‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

Edith Stein*

[II parte]

3.1. Unum esse cum Deo

Não sabemos para onde nos conduz o Menino Deus sobre esta terra e não devemos perguntá-lo antes do tempo. Apenas sabemos que tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus. E, além disso, que os caminhos pelos quais o Salvador nos guia ultrapassam os limites desta terra.

«O admirabile commercium! Creator generis humani, animatum corpus sumens, largitus est nobis suam Deitatem» [Ó admirável comércio! O Criador do género humano assumiu corpo e alma, e deu-nos a sua própria Divindade]. Sim, o Salvador veio ao mundo para realizar esta troca admirável. Deus fez-se Filho do homem, para que os filhos dos homens pudessem tornar-se filhos de Deus. Foi um de nós que rompeu o vínculo filial que nos unia a Deus, um de nós devia uni-lo novamente e expiar o pecado. Não podia ser ninguém da geração antiga, corrompida e bárbara. Um novo rebento, são e puro, devia ser enxertado. Ele tornou-se um de nós; mas mais do que isso: fez-se uma só coisa connosco. Eis o mistério admirável do género humano: todos somos uma só coisa. Se assim não fosse, se fôssemos uns justapostos aos outros, seres autónomos e separados, distintos e independentes, a queda de um não se teria traduzido na queda de todos. Então o preço do resgate poderia ser pago e ser-nos atribuído, mas a sua justiça não abundaria sobre os pecadores, não seria possível a justificação. Mas Ele veio para ser connosco um «Corpus mysticum» [Corpo místico]: Ele como nossa cabeça e nós como seus membros. Ponhamos as nossas mãos nas mãos do divino Menino, respondamos com o nosso «Sim» ao seu «Sequere me» [Segue-me], e seremos seus, e ficará aberto o caminho pelo qual a sua vida divina chegará até nós.

Eis o princípio da vida eterna em nós. Não é ainda a visão beatífica de Deus na sua glória, ainda é a noite escura da fé; mas já é qualquer coisa que não é mais deste mundo, já é participar do Reino. Quando a Virgem Santíssima pronunciou o seu «Fiat», começou o Reino de Deus sobre esta terra, e Ela foi a primeira a servi-lo. E todos aqueles que antes ou depois do nascimento do Menino o confessaram com palavras e obras – São José, Santa Isabel com o seu menino e todos os que estiveram no presépio – todos tomaram parte no seu Reino. Tudo aconteceu de modo diverso de como se tinha imaginado que seria, segundo os Salmos e as palavras dos profetas, a instauração do Reino de Deus.

Os romanos continuaram a ocupar e a dominar o País, os sumo sacerdotes e os escribas continuaram a manter o pobre povo sob o seu jugo. Cada um dos que pertenciam ao Senhor levava invisivelmente o Reino de Deus dentro de si. Não lhe foram tirados os fardos do mundo, antes, outros se lhes juntaram, mas o que ele tinha encerrado dentro de si era uma força dinâmica que tornava o jugo suave e a carga leve. E ainda hoje é assim com todos os filhos de Deus. A vida divina que se acende na alma é a Luz que veio às trevas, o milagre da Noite Santa.

Quem a leva em si sabe de que falamos. Para os outros, qualquer coisa que dela se possa dizer é um balbuciar incompreensível. Todo o Evangelho deSão João é uma espécie de balbuciar da luz eterna, que é amor e vida. Deus em nós e nós n’Ele, nisto consiste a nossa participação no Reino de Deus, cujo fundamento é o mistério da Encarnação.

3.2. Unum esse in Deo

[União em Deus: Ser uma coisa em Deus]

«Unum esse cum Deo»: eis o primeiro ponto. Mas segue-se-lhe imediatamente outro. Se Cristo é a cabeça, e nós os membros do «Corpus mysticum», então somos membros uns dos outros, e nós homens, juntos, «unum esse in Deo», somos uma vida divina. Se Deus é em nós e é Amor, não podemos senão amar os irmãos, não pode ser de outra maneira. O nosso amor pelos seres humanos é a medida do nosso amor a Deus. Mas trata-se de um amor diferente do amor natural entre os homens. O amor natural é para aqueles que estão unidos a nós por laços de sangue, ou por temperamento, ou por interesses comuns. Os outros são “estranhos”, «não nos dizem respeito», e talvez cheguemos a dizer que são mesmo incompatíveis com a nossa natureza, e assim são afastados o mais possível da esfera do nosso amor. Mas para o cristão não há “estranhos”. Aquele que está diante de nós e tem mais necessidade do que nós, é sempre o nosso “próximo”; não importa se é nosso familiar ou não, se nos “agrada” ou não, se é ou não “moralmente digno” de ajuda. O amor de Cristo não conhece fronteiras, nunca acaba e não vira as costas diante da sujidade ou da miséria. Ele veio para os pecadores e não para os justos. E se o amor de Cristo vive em nós, então faremos como Ele, e iremos à procura das ovelhas perdidas.

O amor natural quer para si a pessoa amada, e se possível tudo para si. Cristo veio ao mundo para reconquistar para o Pai a humanidade perdida; e quem ama com o seu amor, quer os homens e as mulheres para o Pai e não para si; este é sem dúvida também o caminho mais certo para os possuir eternamente; pois quando pomos um ser humano a salvo no seio do Senhor, somos um com ele em Deus, ao passo que o afã da conquista muitas vezes – antes ou depois – leva a perdê-lo.

