Dom. Nov 28th, 2021

Aveirenses notáveis

Fernando Lavrador – Engenheiro especialista em semiótica e filmologia

Cardoso Ferreira (textos)


Fernando Gonçalves dos Santos Ferreira Lavrador, filho de Manuel Ferreira Lavrador e de Maria José dos Santos Lavrador, nasceu no dia 13 de março de 1928, no Porto, cidade onde também faleceu, no dia 20 de agosto de 2005.

Na sua cidade natal, Fernando Lavrador frequentou o Liceu Alexandre Herculano e a Universidade do Porto, onde se formou em Engenharia Eletrotécnica (ano letivo de 1953/4).

Depois de estagiar na EFACEC, especializou-se em telecomunicações e trabalhou em estudos de comutação telefónica automática e de teletráfego no GECA (Grupo de Estudos de Comutação Automática), organismo pertencente à Direcção dos Serviços Técnicos dos CTT.

A partir de 1964, ingressou no Gabinete de Estudos da Fábrica de Motores Eléctricos Rabor (Ovar) e, posteriormente, passou a engenheiro-chefe dos Serviços de Manutenção de Instrumentos e de Equipamentos de Controle Pneumáticos, Elétricos e Eletrónicos da Companhia Portuguesa de Celulose, mais tarde Portucel (Fábrica de Cacia).

No início da década de 1980, regressou aos CTT, mais tarde transformados em Portugal Telecom, ingressando no Centro de Estudos de Telecomunicações (CET), organismo sedeado em Aveiro e que herdou as tradições do antigo GECA. Aqui, dedicou-se à continuação dos seus estudos de teletráfego e ao início do estudo da engenharia de telefiabilidade. Sobre esta temática, publicou alguns livros e muitos textos de apoio às suas palestras e lições especializadas bem como artigos de natureza técnica nas revistas “Electricidade”, “Boletim da Ordem dos Engenheiros” e “Telecomunicações”.

Ensaísta no campo da semiótica e da filmologia

Em março de 1998, quando completou setenta anos e se aposentou da Portugal Telecom, Fernando Lavrador passou a colaborar no Instituto de Telecomunicações, pólo de Aveiro. Por essa altura, na Universidade de Aveiro, ministrou a disciplina de Engenharia de Teletráfego, em dois Mestrados em Redes e Serviços de Telecomunicações.

A par da engenharia eletrotécnica, Fernando Lavrador desenvolveu uma intensa atividade ligada ao cinema e ao ensaio, tendo sido um dos fundadores do Clube Português de Cinematografia, mais tarde designado por Cineclube do Porto, associação da qual foi o primeiro vice-presidente e secretário (1945) e sócio honorário. Foi igualmente dirigente e colaborador do Clube de Cinema de Coimbra, e colaborador do Cineclube de Aveiro e um dos fundadores e dirigente da Cooperativa de Cinema “Grande Plano”, de Aveiro.

Como ensaísta, Fernando Lavrador distinguiu-se sobretudo no campo da semiótica e da filmologia, tendo publicado numerosos ensaios, para além da colaboração que deixou impressa em vários jornais (entre os quais: “O Comércio do Porto”, “Sol”, “Portucale”, “Vértice”, “Via Latina”, cadernos de cinema “Projecção”) e revistas (“Cineclube”, “Cinema”, “Cinema Novo”, “Visor” e “Celulóide”…)

Entre 1947 e 1954, escreve algumas sinopses, cenários literários e planificações completas de filmes que nunca se chegaram a concretizar, devido à falta de viabilidade da produção do cinema português.

Nos anos de 1953 e 1954 escreveu o ensaio “Justificação Estética do Cinema”, que seria publicado 20 anos mais tarde.

Em outubro de 1970, presidiu ao Primeiro Congresso Nacional de Cinema Não-Profissional, no qual apresentou uma comunicação.

No ano de 1986 editou o primeiro dos três volumes da obra “Estudos de Semiótica Fílmica”, tendo sido publicadas 1096 páginas desta obra que nunca chegou a terminar.

Participou em diversos congressos, conferências e encontros sobre cinema e fez parte também de júris de diversos festivais de cinema profissional e não-profissional. Organizou a retrospetiva “Cinema Português e Literatura” no XII Festival Internacional de Cinema da Figueira da Foz.

Após a revolução do 25 de abril de 1974, Fernando Lavrador foi escolhido pelo Movimento Democrático Popular (MDP) para diretor adjunto do jornal aveirense “Libertação”. Mais tarde, na década de 1990, publicou no jornal aveirense “Litoral” uma série de artigos intitulada “Reflexões de um Marginal”.

Alvo de diversas homenagens

Em 1996, Fernando Lavrador foi agraciado pela Câmara Municipal do Porto, no âmbito das Comemorações dos 100 Anos do Cinema Português, com a Medalha de Ouro de Mérito Cultural daquela autarquia, pela “obra ímpar que realizou no campo do estudo da semiótica do cinema”.

Em 2010, o “AVANCA’10 – Encontros Internacionais de Cinema, Televisão, Vídeo e Multimédia” homenageou Fernando Lavrador, tendo o Cineclube de Avanca criado o “Prémio Eng.º Fernando Gonçalves Lavrador”, que distinguiu a melhor comunicação apresentada na conferência daquele evento.

Igualmente, Fernando Lavrador foi alvo, em fevereiro de 2006, de uma homenagem conjunta promovida pela ADERAV (Associação de Defesa e Estudo do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro), Teatro Aveirense, Cineclubes de Aveiro, do Porto e de Avanca, que contou com o apoio empenhado da PT Inovação, da Portucel, do Instituto de Telecomunicações e da Delegação de Aveiro da Ordem dos Engenheiros.