Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*

O(s) autor(es) e a obra
Daniel Cohen, Uma [Muito] Breve História da Economia, Lisboa, Penguin Random House Grupo Editorial, 2025.

Daniel Cohen foi um muito prolífico e destacado economista francês, nascido em junho de 1953, na Tunísia. Sendo autor de uma vastíssima obra do âmbito da economia, não deixa de ser curioso verificar que lhe são atribuídos, pelos sites portugueses de livros, títulos de um outro autor francês homónimo. É-lhe, erradamente, atribuído o livro ‘Os genes da esperança’, da autoria de um outro Daniel Cohen, médico e geneticista que liderou o projeto ‘Genoma’.
Não precisa, porém, o ‘nosso’ Daniel Cohen de obras suplementares, pois é suficientemente vasto e relevante o seu labor de escrita, abruptamente interrompido, em agosto de 2023, pouco tempo depois de completar setenta anos, a idade em que o ‘U’ que configura a curvatura da felicidade volta a subir, como refere no último capítulo deste seu livro.
Confesso que descobri Daniel Cohen (o economista) com a leitura deste livro. E fico com pena de não lhe poder dizer, nesta vida, quanto isso me agradou. Terei de esperar (porque assim o espero…) pela eternidade (porque sou alguém que, como ele pede, no final do livro, acredito em ‘alguma coisa’…) para lho assegurar.
Esta é, por isso, uma obra póstuma que ele deixara alinhavada e que, em boa hora, a família decidiu levar ao prelo, ainda que sendo de aguardar que, como diz o irmão, Michel Cohen, no posfácio, esta obra venha a ser vertida para versão em banda desenhada, lembrando o que já tem ocorrido com outros ensaios.
Neste livro, Cohen mostra grande erudição e verve. Escreve e pensa muito bem. Domina, com a simplicidade dos especialistas (só um especialista consegue dizer, de modo simples, a complexidade dos grãos do conhecimento que a mó do tempo ajuda a mastigar e transformar em fina farinha).
Ilustra estas minhas palavras uma constatação muito simples. Eu comprara esta obra, no dia 27 de março, na feira do livro realizada na minha escola. Tomei-a em mãos, após ler excertos dos ‘escritos de teologia’, de Rahner, no dia 9 de abril, terminando a leitura no dia seguinte, 10 de abril. Deixei-me levar pela mão de Cohen em apenas dois dias. E fiquei tomado pela capacidade que revela de pôr a economia ao serviço da transformação do mundo.
É uma leitura muito recomendável.
Uma síntese que penso fazer justiça ao que Cohen evidencia neste seu livro é a que poderemos reunir na ideia de que a economia deve ser pensada como um instrumento, um meio de realização humana e nunca como um fim em si mesma. Uma ideia que, sendo comum na ética personalista e cristã (que sempre sublinha que só a pessoa é fim; tudo o mais é meio ao seu serviço…), não deixa de ser interessante encontrar num autor que não se presumindo ser cristão (não o perguntei, ao ler o livro, nem me deixei condicionar pela busca de o confirmar), poderia muito bem, na linha de Karl Rahner – que eu lera, antes desta incursão por ‘Uma [Muito] Breve História da Economia’ -, ser assumido como um ‘cristão anónimo’…

Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro)

