(‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião)
Artigo originalmente publicado na revista ‘Mundo Rural’
Luís Manuel Pereira da Silva*
Prossigamos com a nossa reflexão sobre as relações entre a ciência e a religião, seguindo os ‘sete dias da criação’.
A força e densidade que o dia primeiro nos reserva fazem-nos nele permanecer mais um pouco.
A tradução da difusora bíblica (de acordo com a publicação disponibilizada em https://www.paroquias.org/biblia/), diz-nos, ainda, sobre este dia, que ‘Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o primeiro dia.’ Nesta opção de tradução, o dia aparece referido de modo ordinal: o primeiro. Uma leitura mais fina permite-nos, porém, constatar que o autor bíblico se refere, antes, a esta sequência com uma menção cardinal: ‘dia um’ ou ‘um dia’[1] , como quem está a contar ao ritmo da própria descrição e não como quem já sabe que há um seguinte.
A iniciativa é, efetivamente, de Deus e não do autor que escreve.
Reparemos, ainda, que a ordem – tantas vezes distraidamente desatendida – é a de que, primeiro, vem a tarde, e só depois, a manhã. ‘E foi tarde e foi manhã: dia Um’, traduz D. António Couto, que acrescenta, em rodapé, que ‘esta maneira de descrever o dia, do pôr-do-sol ao pôr-do-sol, está sob a influência do calendário lunar, em que o dia começa e acaba com o pôr-do-sol’[2].
Mantemos reminiscência desta organização do tempo na nossa liturgia que celebra, após o pôr-do-sol de sábado, a eucaristia dominical.
Servem-nos estas notas para constatar que a novidade bíblica está presente, para além da noção de criação (ausente das cosmogonias circundantes), na própria conceção de tempo. Certamente, sofrendo influências dos povos envolventes (no próprio ano lunar que o cristianismo veio a substituir pelo solar, por influência romana e por ação cientificamente fundamentada de sucessivos Papas, entre os quais deveremos destacar João III (século VI) e Gregório XIII (século XVI)), o texto bíblico preconiza uma revolução na conceção de tempo, seja porque o situa (como já anteriormente sublinhámos) na ordem da criação (e não como existindo antes do início da criação, como sustentavam as conceções circundantes, que atribuíam um ‘tempo dos deuses’), seja porque supera a leitura circular do tempo, para criar a ideia da sequencialidade e progressividade, noção que criou a ‘forma mentis’ ocidental. Bem certo que a sedução da circularidade temporal vai reemergindo (F. Nietzsche defendeu-a, no final do século XIX, na sua crítica feroz ao judeo-cristianismo), mas a compreensão bíblica fez ‘cultura’ e fecunda o modus cogitandi que molda as nossas sociedades. Estes dois ‘lados’ da conceção temporal bíblica andam de mãos dados: a condição criatural e a sua ‘tensão’ para o plus que é Deus. Dizem-no, de modo claro, os autores do Vocabulário de Teologia Bíblica: ‘o ato criador marca o começo absoluto do tempo que é o nosso, bem como todo o resto da criação; mas Deus preexistia a esse tempo. Aquilo que se desenvolverá no tempo é plano dEle, ordenando, primeiramente, toda a criação com vistas ao homem, e depois dirigindo o fim do homem com vistas a um fim misterioso.[3]’
E como sabemos quão importante é o tempo que não regressa!
Como recorda Colin Stuart, no seu muito curioso livro ‘Tempo: 10 coisas que deve saber’, é desta noção do tempo que flui para diante e não regressa que resulta valorizarmos cada parte do tempo de que dispomos. ‘A mais ínfima fração de segundo poderá ser a diferença entre o ouro e a prata. Essa fração pode, também, valer-lhes uma fortuna. Em 2009, trabalhadores da construção civil instalaram um cabo subterrâneo de 1300 quilómetros, entre as bolsas de valores em Chicago e Nova Iorque, com o custo de 180 milhões de dólares. Tudo para reduzir 0,000004 segundos ao tempo que demora a enviar informação comercial entre os dois polos. Até mesmo essa pequena diferença aumentou os lucros em 12 mil milhões de libras por ano, numa indústria em que o tempo é, literalmente, dinheiro.[4]’
Para os que pretendem recolher do texto bíblico uma qualquer conclusão de que este se oponha ao progresso e ao desenvolvimento não poderá, senão, questionar-se sobre se tomaram o texto no seu todo ou se só o tomaram na literalidade de um fragmento. Mas importa, bem certo, perguntar para que destino se encaminha esse progresso.
E essa, sim, é questão a que é fundamental responder regressando ao texto bíblico. É que cada uma das oito obras da criação ocorridas nos seis dias da criação só ocorre porque, segundo o autor bíblico, ‘E disse Deus’. Para existir, a criação depende de Deus. E se n’Ele não permanecer, perece… É nada! Não é criação. Não existe.
‘Para onde progride o tempo que flui?’ – Parece ser a pergunta implícita deixada pelo autor bíblico, ao recordar-nos que ‘E chamou Deus à luz dia e às trevas chamou noite. E foi tarde e foi manhã: dia UM[5]’.
Sugestões bibliográficas:
D. António Couto, O livro do Génesis, Leça da Palmeira, Letras e Coisas-livros, 2013.
Gerhard von Rad, El libro del Génesis, Salamanca, Ediciones Sígueme, 19887.
Colin Stuart, Tempo: 10 coisas que deve saber, Lisboa, Vogais, 2024.
Xavier Léon-Dufour, Vocabulário de Teologia Bíblica, Petrópolis, Vozes, 20027.
[1] Cfr. D. António Couto, O livro do Génesis, p. 30.
[2] Ibidem, nota 73, p. 30.
[3] Xavier Léon-Dufour, Vocabulário de Teologia Bíblica, col. 1008.
[4] Colin Stuart, Tempo: 10 coisas que deve saber, pp. 17-18.
[5] D. António Couto, O livro do Génesis, p. 30.