: em primeiro lugar, uma grande desordem em todos os estabelecimentos de ensino devido à incerteza da situação, aos despedimentos ou transferência de muitos professores; de todas as formas foi totalmente impossível levar por diante o trabalho com tranquilidade e constância.

Os professores foram os mais afetados; numa visão geral por causa dos repetidos cortes de salário e dos despedimentos e transferências. Os primeiros a sofrer as medidas de corte de salário foram os mais novos que agora iniciavam a sua carreira como professores, mas também os mais velhos e com provada experiencia foram arrancados do seu posto de trabalho e transferidos a situações totalmente novas, às que estavam desacostumados. As professoras, principalmente as professoras católicas foi quem mais sofreu com estas medidas.

O Trabalho de formação utiliza subsídios materiais e até certo ponto está dependente deles, mas na sua essência mais autêntica é uma obra do espírito e bebe de fontes inesgotáveis. E o nosso país é tão rico destas fontes que pode saciar o espírito de todos os estudantes, se as souber explorar. Porém temos ainda algo maior para oferecer, e temos que oferecer mais do que simples bens culturais objectivos. Os homens necessitados, sejam adultos ou crianças, pedem algo mais que bens culturais objectivos, pedem bens e calor humanos. E para tornar acessíveis os bens objectivos, para lhes dispensar uma força formativa do ser humano, é necessário vivê-los em nós mesmos e deixar que se manifestem desde o nosso interior. E mais ainda: todas as questões que hoje determinam e angustiam os homens, e a pesada situação de necessidade exigem discussão e solução. Os estudantes na escola, os companheiros de trabalho, os compatriotas que vivem em necessidade, chamam ao nosso coração; não precisam apenas do que temos, mas do que somos. E não podemos voltar atrás se queremos ajudar eficazmente.

Isto exige que os que se podem ajudar mutuamente unem os seus esforços. Os nossos estudantes precisam duma direcção para este e para o outro mundo, precisam de ser educados com fidelidade e afecto, por homens autênticos, animados pela alegria da fé, enérgicos e sacrificados. São milhares os jovens professores que juntamente com os mais antigos ainda esperam ser colocados: que todos se unam! Quando nos empenhamos em criar possibilidades de trabalho, para organizar o trabalho, não nos cansaremos nunca de dizer: recordai que o homem não vive só de pão! Recordai que não é só o corpo que tem necessidade de pão e trabalho para não se atrofiar e degenerar, mas também o espírito e a alma! Recordai que também existe um terreno espiritual baldio! Organizai o trabalho espiritual! E se ninguém nos escutasse ou se não se encontrarem tão depressa os caminhos, ou se através do complexo mecanismo legislativo fosse obstaculizada a sua realização: então teremos que nos antecipar com a nossa própria acção, nós as professoras católicas, como comunidade de emergência autónoma e disposta a ajudar. Já se fez algo com a oferta de aulas complementárias de apoio. Eis aqui algo bom e útil. Mas muito mais frutífero e gratificante que aperfeiçoamento profissional é o trabalho criativo, o serviço à comunidade. Procuremos, onde pudermos, fazer frutificar as energias improdutivas com o trabalho voluntário: na escola, na assistência infantil, no trabalho da formação do povo, na livre criatividade científica e artística.

É uma grande tarefa a que temos diante de nós: dar tudo o que é necessário dos meios materiais, abrir novos caminhos e animar os homens que perderam o ânimo e deixaram que a amargura se lhes impusesse, de tal modo que unam valentia e confiança e sejam capazes de ir por estes caminhos novos. Uma missão tão grande que o nosso ânimo desfaleceria se a tivéssemos que realizar com as nossas próprias forças. Mas não é assim. Somos professoras católicas. E se o queremos levar a sério temos à nossa disposição tesouros inesgotáveis: os tesouros da graça da nossa Santa Igreja.

A festa do Pentecostes poe-nos novamente e de forma viva perante os olhos, como o Espírito desde o alto transformou uns pobres pescadores da Galileia para que pudessem falar em nome de Jesus perante o paralítico: “levanta-te e anda!”, para que pudessem anunciar o Evangelho até aos confins da terra e renovar a face da terra. O Espírito do Alto foi enviado a nós da mesma forma que a eles: o único necessário é que os corações estejam dispostos. Hoje nada nos faz tanta falta como o Baptismo da água e do fogo. Na grande luta entre a Igreja Católica e o Comunismo a dianteira pertence aos educadores. Equipar-nos para esta luta e permanecermos o tempo necessário equipados é a nossa tarefa mais urgente. «Se o sal se desvirtuar com que se salgará?» O sal só tem força enquanto o Espírito do Senhor atua nele. Equipar-se significa acolher o Senhor e conservá-lo dentro de si. É muito simples, posto que não está longe de nós – «n’Ele vivemos, nos movemos e existimos». E quando o procuramos deixa-se encontrar. Sim, Ele não espera apenas que o busquemos, mas está Ele mesmo continuamente à nossa procura e sai ao nosso encontro. Ele fala-nos através da sua Palavra. Ah! Se o aprendêssemos a escutar vivamente, com o espírito e o coração em vez dos sentidos mortos então experimentaríamos que a Palavra de Deus é vida e que com ela entra em nós a força de Cristo. «O Senhor é minha luz e salvação. A quem temerei?» Quem poderia assimilar um tal verso sálmico, sem que fosse ao mesmo tempo luz para a sua alma e nele se despertasse um vivo animo para qualquer batalha? E se aprendêssemos a falar vivamente: a não distribuir a grande e Santa Palavra como moeda corrente, mas com todo o seu sentido, impregnado da frescura de um espírito desperto e de um coração incandescente – então experimentaríamos, que nas nossas palavras vive a força do Espírito, que desperta vida noutros corações e os atravessa até chegarem ao céu, repartindo graça e consolo.

Ele não nos fala só na Palavra da Escritura – Ele vive entre nós. Pôs a sua tenda no meio de nós e a sua alegria é estar com os filhos dos homens. Cada vez que entramos numa Igreja digamos que dom tão grande o podermos vir até ao Senhor e que possamos falar com Ele, como o nosso Amigo mais amoroso e fiel. Ah! Se a nossa fé eucarística fosse vital, em nenhum lugar do mundo nos sentiríamos sós e estranhos e poderíamos oferecer aos nossos alunos um lar para toda a vida.

Rompamos as filas e ajudemo-nos mutuamente para que cheguemos a ser capazes do apostolado a que fomos chamadas: levar às trevas do tempo a luz da eternidade, tirar das ruinas o que está destinado a durar, e construir o novo Templo, e fazer com que todos os lamentos cessem, pela superabundância da viva alegria do Aleluia Pascal.»

*Edith Stein, Obras Completas. Vol IV – Escritos Antropológicos y pedagógicos. Tempos difíceis e formação. Coeditores Ediciones El Carmen, Editorial de Espiritualidad, Editorial Monte Carmelo. Pp 388-398.
Imagem de Mojca JJ por Pixabay