Dom. Jun 13th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

Edith Stein no Carmelo – O POSTULANTADO

Javier Sancho*

1. O ambiente

Desde a sua entrada, a 14 de Outubro de 1933, até 15 de Abril de 1934, dia da sua tomada de hábito, Edite Stein passará 6 meses de provação, durante o tempo de postulantado.

O postulantado é o período inicial de provação num duplo sentido: a candidata prova a si mesma a idoneidade para o caminho que escolheu, e a comunidade avalia se a candidata é apta para iniciar a vida religiosa.

Quando Edite entra no Carmelo de Colónia era prioresa a M. Josefa do Santíssimo Sacramento, e mestra de noviças e subprioresa a M. Teresa Renata do Espírito Santo. Além de Edite estavam na fase de formação duas noviças e uma postulante para leiga. Todas elas muito mais jovens do que Edite, quase 20 anos menos. A Doutora Stein tinha 42 anos de idade e uma formação que superava muitíssimo a de qualquer das monjas da comunidade. No entanto, tudo isto não foi causa de inadaptação.

A vida no convento supôs uma mudança radical, fundamentalmente na sua actividade. Antes eram o estudo, as aulas e as conferências que ocupavam o seu tempo. Agora a vida regular. A maior parte do dia dedicada à oração e ao trabalho manual. A oração  não supôs certamente para ela uma mudança forte, pois esta constituía, desde há vários anos, o centro da sua vida. Mas, sem dúvida, muitas das formas e ritos não só eram novos para ela, mas às vezes a sobrecarga de cerimónias e rituais eram difíceis de assimilar por serem tantas e tão marcadas.

Outra mudança era o modo de recitar o Ofício Divino. Ela tinha-o vivido profundamente segundo o estilo coral dos beneditinos de Beuron, onde passava a Semana Santa. A solenidade da liturgia beneditina era algo que ela admirava muitíssimo e na qual mergulhava gostosamente. Sendo este embora um aspecto que tanto aprecia, sabe adaptar-se ao costume carmelita de simplicidade e sobriedade, ao mesmo tempo que sabe avaliar a razão.

Durante o postulantado, a candidata vai entrando progressivamente no horário comunitário. Normalmente, não tinham que participar em todas as orações. Edite, no entanto, conseguiu libertar-se dalgumas destas normas já que fora do convento estava acostumada a rezar todo o Ofício Divino. Assim acontecia, por exemplo, com a oração de matinas. Um compromisso de entrega que vai mais além das normas estabelecidas e que diz muito da autenticidade da sua vocação.

Quando Edite entrou em Colónia, o convento estava a preparar uma nova fundação na sua terra. E, de facto, foi admitida em vista a integrar-se depois na nova comunidade. Para Edite era mais um aliciante, já que isto significava que ia viver muito perto da sua família, com a qual poderia manter um contacto mais próximo, especialmente com a sua mãe. Mas, de momento, tinha que prosseguir a sua formação inicial.

Até que ponto Edite tinha antes da sua entrada um profundo conhecimento do Carmelo, demonstra-o o facto de que já durante este período de postulantado, contribuiu com a preparação de alguns escritos carmelitanos: uma biografia de Santa Teresa (Amor com amor) (OC V, 555 ss), e, quase certamente, o artigo Sobre a história e o espírito do Carmelo (OC V, 555 ss).

2. Valorizando as pequenas coisas

O mais importante deste tempo de postulante vai ser o aprofundamento e o enraizamento nos valores essenciais da vida carmelitano-teresiana.  Uma confirmação do que no mundo buscava e vivia. Nunca se considerou no cimo do caminho. Ainda havia muito a percorrer. Vai perceber, neste primeiros meses, a necessidade do pequeno, do que noutros ambientes não tem qualquer importância e que, no entanto, constitui um factor essencial no crescimento da carmelita para a santidade. Numa das suas cartas, datada de 21 de Novembro de 1933, lemos: “De todos os modos, pensei muito em si estas semanas. Uma vez devido ao que há algum tempo escreveu sobre o “trabalhinho espiritual” de Santa Teresinha. Neste “trabalhinho” funda-se uma parte essencial da vida carmelita, e isto parece-me que é um grandíssimo trabalho, um trabalho silencioso de perfuração que tem a força de romper as rochas” (Ct 1061). Aqui é onde Edite vai fundamentar tudo o que se há-de construir em favor dos outros: “cada dia sinto esta paz como um magnífico dom da graça que não pode ser dado só para mim” (Ct 1069).

O “pequeno caminho” espiritual vive-se no quotidiano, nas pequenas e humildes tarefas da casa, na convivência. Parece ser que nalgumas das tarefas domésticas Edite encontrou a ocasião para exercitar a sua humildade. O seu forte nunca foram os trabalhos de casa e agora tem que participar directamente neles. Uma das monjas testemunha: “É certo que se falava da sua torpeza nos trabalhos domésticos e também de uma certa distracção, que surgia da sua preocupação com os problemas intelectuais. No entanto, não sabíamos que fosse uma pessoa intelectualmente tão importante. Com o motivo da sua tomada de hábito o Arquiabade Walzer falou do facto de que Edite tinha um nome no mundo. Foi só então que me dei conta de que era uma personalidade importante” (Positio 3).

Havia uma série de exigências ou restrições contidas nas normas da Ordem: por exemplo, não ter visitas durante este tempo e limitar a correspondência ao máximo, havendo períodos nos quais não se podiam escrever cartas (Advento e Quaresma). Dada a sua trajectória como “acompanhante espiritual”, antes da sua entrada, pediu licença para poder continuar a escrever cartas através das quais poder continuar a exercer este serviço que ela considerava “um trabalho apostólico” (Positio 63). Entre essas cartas não faltava, cada semana, a carta dirigida a sua mãe. Por todos os meios e apesar da incompreensão, não queria romper a relação com a sua mãe, e menos ainda na situação em que se viam submetidos os judeus na Alemanha.

Este período de tempo, que durou seis meses, foi suficiente para que Edite se reafirmasse na vocação e no convento escolhido. Apesar das possíveis dificuldades de adaptação, soube integrar-se neste novo ambiente, vivendo sempre do essencial, do que tinha motivado a sua entrada: interceder pelo seu povo.

Parece ser, pelos dados que possuímos, que a escolha do convento de Colónia foi, até certo ponto, casual, embora o facto da fundação na Silésia fosse uma motivação importante. No entanto, há um elemento essencial que favoreceu no fundo a sua escolha e permanência na comunidade de Colónia. É que, apesar da estreiteza da vida do Carmelo, neste convento ela percebeu que existia a suficiente liberdade de espírito que favorecia o crescimento pessoal e comunitário, maduro no seguimento de Cristo. Deduz-se das suas cartas que para ela este é um elemento substancial na hora de escolher o convento: “Sabia que a minha amiga e eu alimentávamos o desejo de entrar numa Ordem contemplativa. Aconselhou-nos no momento de escolher que procurássemos um mosteiro onde se deixasse espaço para a liberdade de espírito. Era assim no Carmelo de Colónia, mas isto não acontecia em todas as partes” (Positio 74).

*Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 60-61.

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