Dom. Nov 28th, 2021

Rubrica ‘QUE ESPAÇO PARA DEUS?’

Um espaço de reflexão acerca da arquitectura e da sua importância nas nossas vidas.
Por Manuel Vilaça Ribeiro, 25 anos, arquitecto, natural de Coimbra, actualmente a trabalhar no Porto, nos DepA Architects.*

Espaço Vivo

Manuel Vilaça Ribeiro

 

O carácter sagrado e histórico de uma igreja não significa estagnação.

Uma ideia absolutamente sacramentalista destes espaços, que recorrentemente nos confrontamos e nos fomos já habituando, faz com que se vá perdendo um aspecto verdadeiramente importante e fascinante da sua identidade: o de que o espaço de culto católico e a sua liturgia não são estáticos, pelo contrário, sempre se foram moldando e adaptando, com maior ou menor intensidade e com maior ou menor êxito ao longo dos tempos. Um dos grandes desafios da Igreja nos dias de hoje, que permanece há já demasiado tempo sem que haja coragem de o assumir e enfrentar, prende-se com a capacidade de reabilitar as suas igrejas.

Como é possível não sermos capazes de cuidar do património religioso? Ou, melhor, como é possível que a grande maioria das reabilitações no património religioso sejam feitas com alteração do seu uso e não para melhoria do mesmo?

O carácter histórico e patrimonial de grande parte destes edifícios de culto católico não pode continuar a mostrar-se um obstáculo. A zona cinzenta em que actualmente se inscrevem tem de ganhar cor.
Este grande vazio, que surge da incapacidade e indefinição destes espaços tem levado a um grande declínio, do qual resultam espaços que não se coadunam com o tempo que vivemos, preservando uma realidade então ultrapassada que, por vezes, se sobrepõe à própria função para a qual o espaço existe, quase se tratando de espaços museu, chegando, inclusivamente, a serem apoderados para fins completamente díspares, como bibliotecas, salas de espectáculo, bares, etc…

Não há nada pior do que a falta de empatia…no entanto, é esse o caminho que a Igreja tem traçado há já bastante tempo relativamente ao tema. A incapacidade de intervir nas suas igrejas, o pouco cuidado com o património religioso e a falta de empatia que se tem por estes espaços faz com que o tempo deles se apodere, sem dó, nem piedade.

Para ultrapassar este obstáculo, para além de se dever colocar os olhos nos belíssimos exemplos de reabilitações feitas por esse mundo fora, valerá a pena compreender melhor a história destes edifícios, desde logo, a relação que as primeiras comunidades cristãs tinham com o espaço onde se reuniam.

Pegando nas palavras de São João Paulo II: “Não tenhais medo”. Sacerdotes, fiéis, arquitectos, artistas…. “Não tenhais medo”.


SUGESTÕES:

Livro
https://www.bertrand.pt/livro/a-mistica-do-instante-jose-tolentino-mendonca/15968222?
gclid=Cj0KCQjw0K-HBhDDARIsAFJ6UGjh1TWUeYD4a0V9UnY6XspNWYkuMKC-rNFpsd-
V2BtvDHRdWDZVhxTsaArJ3EALw_wcB
Obra “A Mística do Instante” de José Tolentino Mendonça

Artigo
https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2021-07/papa-francisco-motu-proprio-novas-normasmissa-
antiga-missal.html
Papa publicou o mot proprio “Traditionis Custodes” que define novas normas sobre a missa antiga
https://www.plataformaarquitectura.cl/cl/964258/fray-gabriel-chavez-de-la-mora-recibe-el-premionacional-
de-arquitectura-2020-en-mexico?ad_medium=gallery
Sacerdote Mexicano recebe o Premio Nacional de Arquitectura 2020

Obra de arte
https://snpcultura.org/francisco_escolhe_escultura_contemporanea_ressurreicao_para_votos_pascais.
html
Escultura “Ressurreição”, de Pericle Fazzini, na Sala Paulo VI
Arquitecto/escritório de arquitectura
https://www.agenceduthilleul.fr
Arquitecto Francês Jean-Marie Duthilleul

Obra
https://eg.uc.pt/handle/10316/92254
Reabilitação da Igreja de Santo Inácio, Paris (pp.287-293)


Imagem de andreas160578 por Pixabay