Rubrica ‘QUE ESPAÇO PARA DEUS?’

Um espaço de reflexão acerca da arquitetura e da sua importância nas nossas vidas.
Por Manuel Vilaça Ribeiro, arquiteto, natural de Coimbra, atualmente a trabalhar no Porto, nos DepA Architects.*

Sínodo da Sinodalidade e os 60 anos da Constituição Sacrosanctum Concilium

Manuel Vilaça Ribeiro

O Sínodo da Sinodalidade é uma iniciativa liderada pelo Papa Francisco que procura reunir em reflexão todo o mundo católico.
Trata-se de um importante momento de encontro que pretende traduzir-se num tempo de reflexão conjunta e participativa, de escuta e diálogo, onde o contributo de todos é tido em conta. Um tempo que procura abrir janelas e portas para o mundo, encarando os múltiplos desafios que atualmente se impõem.

Apesar deste conceito de Sinodalidade, tão defendido pelo Papa Francisco, parecer uma novidade [recorde-se que foram já realizados quatro sínodos durante o seu papado: o Sínodo Extraordinário sobre a Família (2014), o Sínodo dos Jovens (2018), o Sínodo Especial para a Amazônia (2019), e o Sínodo dos Bispos sobre o Médio Oriente (2010)], havia sido já promovido, de certa forma, pelo Concílio Vaticano II. Mesmo que não explicitamente mencionado, como nos dias de hoje, é possível compreender já nessa altura os seus princípios subjacentes.

A ideia de sinodalidade não é, portanto, nova e pode ser vista como uma continuação do espírito reformador que surgiu no Vaticano II e que o Papa Francisco tem enfatizado durante o seu pontificado, procurando torná-la ainda mais proeminente na vida da Igreja.

Com esta iniciativa, Francisco recupera e dá continuidade ao espírito do Concílio Vaticano II, convidando à ativa participação de todos, mostrando uma igreja que se pretende em diálogo e atenta aos desafios do dia a dia, e não fechada em si mesmo e no seu clericalismo.

O Sínodo da Sinodalidade procura assim a materialização de uma visão de Igreja mais atenta: que acolhe a pluralidade, promove a colaboração e incentiva a participação ativa dos seus membros.

O objetivo é claro: criar um espaço onde todas as vozes na Igreja sejam ouvidas, promovendo uma comunhão mais profunda na vida religiosa e uma governação eclesiástica mais descentralizada, envolvendo todos os seus membros.

Um dado interessante de notar é o facto de o Sínodo da Sinodalidade ter sido marcado para o ano em que se cumprem 60 anos da publicação do primeiro documento do Concílio Vaticano II: a Constituição Sacrosanctum Concilium. Um documento que se dedica inteiramente à liturgia e que foi um dos mais relevantes do Concílio Vaticano II, Concílio este que se destacou como um importante momento de reflexão da Igreja Católica, promovendo mudanças significativas.
Contudo, apesar do seu carácter reformador e revitalizador, é quase unânime a constatação de que muito ficou por se realizar.

Esta ideia de sinodalidade que o Papa Francisco tem colocado como centro permite assim recuperar o espírito reformador do Concílio: de diálogo e de caminho, que se mostrava há já muito necessário. E o facto de convocar o Sínodo da Sinodalidade, cujo nome parece redundante, reafirma uma orientação muito importante para a Igreja: a de que a Sinodalidade deve ser um caminho que a Igreja deve percorrer, numa visão de Igreja mais aberta e comprometida com as necessidades e desafios do mundo contemporâneo.

Este momento de reflexão proporcionado pelo Sínodo de um olhar profundo para a Igreja poderá e deverá permitir o desenvolvimento de temáticas que foram tratadas superficialmente ou que até mesmo não chegaram a ser abordadas no Vaticano II.

O caso da arquitectura é um deles: um tema de grande importância pelo papel que desempenha na vida da Igreja, que não deve ser esquecido, sob pena de se cair, uma vez mais, no erro de se achar um assunto secundário ou demasiado complexo para se debater…

À semelhança do Sínodo da Sinodalidade, que foi precedido de uma altura de preparação e recolha dos temas a abordar, também o Concílio Vaticano II o foi. Três anos antes do início do Concílio, foram estabelecidas várias comissões que prepararam documentos, denominados de “esquema”, que viriam a servir de base para a discussão dos padres conciliares aquando do momento do Concílio. Uma das comissões desenvolveu o “esquema” da Constituição Sacrosanctum Concilium que continha um capítulo dedicado à arte sacra, ao qual pertencia um anexo denominado de Declaratio, que fazia uma aproximação mais detalhada à questão da arquitectura. No entanto, aquando da discussão e posterior publicação da Constituição Sacrosanctum Concilium, a Declaratio foi deixada de lado, o que fez com que, apesar da inequívoca relação entre a arquitectura e a liturgia, nenhuma linha tenha sido escrita nos documentos do Concílio Vaticano II relativamente à arquitetura.
Ainda assim, mesmo não tendo sido mencionada uma única vez a palavra arquitectura nos documentos conciliares, são notáveis as alterações que se procederam no espaço litúrgico pelo mundo fora a partir daí em resposta às alterações litúrgicas[1].

Não sabemos que espaço é que a Arquitectura Religiosa poderá ocupar no Sínodo, se é que vai ocupar algum. Mas algo podemos desde já notar ao compararmos com anteriores sínodos: o espaço no qual se reúnem é diferente e, apesar de parecer um pormenor, diz-nos já muito…

Mas para haver um verdadeiro rejuvenescimento e desenvolvimento da arquitetura religiosa, o espírito da sinodalidade deve invadir as Dioceses e Paróquias, os Bispos, os Párocos, os Seminaristas, os Catequistas, os Leigos. Pois muitas vezes o que encontramos são comunidades fechadas, ou, quando entusiasmadas, se veem castradas pelo pároco, pelo bispo, ou outro decisor que acaba por ter o poder de tomar decisões unilateralmente. Decisões essas que acabam por transformar edifícios vivos em espaços museológios que preservam identidades litúrgicas desatualizadas que, muitas vezes, só confundem e perturbam a compreensão e significado da liturgia.

Não sabemos que espaço tomará a Arquitectura no Sínodo, mas certamente este espírito da sinodalidade ajudará ao desenvolvimento da Arquitetura Religiosa Católica.


SUGESTÕES:

Livro
José Tolentino Mendonça, “A mística do instante”, 2014

Artigo
Poeta e “peregrino da esperança”, José Tolentino Mendonça é o Prémio Pessoa 2023

Obra de arte
A adoração dos pastores, Giovanni Lanfranco, séc. XVII

Arquitecto/escritório de arquitetura
Luis Barragán

Obra
Convento de las Capuchinas, Tlalpan, México
Luis Barragán, 1953


[1] Ao abordar as alterações liturgias do Concílio Vaticano II é importante não esquecer a importância determinante que o Movimento Litúrgico desempenhou e as experiências arquitectónicas que, ainda antes do Concílio foram sendo feitas no seio deste mesmo Movimento.

 


Imagem recolhida de Vatican News