‘Regresso a Ítaca no sonho do Éden’ | Parceria com a revista ‘Mundo Rural’

Luís Manuel Pereira da Silva*

Prossigamos o nosso ‘regresso a Ítaca no sonho do Éden’. Mas um leitor recém-chegado poderá não conseguir acompanhar-nos, considerando nem sequer partir connosco. Precisamos, por isso, de recordar que esta rubrica se propõe refletir sobre a especificidade da visão cristã, colocando-a em contraponto com a visão clássica grega. Não se escolheu essa comparação por motivo fútil ou, até, aleatória.

Se recordarmos, com o grande pensador e erudito judeu, George Steiner[1], que, para se definir a Europa é preciso considerar ‘a nossa descendência dupla de Atenas e Jerusalém’ (George Steiner, A ideia de Europa, p. 44), e não esquecermos que, na linha do que referia o filósofo e matemático, Alfred Whitehead, ‘a filosofia ocidental é uma nota de rodapé a Platão e, poder-se-ia acrescentar, a Aristóteles e Plotino, a Parménides e Heraclito’ (segundo G. Steiner, op. Cit, p. 39), então, compreenderemos que Atenas simbolizará a influência grega e Jerusalém a judaico-cristã, sendo, por isso, legítimo evidenciar, em contraste, as especificidades de uma e outra ‘ascendência’. É isso que nos temos proposto, neste ‘regresso a Ítaca no sonho do Éden’.

Nesta etapa da nossa ‘viagem’, somos convidados a ‘ver’, a dar ‘ouvidos’ aos sentidos para nos apercebermos de como a leitura destes é diversa, numa e noutra ascendência. Digamo-lo de outro modo: que reconhecimento da corporeidade se constata numa e outra influência?

Os gregos parecem temer o que lhes trazem os sentidos…

Bem certo que uma análise fina não poderá descurar o papel de reabilitação que se operou através de Aristóteles, mas não é ilegítimo considerar que a influência do platonismo é mais profunda, repercutindo, aliás, o sentir genuíno dos gregos, mesmo antes do próprio Platão. A Grécia é platónica antes do próprio platonismo. Platão dá voz à essência grega…

 Não é, por isso, de estranhar que os grandes heróis gregos sejam retratados como cegando-se (Édipo), tapando os ouvidos (os companheiros de Ulisses, ao passarem pelo mar das sereias, as mulheres-pássaros), sendo castrados (como no mito do nascimento do mundo, contado na Teogonia de Hesíodo) ou, no limite, matando o corpo que é vítima da maldição de uns deuses que aparecem sempre em oposição aos homens (como recorda o coro, na tragédia ‘Antígona’, de Sófocles: “Feliz quem passa a vida sempre provar a desgraça. Aqueles a quem os deuses as casas abalaram, não há mal que lhes falte;” – Sófocles, Antígona, n. 585[2]).

Os filósofos modernos têm-se proposto combater esta visão, pensando ter como alvo o cristianismo. Ouso pensar – e partilho essa reflexão aqui – que o seu alvo tem sido o pensamento teológico grego e não o cristão, erradamente considerado. Talvez ao cristianismo tenha faltado a mestria ‘mediática’ para evidenciar que a visão denunciada pelos que olham para o divino como opondo-se ao humano não é a cristã, mas, sim, a grega que o cristianismo transcendeu.

Senão, vejamos…

Consideremos, antes de mais, que a visão cristã é devedora de uma antropologia (modo de entender e pensar o ser humano) de matriz judaica, que sublinha o profundo enraizamento terreno do Homem. Muitos são, aliás, os defensores de uma etimologia que faz derivar ‘Humano’ de ‘Húmus’, aludindo a esta radicalidade ‘terrena’ do ser humano. É, ainda mais, esse o significado da palavra ‘Adão’ – ‘aquele que é feito de terra fecunda, fértil, vermelha’ -.

