Sáb. Nov 27th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

O Talante Humanista em Edith Stein

Javier Sancho*

1. A pessoa é que conta

Um facto que encontramos sempre presente em Edite, como uma constante em contínua ascensão, é o seu talante humanista. Não somente no plano teórico, mas, em primeiro lugar, no plano existencial. A verdade do ser humano não foi só o motor de busca e preocupação antes da sua conversão. O tema e a preocupação continuam a ser uma realidade muito presente nela, que qualifica, em certo sentido, toda a sua actividade profissional e pessoal.

Uma mulher como Edite, que desde sempre se preocupou pela “pessoa” em si e no seu contexto, não faz senão levar à prática umas convicções que, sem dúvida, lhe facilitaram o caminho para a fé e que este encontro com a fé enriqueceu. As suas cartas de “acompanhamento espiritual” são toda uma catequese de humanidade: “Quando estiveres com outras pessoas pensa nisto: que existe algo comum que é mais forte do que o que separa e procura estar ligado a isso… Deus é quem vê o interior das pessoas. Ele vê o mal, mas também o mais pequeno grãozinho de ouro, que a nós amiúde nos passa despercebido e que desde logo não falta em nenhuma parte. Crê neste grãozinho presente em toda a pessoa, e para isso pede que te seja concedido um olhar penetrante” (Ct 897).

Para Edite o ser humano, a pessoa humana, é o maior tesouro que possuímos. Por isso, há-de ser acolhido e respeitado na sua mais íntima dignidade. Este princípio presidirá todas as suas actividades, especialmente aquelas relacionadas directamente com o trato com as pessoas. Todas as suas conferências são um rosário de princípios que evidenciam os valores inalienáveis do ser humano.

Esta apreciação da pessoa como mistério, imagem do Deus vivo, leva-a a manter um trato paciente e amoroso, especialmente com aqueles que mais o necessitam: “Não és tu só a que comete muitas faltas: todas as cometemos. Mas o Senhor é paciente e rico em misericórdia. Na sua Providência pode tirar proveito também das nossas faltas, se as pomos diante do altar. Um coração contrito e humilhado Tu, ó Deus, não o desprezas (Salmo 50). Este é um dos meus versículos preferidos” (Ct 942). O seu modo de acompanhar é misericordioso e bondoso. O próprio Deus é para ela modelo de actuação em relação aos outros.

Edite terá sempre em conta aspectos como a individualidade da pessoa, o seu ser único e especial, a liberdade e responsabilidade, assim como a dimensão social e comunitária.

Porém, talvez, o que nela mais chama a atenção é a sua visão do “próprio”, dos seus dinheiros, das suas coisas. Sabe que tudo aquilo de que dispõe é algo ao serviço da pessoa, não só dela, mas também de quem o puder necessitar. Mencionamos já como se preocupa sempre de ajudar materialmente os mais pobres à sua volta. Mesmo assim, os seus próprios aforros, o seu salário, estão disponíveis. Nas suas cartas a Ingarden aprecia-se com nitidez: “é uma conclusão errada se você toma isto como uma prova de amizade. Com isto não quero negar a amizade. Mas julgo que faria o mesmo por um desconhecido, que estivesse na sua situação. E se eu não acreditasse nisto, talvez tivesse reparos em oferecê-lo a si” (Ct 774).

Este modo generoso de pôr o seu pequeno salário ao alcance de quem o necessita, não é senão outro dado da sua preocupação prática pelo ser humano.

 

2. A educação ao serviço do ser humano

Tanto na sua vida pessoal, como no trato com os outros, especialmente no campo educativo e formativo, vem sempre ao de cima o princípio do respeito à dignidade da toda a pessoa humana. Desde sempre soube respeitar as decisões de quantos estavam a seu lado, especialmente se estas decisões surgiam de um profundo convencimento fruto de uma busca sincera. Nas orientações pessoais às suas “dirigidas”, percebe-se sempre o seu propósito de educar para a liberdade e a responsabilidade. Tudo isto o descobrimos numa infinidade de atitudes e conselhos que ela mesma toma para si. Mencionamos algumas delas:

A riqueza de conhecimentos e a sua atitude de acolhimento positivo do humano, fazem dela uma mulher de visão alargada e de uma modernidade que contrasta fortemente com a mentalidade da sua época, e que ao mesmo tempo a tornam admirável. Assim se demonstra neste gesto que refere a uma sua aluna: “De visão alargada como era, facilitou-nos às colegiais, a nós colegiais do internato, a primeira ida ao teatro. Representava-se Hamlet de Shakespeare. (…) Que coração tão amplo tinha para o nobre e belo ao lado da sua mais íntima união com Deus! Assim a conhecemos” (Posselt 86).

O seu respeito pela pessoa surge do profundo conhecimento que tem do humano, e que a orienta por um caminho de respeito, profundamente realista. Confessa-nos na sua autobiografia que “tinha aprendido que só raramente se melhora os homens pelo facto de lhes dizer quatro verdades…” Atitude que, certamente, não a desanima no seu propósito de ajudar o outro.

Mas se nalgum ponto temos que buscar a profunda sensibilidade pelo humano, como valor fundamental, não o encontremos simplesmente numa simples teoria antropológica. Para Edite Stein a raiz do seu comportamento e a valorização excelsa do humano surge do seu encontro com Deus, da descoberta e da experiência desse amor. Um amor que não é algo abstracto, nem se encerra numa simples experiência pessoal. O amor de Deus tem um rosto visível nos membros da sua Igreja. A vocação individual que cada um recebe é um sinal da imensidão deste amor, que se pode manifestar sempre de formas novas e diferentes, e, por isso, cada um há-de buscar onde, como e de que maneira exprimir esse amor na sua vida. Esta seria a meta para a qual Edite se propõe conduzir a todos os que entram em contacto com ela e estão dispostos a buscar.

Um amor, portanto, que se torna visível a todos através da acção dos homens e das mulheres que vivem unidos intimamente com Deus. Só a partir da experiência interior do amor, se pode fazer participar os outros de tal dom. “o facto de servir é o efeito do amor” (SF 521). Por isso, para Edite uma experiência de Deus que não se traduza em vida, em serviço, em testemunho, em missão educativa, não é autêntica experiência do Deus Amor.

Deste mesmo amor, Edite deduz a bondade de todo o ser humano – não em vão a busca da verdade do homem lhe tinha aberto o caminho para Deus –. E, apesar de ser vítima do ódio nazi, vai manter sempre esta visão positiva do ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus.

 

* Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 44-45.


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