GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Tiago Azevedo Ramalho 

­ – «Nulla salus extra scholam» (cont.) –

[Introdução geral: nn.º 1 a 8/ I. Ivan Illich e a Escolarização: nn.º 9 e ss.]

 

– 31. A escola e a família. – Ivan Illich não se serve da categoria do «pecado» para explorar os efeitos negativos da escolarização compulsória. Mas tal categoria, enquanto alusiva ao que é também uma ruptura da relação com os demais, contribui para situar os efeitos do sistema escolar. Vejamos três tipos de efeitos: os efeitos sobre as relações familiares; os efeitos sobre a autocompreensão da pessoa (n.º 33); os efeitos sobre o meio ambiente (n.º 34).

Comecemos pelo primeiro dos planos: o efeito das escolas nas relações familiares. Colonizando a questão educativa o imaginário social, afecta necessariamente o próprio interior do universo familiar. Em lugar de o sistema escolar ajudar os pais no processo de introdução dos filhos numa rede humana relacional, são os pais que fazem sua a missão de antecipar ou ajudar a concretizar na própria casa as pretensões do próprio sistema escolar. Já não é só, digamos, a nulla salus extra scholam, nenhuma salvação fora da escola – é mesmo a nulla vita.

O tema é brilhantemente explorado num relato de Ivan Illich:

«Há algum tempo [o relato é de 1978] estava de volta a Nova Iorque numa área que há duas décadas atrás tinha conhecido bastante bem: o South Bronx. Estava lá a pedido de um jovem professor casado com uma colega. Este homem queria a minha assinatura numa petição para dar formação linguística pré-escolar aos habitantes de um subúrbio. Para ultrapassar a minha resistência contra esta expansão dos serviços educativos, levou-me por um dia inteiro a visitar os chamados “agregados familiares” castanhos, pretos, brancos e outros. Eu vi dezenas de crianças em arranha-céus inabitáveis, expostas todo o dia à televisão e à rádio, desorientadas por igual na paisagem e na linguagem. O meu colega tentava convencer-me de que eu deveria assinar a petição. E eu tentava argumentar com o direito destas crianças a serem protegidas da educação. Simplesmente não nos conseguimos entender. Então, já pela noite, ao jantar na casa do meu colega, subitamente compreendi porquê. Em frente dos seus próprios filhos, este casal estava in loco magistri [na posição de professor]. Os seus filhos tinham de crescer sem pais – porque estes dois adultos, em cada palavra que dirigiam aos seus dois filhos e à sua filha, estavam a “educá-los”. E uma vez que se consideravam eles próprios muito radicais, de vez em quando faziam tentativas para “aumentar a consciência” das suas crianças. Conversar tinha-se tornado para eles uma forma de marketing – de aquisição, de produção e de venda. Tinham palavras, ideias, frases; mas já não conseguiam falar.» (Thaught mother Tongue, em Past, pp. 141-142)

Como sempre, o discurso de Ivan Illich tem qualquer coisa de excessivo – mas também, talvez até por isso, de muito acertado.


Imagem de Dorothe por Pixabay