- O meu Servo será enaltecido.
Impressionam as palavras que escutámos do quarto cântico do Servo de Javé referidas a Jesus: o servo foi “trespassado por causa das nossas culpas; cresceu diante do Senhor como um rebento, como raiz numa terra árida, sem distinção nem beleza que atraia o nosso olhar, nem aspeto agradável que possa cativar-nos; homem de dores, pessoa desprezível, da qual se não faz caso; o castigo que nos salva cairá sobre ele; foi-lhe dada sepultura entre os ímpios; oferece a sua vida como sacrifício de expiação e cumpre a vontade do Senhor; ele carregou com as culpas das multidões e intercedeu pelos pecadores; e por causa das suas chagas é que fomos curados”.
As feridas abertas no corpo de Jesus assumem tudo aquilo que no ser humano e na história da humanidade deve ser salvo. Dessas feridas brotará o bálsamo da misericórdia divina que fará ressurgir da morte uma vida nova.
- Nas tuas mãos encomendo o meu espírito.
Participando na morte de Jesus, percorremos o caminho que nos traça o crucificado em direção à vida eterna, de filhos ressuscitados no amor de Deus, que é Pai. Olhando para o crucificado, aquele que trespassaram, a nossa vida cresce e a nossa fé fortalece-se, mesmo no meio dos problemas e das dificuldades.
As últimas palavras de Jesus na cruz são como que um selo da sua missão salvadora. Tudo se cumpriu, o amor de Deus foi derramado até ao extremo e o pecado e a morte foram vencidos no trono do amor que é a Cruz de Cristo. O que se iniciou no Jardim das Oliveiras, o Getsémani, termina noutro jardim onde está um sepulcro onde ainda ninguém tinha sido sepultado, anunciando uma vida nova que nasce para todos, nasce para mim e para ti que participas nesta celebração. Junto da cruz está cada um de nós, tal como está Maria e João, o discípulo amado. Ela é a imagem da Igreja mãe e esposa que recebe nos seus braços o “grão de trigo que cai à terra e dá muito fruto”. Os braços abertos de Jesus são a expressão do amor misericordioso de Deus por cada um de nós.
Num sermão de S. Basílio Magno sobre o Espírito Santo pode ler-se:
«Para atingir a vida perfeita, é necessário seguir a Cristo, não apenas nos exemplos de mansidão, humildade e paciência que nos deu durante a sua vida, mas também na sua própria morte, como diz São Paulo, o imitador de Cristo: «Assemelhando-me a Ele na sua morte, para ver se posso chegar à ressurreição dos mortos» (Fl 3,10).
Mas como poderemos assemelhar-nos a Cristo na sua morte? Sepultando-nos com ele pelo Batismo. Em que consiste esta sepultura e qual é o fruto desta imitação? Antes de mais, trata-se de cortar com a vida passada, mas ninguém pode conseguir isto se não nascer de novo, segundo a palavra do Senhor, porque o renascimento, como o nome indica, é o começo de uma vida nova. Por isso, antes de começar esta vida nova, é necessário pôr fim à antiga. Assim como no estádio, aqueles que chegam ao fim da primeira parte da corrida costumam ter uma pequena pausa e descanso antes de iniciar o regresso, do mesmo modo era necessário que nesta mudança de vida interviesse a morte, pondo fim ao passado para começar novo caminho.
E como imitar a Cristo na sua descida à região dos mortos? Imitando pelo batismo a Sepultura de Cristo, porque o corpo dos batizados fica de certo modo sepultado na água. Por isso reconhecemos um só Batismo salvador, já que é uma só a morte que resgata o mundo e uma só a ressurreição dos mortos, das quais é figura o Batismo. Amen».
Aveiro, 7 abril 2023.
† António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro
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