Dom. Jun 13th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

Edith Stein*

Vamos acompanhar Edith Stein na conferência que proferiu a 5 de Janeiro de 1933 por ocasião de um curso do Instituto alemão para a pedagogia científica, que pretendia assinalar os princípios gerais de uma pedagogia católica. O tema do curso era: “Die Katolische Pädagogik in ihren Grundlagen und in ihrer Bedeutung, A pedagogia católica e os seus fundamentos e significado”.
Dez dias depois da conferência escreverá a uma amiga e faz a avaliação crítica da sua intervenção como conferencista: “Visto desde fora, considero que foi um êxito e estou muito agradecida a todos os que ajudaram com a sua oração. Qual seja o efeito que produzirá a seu tempo, é algo que escapa ao nosso conhecimento. Foram dias esgotantes que claramente me manifestam a grande responsabilidade que é a tarefa que temos” (Ct 343). 
O texto que apresentamos baseia-se no texto autógrafo e nas mencionadas publicações alemãs. O texto está dividido em quatro subtemas e a introdução: Significado da fé e das verdades da fé para a ideia e o trabalho da formação; I –A conceção católica da natureza humana; II – O Fim do Homem; III – Os chamados a serem formadores da juventude; IV – O processo de formação da juventude.

 

A Conceção Católica da Natureza Humana

De fundamental importância para a conceção da educação é a ideia de homem que – explicitada teoricamente ou proposta de modo ingénuo – domina o pedagogo. Para quem pensa que o homem está totalmente corrompido e é incapaz de naturalmente fazer o bem, a educação do ser humano por parte do ser humano como rendimento puramente natural parece impossível. O ser humana, atravessado pelo pecado até às suas raízes mais profundas, não pode educar nem ser educado. Para quem acredita na bondade da natureza humana a educação, no entanto, é ou totalmente supérflua – dado o pressuposto natural de que a natureza se desenvolve por si mesma – e a sua tarefa é dominar o “deixar crescer”; ou será uma atividade bastante fácil e agradável: não é necessário mais do que um ensinamento e de um correcto plano de actividades, para alcançar a perfeita formação do homem, estamos diante do otimismo da pedagogia da ilustração.

A conceção católica está no meio destes dois extremos. Para ela o objecto da educação é “o homem na sua totalidade… o espírito unido ao corpo na unidade da natureza, com todas as suas faculdades naturais e sobrenaturais, tal como o conhecemos por meio da razão e da revelação; quer dizer, o homem caído do seu estado original paradisíaco, que por meio de Cristo foi redimido e reintegrado novamente no seu estado de filho adotivo de Deus, contudo, não nas prerrogativas sobrenaturais da imortalidade do corpo e da integridade ou harmonia das suas inclinações. Na natureza humana ficam as consequências do pecado original, sobretudo a debilidade da vontade e dos instintos desordenados”.

Este é o fundamento que temos que ter em conta: o homem era originalmente bom; a sua natureza perverteu-se pelo pecado original, mas não totalmente de modo a perder todas as suas capacidades naturais; por meio da Redenção de Cristo foi libertado o caminho que conduz à filiação divina, e com isto foi aberta a oportunidade de uma reinstauração da “justiça” originária. Mas o homem redimido não recuperou apenas o estado originário; nele permanece a “fomes pecati”[1]; todo o seu caminho neste mundo é uma luta contra a corrução da sua natureza e uma luta pela “justiça”, uma luta que conduz o próprio ser humano segundo a sua livre vontade; mas uma luta em que ao mesmo tempo, a graça de Deus está a atuar nele e por ele, e que realiza o essencial: é esta que a que definitivamente conduz o homem à perfeição na glória.

Os alunos e educadores são seres humanos “in statu viae”[2]. Clarifiquemos um pouco mais como a natureza humana está “em estado de viandantes”. Corpo e alma são uma unidade: o espírito necessita do corpo como instrumento de conhecimento – uma vez que o conhecimento humano se baseia nos dados dos sentidos, e consequentemente está ligada aos órgãos corporais – e como instrumento das suas acções; mas este instrumento indispensável é ao mesmo tempo um impedimento: os sentidos estão submetidos ao engano; as debilidades e doenças do corpo obstaculizam o espírito à hora de levar por diante os seus projetos; e as necessidades do corpo forçam o espírito no seu serviço; é próprio da natureza caída que os instintos corpóreo-sensoriais não queiram subordinar-se ao espírito, que anseiem o domínio e, se cedemos, que sufoquem a vida espiritual superior. O homem é capaz de conhecer, mas está submetido ao erro: se dá fé acriticamente ao que os sentidos lhe apresentam, e se não procede segundo as leis do pensamento. O homem tem conhecimento do bem, e a sua consciência diz-lhe, em casos concretos, o que tem que fazer. Mas a vontade nem sempre tende ao que foi compreendido como um bem; deixa-se determinar pelos instintos sensíveis.

