Pe. Georgino Rocha
Trabalho de pós-graduação em Gerontologia Social realizado por mim, em género de narrativa, no Seminário “Institucionalização e Humanização”, leccionado pela Drª Maria Lucília Feteira, no Instituto Bissaya Barreto. Coimbra, em 2003, e agora revisto.
Traços de um perfil
Gil de Mira reparte o seu tempo pela residencial dos Idosos e pela casa da família que vem buscá-lo à sexta-feira, após o trabalho, e trazê-lo na segunda pela manhã. Sente-se bem e comunica alegria e felicidade. Vive um envelhecimento normal, preparado com cuidado, aproveitando as oportunidades de formação que foram surgindo e visitando lares. Recorre com frequência às lições da experiência que adquiriu ao longo dos quase 50 anos de marinheiro, a princípio como barqueiro e, depois, como mestre e arrais de lancha de transporte de passageiros. Evoca, sempre que a propósito, os exemplos de pessoas sensatas. Ama a discrição e é fiel observante da prudência. “Mais vale um pássaro na mão do que dois a voar”. “Saber viver não se aprende nos livros” – repete com ar sentencioso e perspicaz
Lar-residência
O lar-residência fica próximo do centro da vila, numa zona com movimento controlado, sem grandes ruídos. O edifício tem um corpo central onde se localizam os principais serviços e um conjunto de pequenas vivendas circundantes. O espaço envolvente proporciona uma panorâmica agradável, com um ambiente leve e repousante, em que a harmonia do conjunto e das cores vai contagiando quem por ali anda. O terreno é plano, beneficiando de amplas zonas verdes, com jardins floridos a maior parte do ano, com árvores de grande porte, sobretudo pinheiros e eucaliptos, que suavizam o ar da atmosfera e estimulam a elevação do espírito em dias mais carregados de neblina e pressão interiores.
Vivenda
A vivenda alia a estética e a funcionalidade. Está dotada do que é verdadeiramente necessário, sem luxos, nem excentricidades. Em toda a parte, há um toque especial de quem a habita: “coisas” do mar e da ria, artesanato de embarcações e seus utensílios, retratos da família e de velhos amigos, cadeiras, mesas e outros objectos da sua casa, que lhe fazem sentir o calor do lar em que sempre viveu, juntamente com a esposa extremosa, e onde viu nascer e crescer a família em que se revê como bisavô feliz.
Evoca esses tempos com ditos sentenciosos e frases pintadas em azulejos, enfeitadas com desenhos dos netos e emolduradas por ele, e agora colocadas em sítios acessíveis ao seu olhar e ao de quem o vem visitar. “O amor é mais forte do que a morte”. “Esposa feliz, homem satisfeito”. “Família, o berço da vida”. “Os filhos são a cruz abençoada dos pais”. “Deus te dê o dobro do que me desejas”. “A surpresa do amanhã previne-se hoje”. “Confiar e madrugar faz a vida andar”. “Saúde e doença: as duas faces da vida”. “A Deus rezando e com os braços trabalhando”. “O que semeias de bem colhes no Além”.