Não é, por isso, pensável o Homem sem ser como realidade corpórea. O ‘corpo’ não é um apêndice do Homem (que, à maneira platónica, seria apenas a ‘alma’), é uma das duas condições de possibilidade do humano que é espiritual e corporal… É, no dizer de Gevaert[3], ‘espírito encarnado’. É a esta luz que se deve entender a fé cristã quando afirma a ressurreição da carne. O homem todo, o homem enquanto ‘espírito encarnado’, ressuscitará, não a sua alma, apenas, que ainda não é o homem todo. Não é, sequer, na visão integral cristã, o homem. A alma, pensada em si mesma, uma abstração, mas não é, ainda, o homem concreto, o homem todo. O homem todo é-o alma-corpo|corpo-alma, de forma indissociável. Na visão cristã, o homem não se fundirá num abstrato; antes, ressuscitará como identidade relacional.

É a esta luz que deverá ler-se a insistência evangélica, evocando, mesmo, a leitura veterotestamentária, de que “«O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista […]»” (Lc 4,18) ou de que “Nessa altura, Jesus curava a muitos das suas doenças, padecimentos e espíritos malignos e concedia vista a muitos cegos.” (Lc7,21), ou, ainda, “Tomando a palavra, disse aos enviados: «Ide contar a João o que vistes e ouvistes: Os cegos veem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, a Boa-Nova é anunciada aos pobres;” (Lc 7,22), entre tantas outras referências que qualquer cristão (ou mesmo não cristão) facilmente recordará. A omnipresença do reconhecimento e valorização dos sentidos evidencia este radical enraizamento na dimensão corpórea. Bem certo que uma certa história da catequese e da pastoral pareceu esquecer este reconhecimento bondoso da condição corpórea, mas é justo que se reconheça que sempre houve diversos filões que se foram revezando. Mas o mais genuíno é o que sempre se opôs a uma ideia de que o cristianismo era para puros (Santo António lutou, no século XIII contra os cátaros, que afirmavam a fuga do mundo como condição para se ser cristão. Essa visão não venceu; venceu a de Santo António…). Mesmo a visão contemplativa cristã, que encontra em S. Bento um dos seus grandes promotores, estava consciente de que a fé cristã não se fecha numa oração que foge do mundo. O lema ‘ora et labora’ entronca a ação humana laboriosa na ação criadora de Deus, porque o mundo, o corpo, não são maus… Não afirma o livro de Génesis que, ao ver a Sua obra, Deus viu que era ‘boa’ e, após encontrar na humanidade o seu interlocutor, a reconheceu como ‘muito boa’?

A visão cristã não é, por isso, trágica, como a grega. A esperança cristã não é, apenas, o que ficará, como no mito de Pandora, no fim de tudo. Ela está, antes, no princípio de tudo e só terminará quando tudo estiver consumado…

Não é, preciso, por isso, cegarmo-nos, embotarmos os ouvidos ou renegarmos a condição corpórea. Antes, devemos apreciar nesta a ação bondosa de Deus e ver nos limites um caminho de superação. O destino, a fatalidade, constantes na visão grega, já não têm a última palavra. E Deus não é um opositor ao Homem: é a sua condição de possibilidade de realização. Pelo contrário… O Homem negar-se-á se recusar o verdadeiro Humano que em Deus encontra sentido!

Quando os gregos se cegam, o cristianismo aponta a luz, diante da qual todos os cegos veem abrirem-se-lhes os olhos, pois “O Verbo era a Luz verdadeira, que, ao vir ao mundo, a todo o homem ilumina.” (Jo 1,9)


[1] Steiner, George, A Ideia de Europa, Lisboa, Gradiva, 2007.

[2] Aqui, seguimos a seguinte edição: Sófocles, Antígona, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 20088,

[3] Gevaert, Joseph, El problema del hombre: introducción a la antropología filosófica, Salamanca, Ediciones Sígueme, 19918.


Imagem de falco por Pixabay


*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura e autor de ‘Bem-nascido… Mal-nascido… Do ‘filho perfeito” ao filho humano’
Artigo originalmente publicado em www.teologicus.blogspot.com