Dom. Jun 13th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

Edith Stein*

[IV parte]

 

Quando a luz suave das velas do Advento – uma luz misteriosa, no meio de uma obscuridade também misteriosa – ilumina as escuras tardes de Dezembro, despertam em nós os pensamentos consoladores de que a Luz divina, o Espírito Santo, nunca deixou de iluminar as trevas da humanidade caída. O Espírito permaneceu fiel à criação sem levar em conta as suas infidelidades. E mesmo quando as trevas não se queriam deixar penetrar pela luz celestial, houve sempre lugares abertos onde essa luz pôde ser derramada.

Um raio dessa luz caiu já sobre os corações dos nossos primeiros pais na hora do juízo a que tiveram de submeter-se; um raio luminoso, que despertou neles a consciência da sua culpa; um raio ardente, que os fez consumir-se na dor do arrependimento; um raio purificador e depurador, que os preparou para receber a luz terna da estrela da esperança, que lhes foi prometida nas palavras do Proto-Evangelho.

Os corações de todos os homens foram acariciados ao longo dos séculos por esse raio de luz divina, tal como o tinham sido já os corações dos nossos primeiros pais. A luz divina, escondida aos olhos do mundo, iluminava e purificava esses corações, suavizava a sua matéria dura, enquistada e, por vezes, deformada, e dava-lhes nova forma, com mão segura de artista, conforme a imagem de Deus.

Da mesma maneira, escondidas aos olhos dos homens, foram e são formadas as pedras vivas que constituem a Igreja primeiramente invisível. Dessa Igreja invisível nasce, no entanto, a Igreja visível, que se manifesta sempre de novo com luminosas obras e revelações divinas, com novas epifanias. A obra silenciosa do Espírito Santo no mais íntimo das suas almas fez dos patriarcas amigos de Deus.

Porém, quando eles alcançaram a plenitude necessária para se converterem em seus instrumentos apropriados, fê-los protagonistas de obras admiráveis e fundamento da evolução histórica, de modo que pôde fazer nascer deles o seu povo eleito. Nem todos aqueles que Deus toma como seus instrumentos têm que ser preparados dessa maneira.

Muitos homens podem servir a Deus sem o seu conhecimento e até, inclusive, contra a sua própria vontade. Eventualmente também, homens que não pertencem, nem exteriormente nem interiormente, à Igreja. São movidos como o martelo ou o cinzel do artista, ou as tesouras com que o vinhateiro poda os ramos. Nos que pertencem à Igreja pode preceder também temporalmente a pertença exterior à interior, e isto pode chegar a ser muito importante, por exemplo, quando alguém é baptizado sem ter ainda consciência da sua fé, mas que a alcança da vida exterior da Igreja.

O fundamento último continua a ser, no entanto, a vida interior; a formação do homem vai de dentro para vida escondida e epifania fora. Quanto mais profundamente a alma estiver unida a Deus, e quanto mais desinteressadamente se tiver entregado à sua graça, tanto mais forte será a sua influência na configuração da Igreja. E vice-versa, quanto mais profundamente uma época estiver submersa na noite do pecado e afastada de Deus, tanto mais necessita de almas que estejam intimamente unidas a Ele.

Mesmo nessas situações Deus não nos abandona. Da noite mais escura surgem as grandes figuras dos profetas e dos santos, mesmo quando, em grande parte, a corrente vivificante da vida mística permanece invisível. Entretanto, não há dúvida nenhuma de que as mudanças decisivas da história do mundo foram essencialmente influenciadas por almas sobre as quais pouco ou nada dizem os livros de história. E quais são essas almas, às quais havemos de agradecer as transformações decisivas da nossa vida pessoal, é algo que só experimentaremos no dia em que tudo o que está escondido for revelado.

Se falamos de uma Igreja invisível, é porque as almas escondidas não vivem isoladas, mas num contexto vivo e dentro da grande ordem do plano divino. A sua eficácia e a sua união íntima podem permanecer escondidas para elas próprias e para os outros durante toda a sua vida terrena. Contudo, é possível também que algo dessa ordem saia à luz e se torne visível. É essa a situação das pessoas e dos acontecimentos que configuram o mistério da Encarnação. Maria e José, Zacarias e Isabel, os pastores e os Magos, Simeão e Ana, todos eles viveram na intimidade com Deus e estavam preparados para a tarefa especial que lhes haveria de ser encomendada, ainda antes de terem experimentado o encontro admirável com o Senhor e antes de poderem entender o caminho da sua vida como um caminho para esse ponto culminante. Em todos os hinos que a tradição nos legou se expressa a sua admiração diante das maravilhas de Deus.

Encontramos nos homens que se reuniram em volta do presépio uma imagem clara da Igreja e do seu crescimento. Os representantes da antiga dinastia real, à qual tinha sido prometido o Salvador do mundo, e os representantes do povo fiel, constituem o traço de união entre o Antigo e o Novo Testamento. Os Reis do Oriente representam os pagãos, aos quais desde Judá lhes seria dada a salvação. Temos assim uma Igreja constituída por judeus e pagãos.

Os Magos chegaram ainda ao presépio como representantes daqueles que em todos os países e povos procuram a salvação. A graça conduzira-os ao presépio de Belém, antes de pertencerem à Igreja visível. Vivia neles um desejo puro de alcançar a Verdade, que não se deixa conter nas fronteiras das doutrinas e tradições particulares. Deus é a Verdade e quer manifestar-se a todos aqueles que O procuram com coração sincero; por isso, tarde ou cedo, a estrela tinha que aparecer a esses sábios, para os conduzir pelo caminho da Verdade. Por isso, apresentam-se diante da Verdade encarnada e, prostrados diante dela, depõem as suas coroas a seus pés, pois todos os tesouros do mundo não são senão pó em comparação com ela.

Os Magos têm também para nós um significado especial. Embora pertencendo já à Igreja visível, percebemos muitas vezes a necessidade interior de superar os limites das concepções e costumes herdados. Já conhecíamos a Deus, no entanto sentíamos que Ele queria ser procurado e encontrado de uma maneira nova.

Por isso, buscávamos uma estrela que nos indicasse o caminho recto. Essa estrela manifestou-se na graça da nossa vocação. Nós seguimo-la e no fim do caminho encontrámos o divino Menino. Ele estendeu as suas mãos para receber os nossos dons e esperava de nós o ouro de um coração livre dos bens terrenos, a mirra da renúncia à felicidade deste mundo para receber em troca a participação na vida e nos sofrimentos de Cristo e, finalmente, o incenso de uma vontade com altas aspirações, que se entrega totalmente para se submeter à vontade divina. Em troca desses dons o divino Menino entrega-nos a sua própria vida.

*Edith Stein, A Mensagem de Natal. Edições Carmelo, Avessadas 2013. pp 30-33.
Imagem: A adoração dos Magos – Rembrandt (1606-1669)