Todo este estado é um estado de suspensão. Os perigos assinalados existem de facto; mas em nenhum caso o homem tem que se deixar dominar por eles; diante de todos os perigos tem à sua disposição meios de ajuda naturais e tem a liberdade de os usar: pode exercer a crítica perante os sentidos ou diante dos processos intelectuais, pode dominar os instintos ou ceder-lhes, pode aspirar ao conhecimento do bem e realizá-lo. Todas estas possibilidades subsistem também para quem não foi redimido, mas é inverosímil, se não praticamente impossível, que este seja capaz de escapar a todos os perigos. Inclusive o homem em estado de graça vive um estado de suspensão, mas está protegido pela força do Espírito Santo, de tal modo que não é fácil que sucumba ao perigo.

O que defini como estado de suspensão – a liberdade de escolher entre diversas possibilidades – dá-nos um ponto de apoio para o trabalho educativo do homem. A liberdade torna a educação possível, mas também necessária: conseguir a graça, e permanecer e progredir nela depende da colaboração do ser humano. Que o trabalho educativo tenha que ser exercido em primeiro lugar sobre os outros, está fundamentado na ordem originária do mundo do homem, que fez o primeiro homem perfeito no seu ser, mas para as gerações seguintes, previu a sua procriação e educação por homens “maduros”.

O trabalho educativo é uma intervenção no estado de suspensão, para desde aí levar a que a escolha se faça sempre de forma correta. Para isso é necessário um conhecimento profundo do próprio estado de suspensão (quer dizer da natureza humana em statu viae, da situação particular concreta do aluno, finalmente da situação concreta do educador, na sua condição de viandante, que deve conhecer claramente o que deve desempenhar na sua função de educador); além disso é necessário um critério para o conhecimento da decisão correta, quer dizer, claridade sobre qual é o fim do ser humano; finalmente conhecimento e – quanto seja possível – domínio dos meios e caminhos que possam conduzir à meta. “Na medida do possível”, de tudo o que já se disse sobre o statu viae é possível deduzir que não há educação humana sem ter em conta a condição humana de status viae; isto porque, por um lado, não existe nenhuma segurança definitiva contra a debilidade, a doença, o engano, o erro e o pecado; por outro lado, porque também o educador no seu trabalho educativo permanece submetido a estas carências. Converter o estado de suspensão em “status termini” só é possível a Deus.

Antes de passar à consideração do fim, queremos apresentar ainda o satus viae noutro sentido: o satus viae não diz apenas respeito ao individuo humano considerado isoladamente. O pecado original foi um afastamento do ser humano de Deus, e a sua consequência foi uma perturbação da ordem de todo o universo. O homem pecador está em rebelião contra Deus, e a criação inteira está em rebelião contra ele, que se lhe quer impor na luta contra ela. Em lugar de um temor reverencial pelas criaturas, aprovando-as no que são e procurando preservá-las e socorre-las, entrou no plano da sua exploração em favor de si próprio, o que se estende aos próprios semelhantes, mesmo quando a natural “simpatia” não foi suprimida. O homem em estado de graça regressou à relação filial com Deus, e nele abriu-se o olhar voltado para os outros enquanto criaturas de Deus e filhos de Deus. Mas também na sua relação com o Senhor e com o mundo, se encontra numa situação de suspensão. Permanece a possibilidade da queda, permanece a concupiscência, o egoísmo, a sede de poder. A chegada da ordem justa ao homem significa, ao mesmo tempo, a chegada da ordem justa ao mundo, em particular à vida social.

 

*Edith Stein, La Formación de la Juventud a la Luz de la fé Católica, Obras Completas IV, Escritos Antropológicos y pedagógicos. Coeditores: Espiritualidad – Monte Carmelo – El Carmen, 2003. Pp 425-428.

[1] “Inclinação para o pecado”.

[2] “Em estado de viandantes ou em peregrinação”.

Imagem de Andrew Martin por Pixabay