Papa Francisco: o seu legado | Rubrica dedicada à reflexão sobre o legado do Pontificado do Papa Francisco

Félix Lungu

(Departamento de Comunicação da Fundação AIS | www.fundacao-ais.pt)

Ao refletir sobre o ‘legado’ do Papa Francisco, em particular, no âmbito do acompanhamento das comunidades cristãs mais vulneráveis e discriminadas, vem à memória a sua última mensagem, no Domingo de Páscoa, quando o Santo Padre lembrou, uma vez mais, que “não é possível haver paz onde não há liberdade religiosa ou onde não há liberdade de pensamento nem de expressão, nem respeito pela opinião dos outros”.

Iraque, 06/03/2021 | Encontro inter-religioso em Ur. O Papa Francisco encontrou-se com representantes das três religiões abraâmicas em Ur, na Caldeia, Iraque.

Desde o início do seu pontificado, em 2013, o Papa Francisco tem-se destacado como uma voz profética na defesa da liberdade religiosa, particularmente dos cristãos perseguidos, em várias partes do mundo. Através de apelos comoventes, gestos simbólicos e intervenções públicas firmes, o Papa tem dado visibilidade ao sofrimento de milhares de fiéis que enfrentam discriminação, violência e até morte por causa da sua fé.

Um dos elementos mais marcantes do seu pontificado foi a atenção constante aos mártires contemporâneos. Francisco não se limitou a referir a perseguição religiosa como uma questão política ou social; ele interpretou-a como um testemunho de fé, recordando que “há mais mártires hoje do que nos primeiros séculos do Cristianismo“. Esta afirmação, repetida em várias ocasiões, sublinha a atualidade e a gravidade da situação vivida por muitos cristãos, particularmente no Médio Oriente, África e partes da Ásia.

Itália, Roma, 8 de março de 2023 O Papa encontra-se com sobreviventes do Boko Haram no Dia da Mulher. Da direita para a esquerda: Papa Francisco, Janada Marcus e Maryamu Joseph. Por ocasião do Dia Internacional da Mulher, em 8 de março, a Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) convidou duas cristãs nigerianas a visitar a Itália. Maryamu Joseph (19) e Janada Marcus (22) são vítimas recentes da selvajaria dos terroristas do Boko Haram, grupo responsável pela morte de 75.000 nigerianos nos últimos 13 anos.

O Papa tem apelado, repetidamente, à comunidade internacional para que não ignore os cristãos perseguidos. Em discursos perante organismos como a ONU e nos encontros com líderes políticos, tem denunciado a indiferença global perante a violência religiosa. Além disso, através das suas viagens apostólicas a regiões em conflito – como o Iraque, em 2021 – o Papa demonstrou uma solidariedade concreta. A visita histórica a Mossul, cidade fortemente marcada pela violência do Daesh, foi um gesto poderoso que transmitiu esperança e apontou a reconciliação como caminho para as comunidades cristãs locais.

Francisco também promoveu o diálogo inter-religioso como caminho para a paz e proteção das minorias. A assinatura do “Documento sobre a Fraternidade Humana” com o Grande Imã de Al-Azhar, em 2019, é um exemplo de como a cooperação entre líderes religiosos pode criar pontes de entendimento, combater o extremismo e defender os direitos de todos, inclusive dos cristãos.

No plano simbólico, os seus gestos falaram tão alto quanto as suas palavras. O Papa abraçou vítimas da guerra e da perseguição, rezando, em silêncio, em locais de sofrimento, e oferecendo apoio direto a comunidades atingidas. As suas mensagens, nas celebrações da Semana Santa, particularmente no Domingo de Ramos e na Via Sacra, recordaram o drama dos cristãos que vivem a sua fé sob ameaça.

O ‘legado’ do Papa Francisco, neste contexto, reside, portanto, na sua capacidade de unir palavra, gesto e ação. Ele não só denuncia, mas inspira e mobiliza. Dá voz aos que não têm voz, lembrando que a fé cristã, vivida até às últimas consequências, continua a ser sinal de esperança num mundo ferido por intolerância e ódio. O seu exemplo interpela cristãos e não cristãos a não se acomodarem, mas a serem agentes ativos na construção de uma sociedade mais justa e solidária.


Fotos: © Vatican Media.
(Uso autorizado à FAIS; fotos gentilmente cedidas à Comissão Diocesana da Cultura para ilustração deste artigo.)