O Pastor dá a vida pelas suas ovelhas

Homilia na ordenação do P.e Rafael Oliveira

1. Eu sou o Bom Pastor

O evangelho apresenta-nos Jesus como o bom pastor que dá a vida pelas suas ovelhas. O texto recorda-nos a maldição do profeta Ezequiel contra os maus pastores (Ez 34) e profetiza que o futuro Messias assumirá, pessoalmente, o pastoreio do seu povo.

A atividade deste bom pastor consiste em chamar as ovelhas pelo seu nome e levá-las a boas pastagens. Quando Jesus expulsa as ovelhas e os bois do Templo (Jo 2,15), quer significar que os que não entram pela porta e não conhecem as ovelhas são ladrões e salteadores, isto é, os dirigentes do povo de Israel que não aceitaram a cura do cego de nascença e o expulsaram do Templo, porque nele Jesus mostra o triunfo da luz sobre as trevas. Jesus caminha na frente e as ovelhas seguem-no porque conhecem a sua voz e ouviram o seu chamamento.

Jesus apresenta-se como a porta das ovelhas. Apenas através dele se pode aceder legitimamente às ovelhas, e só através de Jesus as ovelhas encontram a salvação e a liberdade, podendo entrar e sair, e nunca terão fome (Jo 6,35), pois encontrarão pastos abundantes. O rebanho do qual Jesus é o pastor tem uma dimensão universal: não são apenas os que pertencem à instituição judaica, mas todos os que reconhecerem a sua voz e o seguem: «Eu sou o bom pastor e o bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas».

A finalidade do Evangelho é fazer-nos entrar em comunhão com Jesus, porque Ele veio para que todos tenham vida e a tenham em abundância, o mesmo é dizer: «escrevemos estas coisas para que acrediteis que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e acreditando tenhais a vida por meio dele».

Perante as queixas do povo, Moisés interpela Deus e pergunta-lhe: «porque me destes o encargo de todo este povo?» Este manda-lhe que escolha setenta anciãos, cheios do Espírito de Deus, que com ele assumam a sua responsabilidade e não esteja sozinho na missão para a qual Deus o tinha chamado.

2. Uma missão para curar a vida

A oração de ordenação dos presbíteros lembra qual vai ser, a partir de hoje, a missão do Rafael enquanto sacerdote: pastor do rebanho que lhe for confiado e ser capaz de partilhar a missão da Igreja com o povo de Deus, a fim de sermos discípulos de Jesus e construtores do reino de Deus: «O presbítero seja cooperador zeloso do bispo, a fim de que, pela sua pregação, as palavras do Evangelho, pela graça do Espírito Santo, frutifiquem nos corações dos homens, e cheguem até aos confins do mundo. (…) Que o povo que Vos pertence renasça pelo banho de regeneração e se alimente do vosso altar, os pecadores se reconciliem e os enfermos encontrem alívio».

Jesus vivia muito atento às pessoas necessitadas que encontrava no seu caminho. Olha para Zaqueu no cimo de uma árvore, para Madalena prostrada a seus pés, que chora os seus pecados, para o leproso que lhe pede ser curado, para o pai a quem a sua filha está muito doente ou para a mulher com hemorragias… e comove-se profundamente. A mesma realidade aparece na multiplicação dos pães, ao ver a multidão que eram como ovelhas sem pastor. Não é capaz de passar ao lado e compromete-se com elas para aliviar o seu sofrimento.

Esta compaixão de Jesus não é um sentimento passageiro, mas a sua forma de olhar as pessoas e de agir procurando o seu bem. Desta sua compaixão nasce a decisão de chamar os doze apóstolos para os enviar «às ovelhas perdidas da casa de Israel».

Caro Rafael:

A tua ordenação acontece num momento importante na vida da Diocese. A opção pela criação e implementação das “Comunidades Pastorais”, como resposta às urgências e aos desafios do tempo presente, vai exigir de todos um coração livre, necessidade de darmos as mãos e coragem para seguirmos em frente.

