GLOSAS – Espaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente
Tiago Azevedo Ramalho
– Eixos fundamentais de crítica (cont.) –
[Introdução geral: nn.º 1 a 8/ I. Ivan Illich e a Escolarização: nn.º 9 e ss.]
– 20. Um texto contemporâneo à reflexão de Ivan Illich. – Por coincidência, enquanto já trabalhava nestas reflexões sobre Ivan Illich, li a obra Mataram a Cotovia de Harper Lee, obra clássica da literatura norte-americana do séc. XX. Consistindo num relato de memórias da infância, contém certas passagens sobre o ritual de introdução ao sistema educativo, num tempo – meados do séc. XX – em que a escolarização obrigatória se estava a consolidar. Apesar do registo menos polemístico (no confronto com o de Ivan Illich), a crítica que se depreende das linhas que se seguem nada perde em acerto ou acuidade – ganhando, aliás, em fina ironia. Transcrevo um episódio sobre o primeiro dia da escola, passado numa cidade como qualquer outra de um Alabama rural (pp. 28 a 30 da trad. portuguesa de Fernando Ferreira-Alves, Cotovia, Lisboa, 2012, Reimp. 2021):
«Miss Caroline começou o dia lendo-nos uma história sobre gatos. Os gatos tinham longas conversas uns com os outros, usavam roupas pequenas e engraçadas e viviam numa casa quentinha por baixo de um fogão de cozinha. Na altura em que a D. Gata telefonou para a mercearia para encomendar um rato coberto de chocolate, a turma escangalhou-se de riso. Miss Caroline parecia desconhecer por completo que aquele grupo de alunos maltrapilhos do primeiro ano, de camisas de ganga e saias feitas de sacos de farinha, muitos dos quais já ceifavam algodão e alimentavam os porcos desde que aprenderam a andar, era imune à leitura imaginativa. Então ela chegou ao fim da história e disse: – Minha nossa, não foi bonito?
Depois foi ao quadro, escreveu o alfabeto em enormes letras maiúsculas quadradas, virou-se para a turma e perguntou: – Alguém sabe o que é isto?
É claro que toda a gente sabia; a maior parte dos alunos do primeiro ano era repetente.
Suponho que ela me escolheu a mim porque sabia o meu nome; à medida que eu lia o alfabeto ia-lhe aparecendo uma ténue ruga entre as sobrancelhas e, depois de me obrigar a ler grande parte d’O Meu Primeiro Livro de Leitura e as cotações da bolsa no The Mobile Register em voz alta, descobriu que eu sabia ler e olhou para mim com enorme desgosto. Miss Caroline disse-me para eu pedir ao meu pai para ele parar de me ensinar, porque isso interferia com a minha leitura.
– Ensinar-me? – respondi eu, surpreendida. – Ele não me ensinou nada, Miss Caroline. O Atticus não tem tempo p’a me ensinar nada. – Acrescentei, enquanto Miss Caroline sorria e abanava a cabeça. – Porque ele à noite ‘tá tão cansado que só se senta a ler na sala de estar.
– Se ele não te ensinou então quem foi? – perguntou afavelmente Miss Caroline. – Alguém deve ter sido. Tu não nasceste a ler o The Mobile Register.
– O Jem diz que sim. Ele leu num livro qu’eu era uma Bullfinch em vez duma Finch. E ele diz que o meu nome verdadeiro é Jean Louise Bullfinch, que fui trocada à nascença e que sou mesmo uma…
Aparentemente Miss Caroline pensou que eu estava a mentir. – Então, vá lá, não nos vamos deixar levar pela nossa imaginação, querida – disse ela. – Agora vai dizer ao teu pai para ele não te ensinar mais. O melhor é começar a ler com uma mente virgem. Diz-lhe que eu tomo conta da situação a partir daqui e que vou tentar corrigir o erro…
– Senhora professora?
– O teu pai não sabe ensinar. Agora podes sentar-te. (…)
[Entretanto encontra-se com o irmão, chamado Jem, poucos anos mais velho.]
Sabia que tinha aborrecido Miss Caroline, por isso fiquei sozinha a olhar para a janela até ao intervalo, altura em que o Jem me resgatou do bando dos alunos do primeiro ano que estavam no recreio. Perguntou-me como é que eu me estava a dar. E eu contei-lhe:
– Se não fosse obrigada a ficar, já tinha ido embora há muito! Sabes, Jem, o raio daquela professora diz que o Atticus me tem ensinado a ler e quer que ele pare…
– Não te preocupes, Scout – tranquilizou-me o Jem. – A nossa professora disse que Miss Caroline está a introduzir um novo método de ensino. Que aprendeu na faculdade. Daqui a pouco tempo vai ser assim em todos os anos. Acho que dessa maneira não precisamos de estudar muito pelos livros… é’ssim, se tu quiseres estudar as vacas, vais ordenhar uma e pronto percebes?
– Tudo bem, Jem. Mas eu não quero estudar vacas, eu…
– É claro que queres. Tens de saber de vacas, porque elas fazem parte da vida de Maycomb County.
Contentei-me em perguntar ao Jem se ele tinha perdido o juízo.
– Ó minha cabeça dura, só te ‘tou a tentar explicar a nova maneira de ensinar a primeira classe. Chama-se Sistema Decimal Dewey.
[A designação é jocosa, conforme esclarece o tradutor na n. 3: «O Sistema de Classificação Decimal de Dewey (Dewey Decimal System) é um método desenvolvido por Melvil Dewey para a catalogação de livros em bibliotecas. Jem está a confundir este sistema com as novas teorias progressistas no domínio da pedagogia dita pragmática ou educação experiencial preconizadas por John Dewey.»]
Se antes nunca tinha questionado as afirmações do Jem, também não era agora que ia começar. O Sistema Decimal Dewey consistia, em parte, em Miss Caroline a acenar-nos com cartões onde estava escrito «o», «gato», «ratazana», «homem» e «tu». Não era suposto fazermos qualquer comentário e a turma recebia estas revelações impressionistas em absoluto silêncio. Estava aborrecida, por isso comecei a escrever uma carta ao Dill. Miss Caroline apanhou-me a escrever e disse-me para eu pedir ao meu pai para parar de me ensinar. – Além do mais – disse ela –, nós no primeiro ano não escrevemos, desenhamos as letras. Só se aprende a escrever no terceiro ano.»
Está aqui, sob a forma de relato, o que Ivan Illich procura expor sob a forma de ensaio: a confusão entre processo e substância; o cientismo; o artificial ritual de progresso; a presunção pedagógica; a recusa de deixar-se confrontar pela realidade; a desqualificação de toda realidade extra-escolar.
Imagem de Sasin Tipchai por Pixabay