Sáb. Nov 27th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

O Castelo Interior

Javier Sancho*

a) A razão deste escrito

Dá a sensação de que ao concluir a sua obra Ser finito e ser eterno, Edite Stein não ficou totalmente satisfeita. Não pela obra em si, mas por perceber a necessidade dalgum complemento a quanto tinha escrito. E esse complemento não é outra coisa senão oferecer a visão, compreensão e conhecimento alcançado pelos místicos no que diz respeito à interioridade mais profunda do ser humano. Nem a filosofia, nem a teologia em si mesmas conseguem desvelar o mistério. Mas a experiência e a doutrina de uma grande mística, pode oferecer muitas luzes. Está claro que se trata de Santa Teresa e da abordagem a uma das suas obras principais: As moradas ou O castelo interior.

Não esqueçamos que, quando Edite escreve Ser finito, já vive mergulhada no Carmelo. E não podia deixar de fazer constar a importância que os seus autores têm no conhecimento do ser humano. A data de composição deste primeiro apêndice há que situá-la em 1936, uma vez concluída a grande obra.

É um escrito que habitualmente foi publicado sempre separadamente de SF. E embora se possa fazer uma leitura independente deste escrito, contudo, alcança o seu pleno sentido no contexto para o qual foi escrito: como complemento ao estudo do ser. Isto dá a este breve escrito uma carácter de todo peculiar. Por um lado, a temática central é «mística», mas orientada para a compreensão da interioridade do homem. Poderíamos dizer que esta inclusão significa que para Edite a «mística» tem uma palavra muito importante no caminho de compreensão do ser humano. Talvez radique aí a chave hermenêutica de compreensão deste escrito.

O título original é: O Castelo Interior (Anhang I. Die Seelenburg zu Endlisches und Ewiges Sein).

b) Estrutura do escrito

 

O tema central é a análise do livro das Moradas de Santa Teresa e a sua relação com a psicologia. Daqui surge a estrutura da obra em duas partes claramente diferenciadas:

  1. Análise da obra de Santa Teresa
  2. As «Moradas» à luz da filosofia moderna

A primeira parte está estruturada, fundamentalmente, na apresentação de uma maneira sintética de cada uma das sete moradas que santa Teresa estabelece na sua obra. Deste modo, pretende fazer-nos ver a dinâmica que a alma percorre na busca do seu centro mais íntimo, da sua identidade, da sua união com Deus.

Todos estes elementos servem a Edite para articular a segunda parte. Edite, de modo muito sintético, limita-se a procurar as semelhanças e as diferenças entre os resultados oferecidos por Teresa e quanto a filosofia do seu tempo conseguia decifrar.

c) Conteúdo

Este breve escrito inicia com a seguinte afirmação: «Uma vez que usei o termo “Castelo interior” referindo-me à principal obra mística da nossa Santa Teresa de Jesus, agora quereria dizer como as minhas explicações sobre a estrutura da alma humana conectam com essa obra da Santa» (OC V, 80). Fica aqui evidenciado o propósito e o conteúdo deste escrito. A referência a SF será, pois, imprescindível.

Em SF propõe-se, entre outras coisas, indagar as características específicas do ser humano. Neste processo é de suma importância alcançar o maior conhecimento possível de toda a sua estrutura corpórea, psíquica e espiritual. Para isso, será necessário alcançar um conhecimento mais completo da «alma» enquanto centro dessa unidade que chamamos homem.

Conhecer a alma implica penetrar na sua «vida íntima», descobrir a sua interioridade. «Mas não é possível oferecer um quadro preciso da alma – nem sequer de forma sumária e deficiente – sem chegar a falar do que compõe a sua vida íntima. Para isso, as experiências fundamentais sobre as quais nos devemos basear são os testemunhos dos grandes místicos da vida de oração. E em tal qualidade, o “Castelo interior” é insuperável» (ib.).

Edite pergunta-se sobre o propósito chave da Santa Teresa: «religioso-prático». Nunca teve interesses propriamente científicos. Mas a sua experiência ilumina esse mistério da interioridade da alma. Teresa, partindo da imagem de que a alma é um castelo, e que a sua interioridade é formada por muitas moradas, inicia o caminho de conhecimento e conquista, traçando-nos o mapa «da alma» que nos ajuda a descobrir toda a riqueza que ali se encerra.

A continuação, Edite sintetiza os elementos que se descobrem em cada uma das moradas teresianas:

– Primeira morada: conhecimento de si.

– Segunda morada: percepção do chamamento de Deus

– Terceira morada: ordenar a vida conforme o chamamento de Deus

– Quarta morada: início da vida mística, oração de quietude

– Quinta morada: oração de união

– Sexta morada: desposório espiritual

– Sétima morada: matrimónio espiritual

Em cada uma das moradas, sublinha os elementos que lhe interessam para o seu propósito.

Na segunda parte propõe-se: «pôr de relevo o que esta imagem da alma tem em comum com a que antes nós mesmos descrevemos (com critérios filosóficos), e o que tem de diverso» (ib. 99). O comum é a «concepção da alma como um amplíssimo reino». A diferença fundamental radica nos pontos de vista diferentes, ainda que no fundo dá-se uma união.

Edite, com Teresa e com a psicologia moderna, admite que este caminho de interioridade leva consigo na pessoa o seguinte: entrar em si mesmo significa aproximar-se gradualmente de Deus, significa adquirir uma posição mais nítida e objectiva diante do mundo e um conhecimento de si mesma.

Por último, pergunta-se Edite se realmente a oração é a única porta para o centro de si mesmo. O seu discurso é muito interessante.


*Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 136-137.

 

Imagem de Peter H por Pixabay