A reflexão eclesiológica do Concílio Vaticano II e as notáveis mudanças sociais e culturais a que temos vindo a assistir, pedem-nos que organizemos, de modo diferente, a pastoral das comunidades paroquiais. Isto exige que iniciemos novas experiências, valorizando a dimensão da comunhão, a fim de melhor correspondermos às necessidades atuais da Igreja que se encontra em terras de Aveiro. Atuar de maneira isolada, sem essa experiência de “olhar juntos”, não ajuda à construção do Reino, qualquer que seja a vocação de cada batizado no seio da comunidade cristã.

Ser padre é tomar o cuidado de construir comunidades fervorosas e autênticas, ao mesmo tempo que acolhedoras e missionárias; oferecer caminhos de Evangelho que sejam de iniciação, isto é, que façam apelo aos recursos profundos da pessoa ou que a conduzam àquilo que de mais profundo a pessoa possui; pôr em ação o Evangelho da bondade, pois foi a caridade dos cristãos que lhes conferiu a sua credibilidade.

Como referi no domingo passado, no Dia da Igreja Diocesana, e tendo em conta os vários contributos dos grupos de leigos que se reuniram ao longo destes dois anos, há um estilo de Igreja que se anseia construir e testemunhar: uma Igreja centrada em Jesus Cristo, reunida e alimentada na Eucaristia, fonte, caminho e cume da vida cristã; uma Igreja “mais aberta, alegre e próxima”, ousada e capaz de criar comunidades que fomentem a “escuta, o diálogo, o silêncio”, em ordem ao discernimento e à tomada de decisões; uma Igreja de “todos e para todos”, à volta do sonho diocesano centrado em “Cristo ressuscitado”, “comunhão” e formação de “discípulos missionários”.

Quais são as tarefas a que devemos prestar atenção para construirmos este estilo de Igreja que foi pedido pelos grupos sinodais? Hoje temos necessidade de ouvir de novo as palavras de Jesus para redescobrir a nossa verdadeira missão no meio da sociedade em que vivemos.

A primeira tarefa é proclamar que Deus está perto de nós, empenhado em salvar a felicidade da humanidade. Jesus recorda-nos a maneira de dizer Deus hoje: trabalhar gratuitamente para infundir em todos os seres humanas uma vida nova; “curar os enfermos” é libertar as pessoas de tudo o que lhes rouba a vida e as faz sofrer. Curar a alma e o corpo daqueles que se sentem injustiçados na sua vida diária; “ressuscitar os mortos”, isto é, libertar as pessoas de tudo o que bloqueia as suas vidas e lhes mata a esperança. É urgente despertar em tantas pessoas o amor à vida, à confiança em Deus, à vontade de lutar, em tantos homens e mulheres nos quais a vida vai morrendo pouco a pouco; “limpar os leprosos” é limpar esta sociedade de tanta mentira, hipocrisia, corrupção, e ajudar as pessoas a viver com mais verdade, simplicidade e honradez; “expulsar os demónios” é libertar as pessoas de tantos ídolos que escravizam e pervertem a convivência humana. Onde fizermos germinar a vida nova, estamos a anunciar o Deus de Jesus.

Ontem celebrámos a festa em honra de São Bento, patrono da Europa. No final da sua Regra, o seu cumprimento tem dado muitos santos e santas à Igreja, termina com as palavras que eu desejo que tu guardes no teu coração e que sejam, de certo modo, o lema da tua vida sacerdotal: «Ninguém procure o que julga útil para si, mas antes o que o é para os outros; amem-se mutuamente com pura caridade fraterna; vivam sempre no temor e no amor de Deus; nada absolutamente anteponham a Cristo, o qual nos conduza todos juntos à vida eterna».

Que a Virgem Maria, Mãe da Esperança, e Santa Joana, nossa padroeira, sejam fonte de inspiração e entrega no sim da tua vida sacerdotal.

Amen.

Aveiro, 12 de julho de 2026.

 António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro.