Dom. Jun 13th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)
«Encontramo-nos a meio do ciclo litúrgico do Natal. A grande solenidade que nos precedeu, como estrela brilhando no escuro céu nocturno do Advento, passou, para alguns de nós talvez muito depressa. Não parou, como a estrela sobre a gruta de Belém. Passou adiante, e talvez estejamos atemorizados, porque não pudemos compreender ou penetrar em profundidade o que ela queria e devia trazer-nos. Por isso, é consolador que a Santa Igreja, como uma mãe tão sábia quanto benévola, tenha em conta a debilidade dos seus filhos, e tenha previsto um bom número de semanas para complementar o Nascimento. Podemos assim recuperar alguma coisa do que se tenha perdido; e mesmo para hoje não saberia propor nada melhor do que permanecermos um pouco em recolhimento a contemplar, em retrospectiva, as semanas passadas.»

 

Edith Stein*

[I parte]

Advento e Natal

Quando os dias começam a ser mais pequenos, quando (num Inverno normal) caem os primeiros flocos de neve, afloram à mente, tímidos e submissos, os primeiros pensamentos sobre o Natal. Só do pronunciar desta palavra brota já uma magia, à qual quase nenhum coração saberá furtar-se. Mesmo aqueles que pertencem a outros credos, e aqueles que não têm fé, aqueles para quem a velha história do Menino de Belém não diz nada, preparam a festa e reflectem como podem aqui e ali acender uma centelha de felicidade.

É como se a terra, desde há semanas e meses atrás, tivesse sido percorrida por uma cálida onda de amor. Uma festa do amor e da alegria: eis a estrela para a qual todos se encaminham nos primeiros meses de Inverno. Para os cristãos, e sobretudo para os cristãos católicos, trata-se de algo ainda mais profundo. A estrela condu-los ao presépio em que está deitado o Menino que traz a paz ao mundo. A arte cristã apresenta-O aos nossos olhos em inúmeras e belíssimas imagens; velhas melodias, nas quais ressoa toda a magia da infância, nos falam d’Ele.

No coração daquele que vive em Igreja desperta uma santa nostalgia com os toques do «rorate» e os cânticos do Advento; e naquele, em quem penetrou o inesgotável manancial da santa liturgia, palpitam dia a dia as exortações e promessas do Profeta da Encarnação: «Rorate, coeli, desuper et nubes pluant justum! Prope est jam Dominus – Venite adoremus. – Veni, Domine, et noli tardare. – Jerusalem, gaude gaudio magno, quia veniet tibi Salvator». Desde o dia 17 até ao dia 24 de Dezembro entoam-se as solenes antífonas «Oh» do Magnificat (O Sapientia, O Adonai, O Radix Jesse, O Clavis David, O Oriens, O Rex gentium, O Emmanuel), cada vez mais ansiosas e fervorosas: «Veni ad liberandum nos». Ressoa cada vez mais prometedora: «Ecce completa sunt omnia» (no último Domingo do Advento); e finalmente: «Hodie scietis, quia veniet Dominus et mane videbitis gloriam eius».

Precisamente quando ao entardecer se acendem as luzes da árvore e se trocam os presentes, uma nostalgia insaciável nos atira para fora, em direcção a outra luz, até que os sinos tocam para a Missa do Galo e – «Dum medium silentium teneret omnia» – o mistério desta Noite de Natal renova-se nos altares cobertos de flores e de luzes: «Et verbum caro factum est». Esta é a hora da plenitude: «Hodie per totum mundum melliflui facti sunt coeli».

O séquito do Filho de Deus feito carne

Já todos fizemos a experiência de uma semelhante alegria de Natal. Porém, o céu e a terra ainda não se uniram. A estrela de Belém é, ainda hoje, uma estrela que brilha numa noite escura. No dia seguinte ao Natal a Igreja depõe os paramentos brancos e reveste-se da cor do sangue; e no quarto dia (se não se trata como este ano, de um domingo) o roxo dos defuntos: Estêvão, o proto-mártir, o primeiro a seguir o Senhor até à morte, e os Santos Inocentes, os meninos de Belém e de Judá, massacrados ferozmente por cruéis carrascos, constituem o séquito do Menino no presépio. Que quer dizer tudo isto? Onde está a exultação dos exércitos celestes? Onde a felicidade da Noite Santa? Onde está a paz na terra? Paz na terra aos homens de boa vontade! Mas nem todos são de boa vontade. Precisamente por isso o Filho do Pai Eterno teve que baixar da glória dos céus, porque o mistério do mal envolveu a terra com as suas trevas.

