Seg. Out 25th, 2021
‘Subindo o Monte’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de autores carmelitas
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

«Oração de alma enamorada»

José Vicente Rodrigues*

 

O prólogo dos «Ditos de Luz e Amor», que comentamos, está escrito em forma de oração, de colóquio com o Pai celeste. Há outros Ditos em forma de oração (nn. 2, 16, 30, 32-33; 46-47, 49, 52, 123, 130). Mas a jóia das orações sanjoaninas é a conhecida «Oração de alma enamorada», do códice autógrafo de Andujar (n. 26).

A distribuição do texto, encaminhando-o já para um comentário, pode fazer-se da seguinte maneira:

  1. Título: «Oração de alma enamorada»
  2. Invocação: Senhor Deus, Amado meu!
  3. Quatro condicionais:

– Se ainda Vos recordais dos meus pecados para não me fazeres o que Vos tenho andado a pedir, fazei neles, meu Deus, a Vossa vontade, pois é o que eu mais quero; fazei sentir a Vossa bondade e misericórdia e neles sereis conhecido.

– E se estais à espera das minhas obras para atenderdes o meu pedido, dai-mas Vós e realizai-as por mim, bem como as penas que quiserdes aceitar, e faça-se.

– Mas se pelas minhas obras não esperais, então porque esperais, meu clementíssimo Senhor? Porque tardais?

– E já que, enfim, há-de ser graça e misericórdia o que em vosso Filho Vos peço, recebei o meu nada, já que o quereis, e concedei-me este bem, que também é o que quereis.

  1. Duas interrogações:

Quem se poderá livrar destes modos e baixos termos se não sois Vós, meu Deus, a erguê-lo para Vós em pureza de amor?

– Como se elevará até Vós o homem gerado e criado em baixezas, se não sois Vós, Senhor, a deitar-lhe a mão com que o fizestes?

  1. Consolidação pessoal:

Meu Deus, não me ireis roubar o que me destes um dia no vosso único Filho, Jesus Cristo, no qual me destes tudo quanto quero; por isso, espero e confio em que não tardarás.

  1. Monólogo interrogativo:

E porquê tanta demora, se já podes amar a Deus no teu coração?

  1. Canto triunfal do pobre de espírito:

Os céus são meus e a terra é minha. Os povos são meus; meus são os justos e os pecadores. Os anjos são meus, a Mãe de Deus é minha, e minhas são todas as coisas. O próprio Deus é meu e para mim, porque Cristo é meu e todo para mim.

  1. Desenlace:

Então, que pedes e procuras alma minha? Tudo isto é teu e para ti. Não te rebaixes nem olhes às migalhas que caem da mesa do teu Pai. Sai para fora e gloria-te na tua glória; esconde-te nela e goza, pois alcançarás o que o teu coração deseja.

a) A distribuição do texto com títulos intercalados ajuda a uma compreensão exacta do seu conteúdo e dos seus acentos. São como pequenos núcleos interpretativos. De facto, depois de romper com esse «Senhor Deus, Amado meu», em que está toda a alma do orante, a petição navega pelos mares da gratuidade divina. Poucas vezes como nestas quatro condicionais se terá cantado e invocado de modo tão apaixonado e convencido a gratuidade do Senhor. «É esta, no meu entender, a chave de leitura, tendo muito claro que “o gratuito é aquilo que se dá de graça, incondicionalmente”.

b) Esta imersão na gratuidade aumenta com as duas interrogações seguintes, nas quais a alma celebra, neste vale de lágrimas, a sua situação precária e a sua incapacidade para levantar o voo se não se pousa na mão remediadora e levantadora do Senhor. A consideração do poder do Senhor prevalece sobre a própria prostração e se consolida a dignidade pessoal recebida e substanciada no dom do Filho, no qual lhe foi dado tudo o que quer e tudo o que pode desejar.

c) O monólogo interrogativo soa a auto-repreensão para se situar exactamente diante do objecto da sua petição e a possibilidade de se fazer imediatamente com o que deseja: o amor perfeito, incondicional, gratuito, respondendo assim com a própria gratuidade à gratuidade divina pela qual se sente perseguida.

A resposta ao monólogo é o canto triunfal no qual se vai repassando e gritando tudo o que foi dado com Jesus Cristo, sendo este Senhor e Deus a maior riqueza com que podia sonhar.

O desenlace não pode ser mais evidente. Não se busca nada novo; já se tem tudo; o que há a fazer é não reparar nas migalhas que caem da mesa do Pai, mas sentar-se nessa mesma mesa com Ele e naufragar no amor. A «Oração de alma enamorada» dirige-se a quem está enamorado da alma orante e amante, pois antes da alma abrir a boca já lhe encheu as mãos com todas as riquezas.


*Vicente Rodrigues. 100 Fichas sobre S. João da Cruz. Edições Carmelo, Avessadas. Pp. 204 -206.


Imagem de jplenio por Pixabay