Este é um livro de economia. Mas não é, apenas, um livro de economia. É um livro sobre a vida dos humanos de que fala a economia.
Deixa transparecer esta singela conclusão reparar que começa com a frase ‘O crescimento económico é a religião do mundo moderno’ (na Introdução) e termina com ‘Compete-nos agora repensar a ideia que temos de um mundo em harmonia consigo mesmo, que nos faça sentir «o prenúncio da felicidade e da paz»’.
De facto, Cohen mostra não ser um economista que se basta em projetar sobre o seu objeto de estudo e análise a técnica e a ciência adquiridas. Pretende, com elas, criar condições para o surgir de um mundo melhor.
Curiosamente, é exatamente o que pode constatar-se ao ver que o lema da ‘Paris School of Economics’, de que foi um dos fundadores, é ‘a ciência económica ao serviço da sociedade’.
Vislumbra-se este mesmo espírito, nos títulos das suas obras: ‘homo numericus’, ‘homo oeconomicus’, ‘a prosperidade do vício: uma introdução à economia’, etc. Obras que não se resumem a descrever economia, mas a ler o seu impacto na vida dos humanos.
Marcas omnipresentes nestes fascinante ensaio (de 158 páginas) onde, a pretexto da descrição da sumária história da economia, em que não se esquiva a desmontar preconceitos (como o de que as sociedades recolectores não tinham a ideia de acumulação de riqueza –à maneira das conceções de Rousseau e outros que vincaram, entre os nossos mais frequentes mitos, o do ‘bom selvagem’, totalmente desprendido e sem qualquer vínculo aos bens terrenos e efémeros), Cohen lança um fino olhar sobre as relações humanas, desvirtuadas do núcleo que deveria ser compreendermo-nos como pessoas e não objetos. E não deixa de olhar, enquanto percorre o fio da história, para as mais íntimas relações (inclusive as de natureza sexual) alertando para o custo de, por efeito da inveja e da digitalização afetiva, a vivência da sexualidade passar a acontecer sem atender à «bagagem emocional do outro».
É interessante, ainda, o modo como o faz. Cohen tem páginas repletas de dados, histórias, curiosidades, que acompanham, de um modo muito plástico, o que vai dizendo. Suscita uma dupla curiosidade: a de saber e a de informar. Cohen estruturou um ensaio cheio de dinamismo, em que recupera as lições da história (como a que concerne à do desenvolvimento e queda da ilha da Páscoa) para nos projetar para um futuro em que, tendo superado a lei de Malthus (que nos assegurava que, em períodos de crescimento, a população também cresceria, criando nova fase de quebra – vivemos um período de inverno demográfico), somos confrontados com o paradoxo de Easterlin, que nos evidencia que, apesar de estarmos mais ricos, não estamos mais felizes.
Talvez Cohen possa, com o conteúdo destas páginas, facultar-nos um oportuno contributo para que possamos encontrar, pela via da humanização das relações, a autêntica felicidade, via com que poderíamos, finalmente, construir as mais sólidas ‘leis da nossa casa’. A autêntica ‘economia’ (‘lei da casa’).

 

Na mesma página que o autor (citações)

‘[…] ao perdermos as relações humanas, perdemos a razão de ser das nossas atividades e, sem dúvida, a nossa própria razão de ser. Um robô de pele bem macia nunca será capaz de substituir uma enfermeira que cuida com carinho de uma pessoa idosa.’ (Do Prefácio, p. 15)

‘Em vez de desesperarmos com a ideia de que, se os chineses e os norte-americanos não mudarem de comportamento, é inútil mudarmos o nosso, devemos começar por mudar o que podemos mudar, à nossa escala. E isso não só, ou talvez nem sequer primordialmente, para mudarmos o mundo exterior, mas sobretudo para nos mudarmos a nós próprios. ’ (Do Prefácio, p. 15)

‘[…] Keynes afirmava destemidamente que, em 2030, as pessoais poderiam trabalhar três horas por dia e dedicar-se às tarefas verdadeiramente importantes: arte, cultura, metafísica. Infelizmente, a cultura e os problemas metafísicos não se tornaram as questões principais do nosso tempo. As sociedades modernas continuam a buscar mais do que nunca a prosperidade material, apesar de se terem tornado seis vezes mais ricas do que na altura em que Keynes escrevia.’ (Da Introdução, p. 22)

‘O crescimento deixou de ser um meio para atingir um fim, para se tornar um fim em si mesmo, que permite às pessoas escaparem do tormento da existência.’ (Da Introdução, p. 22)

‘Para sair do subemprego, o remédio keynesiano é […] simples: temos de gastar, gastar a todo o curso, mesmo que seja necessário contratar desempregados para, à tarde, taparem os buracos que eles próprios abriram nesse dia de manhã.’ (pp. 66-67)

‘No auge da guerra, Churchill encomenda, em novembro de 1940, um relatório para combater tanto as consequências sociais da crise dos anos 1930 como as provocadas pela guerra. O relatório será tornado público em 1942. William Beveridge define os princípios que hoje em dia são os nossos. O Estado tem a responsabilidade de lutar contra as cinco pragas da humanidade: «a doença, a ignorância, a dependência, a decadência e os bairros de lata».’ (p. 67)

‘Numa empresa das décadas de 1950 e 1960, o refeitório, a vigilância, a limpeza e a contabilidade estavam a cargo de funcionários da mesma. Com a revolução financeira dos anos 1980, nenhum destes serviços continua a ser prestado internamente, ficando os prestadores de serviços sujeitos às leis da concorrência. Sonha-se com empresas sem funcionários.’ (p. 80)