Este princípio é válido para a nossa alma, para a dos outros e para qualquer outro bem: quem se afadiga por ganhá-lo e conservá-lo, perde-o; quem faz dele um dom para Deus, esse ganha e vence.

3.3. Fiat voluntas tua [Faça-se a tua vontade]

Eis que tocamos o terceiro sinal do ser filhos de Deus. «Unum esse cum Deo» era o primeiro; «Ut om-nes sint in Deo» [Para que todos sejam um em Deus], o segundo; o terceiro: «nisto conhecerei que Me amais, se guardardes os Meus mandamentos». Ser filho de Deus significa deixar-se guiar pela mão de Deus, fazer a vontade do Pai, não a própria, pôr nas mãos de Deus todas as nossas preocupações e esperanças, não nos preocuparmos mais connosco e com o nosso próprio futuro. Nisto se fundamentam a liberdade e a alegria dos filhos de Deus. Quão poucos são, mesmo entre os homens de autêntica piedade, e também entre aqueles que sabem sacrificar-se heroicamente, os que a possuem! Vivem sempre como que oprimidos pelo peso dos seus afazeres, dos seus deveres. Todos conhecemos a parábola das aves do céu e dos lírios do campo.

Mas quando se encontra um homem que não tem património, nem reforma, nem seguro, e que vive sem se preocupar com o seu futuro, então meneia-se a cabeça como se fosse algo de anormal. Engana-se certamente nas contas aquele que espera que o Pai celeste lhe dê sempre a seu tempo aquele rendimento e aquele alimento que julga desejável. Não é nestas condições que se estabelece um pacto com Deus. Só se pode viver com inquebrantável confiança no Senhor quando se compreende a disponibilidade para aceitar da mão do Senhor qualquer coisa. Só Ele sabe o que nos convém. E se acontecer ser mais conveniente a necessidade e a privação do que uma situação abastada e segura, ou o insucesso e a humilhação serem melhores do que a honra e a consideração, então devemos estar prontos para aceitar também isso. Se procedermos assim, então poderemos viver bem no presente e desembaraçados do futuro.

O «Fiat voluntas tua!» deve ser em toda a sua dimensão a norma da vida cristã. Deve regular o curso do dia, desde a manhã até à noite, durante todo o ano e durante toda a vida. Torna-se então, também, a única preocupação do cristão. Todas as outras entregou-as ao Senhor, e Ele tomou-as sobre Si. Aquela, porém, pertence-nos a nós, enquanto estivermos em «statu viae» [em caminho]. Objectivamente nunca poderemos estar certos de permanecer sempre no caminho do Senhor. Como os primeiros homens, na sua condição de filhos, puderam experimentar a queda e ser expulsos para longe de Deus, assim cada um de nós está sempre sob o fio da navalha, suspenso entre o nada e a plenitude da vida em Deus. E, antes ou depois, experimentamo-lo subjectivamente.

Na infância da vida espiritual, mal começamos a abandonar-nos em Deus, logo sentimos a Sua mão a guiar-nos com intensidade e força: vemos muito claramente aquilo que devemos fazer e aquilo que devemos omitir. As coisas, porém, não permanecem assim para sempre. Quem pertence a Cristo deve viver profundamente toda a vida de Cristo. Deve crescer até à maturidade de Cristo, deve percorrer o caminho da Cruz, deve passar pelo Getsémani e pelo Gólgota. E todos os sofrimentos que lhe podem advir do exterior nada são comparados com a noite escura da alma, quando a luz divina não brilha mais e a voz do Senhor não mais se ouve. Deus está lá presente, mas escondido e calado. Porquê? Estamos a falar de segredos do Senhor, cujos mistérios não se deixam penetrar até ao fundo. Deus fez-se homem para nos fazer participar da sua vida. Já aprendemos antes como ter parte na vida divina. Com isto começámos e isto é a meta final.

Mas, entretanto, há ainda outra coisa. Cristo é Deus e Homem, e quem tem parte com Ele, deve participar de uma vida divina e humana. A natureza humana, que Ele assumiu, deu-lhe a possibilidade de sofrer e de morrer. A natureza divina, que Ele possuía desde toda a eternidade, conferiu ao sofrimento e à morte um valor infinito e um poder expiatório, redentor. Os sofrimentos e a morte de Cristo continuam no seu Corpo místico, e em cada um dos seus membros. Sofrer e morrer é o destino de cada homem. Mas se esse homem é um membro vivo do Corpo místico de Cristo, o seu sofrer e o seu morrer assumem um valor expiatório, co-redentor, em virtude da divindade da cabeça. Este é o fundamento objectivo que motiva o facto de todos os santos terem desejado sofrer. Não se trata de um gosto perverso de sofrer. Aos olhos da razão natural parece uma perversão mas, à luz do mistério da Redenção, é o que há de mais razoável. Assim, aquele que está unido a Cristo perseverará inquebrantável mesmo na noite escura da subjectiva distância e ausência de Deus; talvez a economia divina da salvação use os seus tormentos para libertar alguém que está objectivamente encadeado pelo pecado. Por isso: «Fiat voluntas tua!» também, e sobretudo, no meio da noite mais escura.

*Edith Stein, A Mensagem de Natal. Edições Carmelo, Avessadas 2013. pp 7-14.
Imagem: Natividade – Tintoretto (1518–1594)