Mystérios lusitanos | A vinte e três (23) de cada mês, habitamos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra…
(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distração, ocultas, sob múltiplos disfarces, até que alguém as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou caçar o grasnar das gralhas. Está-lhe, por isso, muito grato…)
Alberto Ferreyra*
M. apanhou, do chão, uma pequena pedra.
Olhou-a, com atenção.
Demoradamente…
Depois, aproximou-a do ouvido, como se quisesse ouvi-la.
– Não há sussurros nas pedras. – Gracejou J..
– Que te ouvisse dizer isso o Ti’ Amândio.
Ti’ Amândio nascera a ver, mas uma ‘doença ruim’ levou-lhe os dois olhos. Escondia, sob duas grossas lentes negras, as órbitas vazias. Dizia que era para não assustar as muitas crianças que vinham pedir-lhe histórias. E quantas sabia!… A cegueira fizera-o ver o outro mundo que se oculta aos que têm a ilusão de ter nos olhos o mundo real.
Via-o como o veem os ouvidos.
Escutava o murmurar do tempo a ranger de esticar-se sobre o mundo. Ouvia o tremor da terra antes de ela se tornar um inesperado abanar de toda a segurança. E dizia escutar o crescer das pedras.
– Mas, se elas só diminuem…
– Crescem. Crescem. – Sempre dizia.
‘Crescer’ era, no pensar do Ti’ Amândio, o que sobra dos trocos.
– Cresceu-te dinheiro?…
Pedras cresciam. Sobra em cascalho quando se rompiam no desgastar do tempo. Cresciam, portanto. ‘Sobravam’ ao desgastar-se…
E era isso que Ti’ Amândio ouvia.
Não!
Escutava…
Não apenas ouvia.
Escutava! Esse ouvir do coração e do corpo todo. Pois se já não queriam ajudar os olhos!?…
Ouvia com os ouvidos e com os olhos que o tinham abandonado. Ouvia duas vezes para satisfazer o desejo de ver que tantas vezes lhe assomava à alma.
Era por tê-lo aprendido do Ti’ Amândio que M. tentava, agora, escutar o crescer das pedras.
Mas faltava-lhe não ver. Enquanto visse, não poderia, nunca, ouvir o murmurejar do mundo.
M. e J. subiam a encosta da Pereira para a terra da Vala. A encimá-la, havia uma pequena, mas bela, igreja dedicada a São João Batista, o primo de Jesus cujo pai, Zacarias, emudecera, perante a notícia de que a esposa, Isabel, já adiantada na idade, iria ser mãe. Deus parecia não temer a fragilidade humana…
– Aqui, em tempos, adormeci sobre a tampa de um poço para onde convergia uma profunda vala que dava nome à terra. – Lembrou J., na proximidade da terra cujo nome explicava. – Só acordei já na cama do meu quarto. Uns anjos – Sim, terão sido anjos. Desses com quem nos cruzamos, todos os dias. Os que nos trazem ao quotidiano a mensagem da esperança. – levaram-me, em braços, a arder em febre. Estava com papeira. Uns dias de chá com mel e o aconchego de casa e tudo sarou.
J. parou para olhar, ao longe, o pequeno ribeiro em que repousavam as duas encostas, como tímidos enamorados sempre escondidos em recantos sombrios…
E prosseguiu:
– Aqui perto, vivia a Rute, uma menina de rosto bonito, sorriso simples e olhar fixo no céu. Ao nascer, um parto demorado deixara-a paralisada. Diziam sentir no calor dos passos a tristeza do coração. Cuidava dela a mãe. Mãe de três filhos. Dois deles emigraram. Ficara com a Rute. Era ela a sua companhia. Viúva muito jovem, ficara, só, com a beleza de Rute, pois que os dois outros filhos, livres e sem maleitas, levaram para longe o seu viver. Só Rute permanecera com ela.
Nunca deixara que dissessem da menina que era um peso. Era, antes, o alívio dos seus dias. Rute percebia, como ninguém, como ia o seu coração de mãe; como iam os corações dos que lhe vinham pedir conselhos.
– Pedir conselhos? – J. interrompeu a narrativa de Alberto Ferreyra, voltando o olhar para o rosto do escritor, surpreendido com o que este contava. Pergunta recebida com assombro pelo próprio narrador. (Como ousava a personagem sair da história para dela se distanciar e interpelar a escrita? Ficou atónito, mas prosseguiu… Devia ser delírio da sua imaginação.)
Vinham das terras em volta pedir conselho à pequena Rute. Esta escutava, com o mesmo escutar do Ti’ Amândio, e um sorriso ou uma lágrima encaminhavam a decisão. Lágrimas fecundas, pois em redor da sua cadeira nasciam pequenas violetas, regadas de sal lacrimejante.
Certo dia, entre as visitas, contaram-lhe um sonho repetido.
Uma pequena criança corria e dava um ligeiro pontapé num montinho de terra que se transformava em bola. Logo se lhe juntavam duas equipas de anjos em jogo arbitrado pela pequena criança. De todos se via o rosto, menos do pequeno árbitro.
O sonho repetia-se…
No dia em que contaram a Rute o repetido sonho, o seu rosto ficou sem expressão. Não se lhe viu uma lágrima. Não se lhe vislumbrou um sorriso.
O contador da história saiu sem que um qualquer José do Egito o ajudasse a desvendar o que o mundo onírico reservava.
Poucos dias volvidos, Rute deixou só aquela mãe.
Viram-na, pouco tempo depois. Esperavam-na triste e sem esperança. Mas quem encontraram refulgia como que cheia de luz.
– Nesta noite, vi o sonho que nos tinham contado, há poucos dias. O sonho já completo.
– Diga! Diga!
– Uma criança pontapeou, de novo, um montículo de terra que se transformou numa bola com que jogaram duas equipas de anjos. Hoje, porém, pude ver o rosto da criança que corria e arbitrava aquele angelical jogo. Era a minha Rute! Na eternidade, somos inteiros. Deus faz-nos inteirinhos.
E abraçou o Ti’ Amândio que, sentado ao seu lado, a escutava com o olhar do coração fixo nela.