‘A crise do subprime foi desencadeada por várias bombas-relógio. Em primeiro lugar, no período que antecedeu a crise, houve um facto que saltou rapidamente à vista: a qualidade dos créditos deteriorou-se bastante, mesmo tendo em conta a nova clientela a que se dirigiam. A solvência dos clientes foi sistematicamente sobrevalorizada pelos intermediários responsáveis pela distribuição dos empréstimos. […]
Com a ajuda das agências de notação, os investidores fabricaram então instrumentos considerados livres de risco, classificados como AAA.’ (p. 84)

‘A história da China ilustra bem esta mutação do capitalismo moderno: é o exemplo acabado de um país que foi, durante muito tempo, o mais poderoso do mundo, a seguir um dos mais pobres, e que volta a ser um dos mais ricos.’ (p. 95)

‘Dos treze aos dezoito anos, 6 horas e 45 minutos por dia são dedicados a estes aparelhos [tablets e telemóveis]. Por isso, chegámos a um número em que os adolescentes dedicam 40% do tempo que passam acordados em frente a um ecrã! A vida psíquica e afetiva destes jovens é marcada por vagas de melancolia e euforia, o que se reflete em efeitos prejudiciais na alimentação e em riscos frequentes de obesidade. A atenção dos adolescentes é gravemente afetada pelo zapping, pela impulsividade, pela impaciência… A leitura de um livro, que pressupõe dar o ao autor tempo para instalar personagens ou um raciocínio, é constantemente impedida por uma relação compulsiva com o telemóvel, o que torna impossível manter o foco em qualquer outra coisa.’ (p. 116)

‘A consulta compulsiva do telemóvel é rotulada com um termo agora famoso: o FOMO, o Fear Of Missing Out, que exprime esta inquietante preocupação de perder algum coisa, quer se trate de «informação», de um fofoca, de uma oportunidade. A capacidade de atenção dos adolescentes em relação ao mundo real atingiu o seu mínimo histórico.’ (p. 117)

‘[…] a sexualidade na era digital dispensa o incómodo de ter de gerir «a bagagem emocional do outro». O sexo sem amanhã cria um estado psíquico em que cada um dos dois parceiros se considera com total domínio, sem dependência do outro, o que é quase o oposto do que uma relação romântica implica. O amor, de acordo com o Tinder, causa um vaio existencial que o interessado deve preencher multiplicando os encontros numa fuga para a frente, que é perfeitamente representativa dos comportamentos de dependência provocada pela sociedade. […] Ao distinguir radicalmente entre sexo e sentimento amoroso, a sexualidade digital faz-nos perder a capacidade de reconhecer o outro na sua integralidade, como pessoa, numa relação em que todos esperam que o ente querido abra as portas de uma vida a inventar.’ (pp. 119-120)

‘Em trinta anos, em França, o consumo de drogas psicotrópicas aumentou seis vezes. Nos Estados Unidos, os indicadores de bem-estar diminuíram quase 30% em comparação com o nível atingido na década de 1950. Estudos sucessivos apontam para o mesmo resultado: a felicidade regride ou estagna nas sociedades ricas, em França como noutros países.’ (p. 137)

‘O economista Richar Easterin publicou, em 1974, um estudo que teve grande repercussão e que iria atrair a atenção dos economistas […]. Acompanhando durante trinta anos as respostas à pergunta: «É feliz?», mostrou que não se observava nenhuma variação ao longo do tempo, apesar de ter havido um extraordinário enriquecimento durante esse período. É o que os economistas denominarão paradoxo de Easterlin. Os franceses são incomparavelmente mais ricos em 1975 do que em 1945, mas não são mais felizes. Porquê?’
[…] o consumo é viciante. O prazer que proporciona é efémero, mas o desespero é imenso quando ficamos privados dele.’ (pp. 138-139)

‘[…] Um dos segredos da felicidade pode ser resumido de forma bastante simples: compare-se com quem tem menos.[…]
Ganhe dinheiro, mas sem fazer disso uma doença. […]
Envelheça com elegância. […]
Não se compare com os demais em termos de beleza. […]
«Acredite nalguma coisa: Deus, a justiça social ou a beleza da Natureza; é preciso um meaning of life para ser feliz e fugir de si próprio.
Ajude os demais: o altruísmo afasta-o de si próprio, o que é benéfico […]
Controle os seus desejos. […]
Preserve os seus amigos: são os tesouros mais preciosos, mesmo que sejam os menos visíveis.
Viva integrado num casal, porque a solidão não é benéfica.
Aceite quem é e faça uma gestão radical das suas fraquezas.’ (pp. 149-150)


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de ‘Ensaios de liberdade’, ‘Bem-nascido… Mal-nascido… Do ‘filho perfeito” ao filho humano’ e de ‘Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg’

Imagem recolhida do site da Penguin