As trevas cobriam a terra e Ele veio como luz que brilha nas trevas, mas as trevas não O receberam. Àqueles que O receberam trouxe luz e paz: a paz com o Pai celeste, a paz com todos os que, como Ele, são filhos da luz e do Pai celeste, e a paz profunda dos corações. O Príncipe da paz, porém, a esses não traz a paz, mas a espada. Para eles é pedra de escândalo, contra a qual chocam e se despedaçam. Esta é uma verdade dura e séria que não devemos encobrir com o encanto lírico do Menino de Belém.

O mistério da Encarnação e o mistério do mal estão estreitamente ligados. A luz que desceu do céu, contrasta com a noite do pecado tão escura como lúgubre. O Menino do presépio estende os bracinhos, e o seu sorriso parece predizer já o que mais tarde os lábios do Homem dirão: «Vinde a Mim todos vós que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei». E sobre aqueles que escutam o seu chamamento derramou o orvalho da graça pelas mãos do Menino e “são cumulados de um grande contentamento”: os pobres pastores, aos quais, nos campos de Belém, o esplendor do céu e a voz do anjo anunciaram a boa notícia, e que a ela responderam com o seu «transeamus usque ad Bethlehem», pondo-se a caminho; e os reis, que do longínquo Oriente seguiram com fé simples a maravilhosa estrela. Essas mãos dão e pedem ao mesmo tempo: Vós, ó sábios, deixai o vosso saber, e tornai-vos simples como as crianças; vós, ó reis, desprendei- vos das vossas coroas e dos vossos tesouros, e ajoelhai-vos com humildade diante do Rei dos Reis; assumi, sem hesitação, as canseiras, as penas e as tribulações que o seu serviço requer.

 A vós, crianças, que ainda não podeis dar nada de vossa livre vontade, os carrascos arrancam a vossa tenra vida, antes ainda de ter iniciado verdadeiramente: não podia ser entregue de modo melhor do que este, sacrificada pelo Senhor da Vida. «Segue-me», assim falam as mãos do Menino, como dirá mais tarde a boca do Homem. Assim dirá ao discípulo que o Senhor amava e que agora também faz parte do séquito do Presépio. E S. João, o jovem puro com coração de criança, seguiu-O sem perguntar: aonde? porquê? Deixou a barca de seu pai e seguiu o Senhor por toda a parte no seu caminho, até ao cimo do Gólgota. «Segue-me» – o mesmo fez o jovem Estêvão. Seguiu o Senhor na luta contra o poder das trevas, contra a cegueira obstinada da incredulidade rebelde, dando testemunho d’Ele com as suas palavras e com o seu sangue; seguiu-O também no espírito, espírito de amor que combate o pecado, mas ama o pecador e que, entre as aflições da morte, intercede ainda junto de Deus pelos seus próprios assassinos.

São figuras luminosas as que se ajoelham junto do presépio: os ternos meninos inocentes, os pastores fiéis, os reis humildes, Estêvão, o discípulo ardente, e João, o apóstolo amado: todos eles seguiram o chamamento do Senhor. A eles se contrapõe a noite do incompreensível endurecimento dos corações, a noite da cegueira: os escribas, que podiam assinalar onde e quando o Salvador deveria vir ao mundo, mas que de tal sabedoria não souberam tirar o seu «transeamus usque ad Bethlehem»; o rei Herodes, que quis tirar a vida ao Senhor da Vida. Diante do Menino do presépio, os corações dividem-se. Ele é o Rei dos Reis e o Senhor da Vida e da morte. Pronuncia o seu «Segue-me» e quem não é por Ele é contra Ele. Pronuncia-o também para nós, e põe-nos diante dos olhos a escolha entre a Luz e as trevas.»

*Santa Teresa Benedita da Cruz, A Mensagem de Natal. Edições Carmelo, Avessadas 2013. pp 2-7.
Imagem: A adoração dos pastores – Rembrandt (1606-1669)