Católicos e protestantes a contar juntos a história da Reforma protestante

Católicos e protestantes a contar juntos a história da Reforma protestante

António Marujo
(Jornalista do religionline.blogspot.pt; texto escrito segundo a anterior norma ortográfica)

Cinco séculos depois do início da Reforma de Lutero, como pode o diálogo ecuménico funcionar no novo mapa cristão do mundo? E como é que católicos e protestantes são capazes de contar juntos a história da Reforma? Quarta-feira passada, dia 25, estas foram duas das perguntas que surgiram no salão nobre do Teatro Aveirense, durante mais uma sessão dos “Diálogos na Cidade”, promovidos pela Comissão Diocesana da Cultura.
Nesta sessão, que evocou os 500 anos da Reforma Protestante, participaram a pastora Eva Michel, da Igreja Presbiteriana, e o bispo católico da Guarda, D. Manuel Felício. Originária da Alemanha, mas a viver em Portugal há largos anos, onde foi ordenada em 1986, Eva Michel começou por afirmar que o que motivou a Reforma não foi apenas a vontade de um homem. Nem foram, tão pouco, apenas questões religiosas, mas “também políticas e culturais”. E a separação, disse, concretizou-se não tanto por causa da fé, mas sobretudo pela “incapacidade de escuta” de ambos os lados da contenda.
No recente processo de aproximação mútua entre a Igreja Católica e as Igrejas herdeiras da Reforma, Eva Michel recordou dois documentos fundamentais: a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, assinada em 1999 pela Santa Sé e pela Federação Luterana Mundial, e que teve posteriormente a adesão da Conferência Mundial Metodista (em 2006) e da Comunhão Mundial das Igrejas Reformadas (em 2017); e o texto “Do Conflito à Comunhão”, publicado no ano passado, já na perspectiva da comemoração dos 500 anos da Reforma.
Deste último texto, Eva Michel recordou os cinco imperativos finais para católicos e luteranos: ambos devem partir sempre “da perspectiva da unidade e não da perspectiva da divisão”; precisam de se deixar “transformar continuamente pelo encontro com o outro e pelo testemunho mútuo da fé”; devem comprometer-se “na busca da unidade visível, para compreenderem juntos o que isso significa em termos concretos, e buscar sempre de novo esse objectivo”; devem procurar redescobrir juntos “a força do Evangelho de Jesus Cristo para o nosso tempo”; e também devem, quer na pregação quer no serviço ao mundo, “testemunhar juntos a graça de Deus”.
Deste percurso, a pastora presbiteriana, licenciada em Teologia Protestante e com mestrados em Artes e em Ciências da Educação, retirou duas perguntas: “Como podemos contar juntos a história da Reforma? E o que nos impede de amar mesmo sem pensar o mesmo?”
O bispo da Guarda que, enquanto presidente da Comissão da Doutrina da Fé, foi já o responsável pelo diálogo ecuménico no âmbito da Conferência Episcopal Portuguesa, começou por recordar que a Europa actual é, em grande parte, resultado da Reforma protestante – cuja data fundadora é assinalada a 31 de Outubro de 1517 quando, segundo a tradição, Lutero teria afixado as suas 95 teses contra as indulgências nas portas da igreja do castelo de Wittenberg.
“Conjugar unidade com diversidade” é um dos desafios do actual processo de diálogo ecuménico, que começou há cem anos, recordou. Apesar dos avanços doutrinais já verificados na aproximação mútua entre católicos e luteranos, acrescentou, nem sempre a base está de acordo com os avanços teológicos (ou, como se recordava já no período de debate, as bases querem mais avanços a que os avanços teológicos ainda não dão resposta, como é o caso da participação recíproca na eucaristia).
Referindo a proliferação de novos movimentos e comunidades cristãs, Manuel Felício perguntou como pode o diálogo ecuménico ser eficaz num mapa religioso cristão em que, para muitos grupos, ele não é importante. O diálogo ecuménico deve ser expressão da pluralidade do cristianismo e já não apenas da Reforma, acrescentou.
Já no período de debate, Eva Michel acrescentou que Lutero foi uma “pessoa atormentada”, preocupada sobretudo em ler a Bíblia e interpretá-la de modo a responder à experiência da fé. E ambos os intervenientes reiteraram ser mais importante o que une os cristãos do que aquilo que os separa, oferecendo o “ecumenismo prático” um vasto campo de acção para todos os cristãos.