‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

Entrar na mente do Salmista

Javier Sancho*

Edith Stein foi uma grande conhecedora do saltério. Não só o rezava desde o sue baptismo, mas, além disso, traduziu grande parte dos salmos ao alemão, com o mesmo ânimo de que as suas freiras pudessem adentrar-se no conteúdo dos mesmos, já que normalmente não podiam fazê-lo por causa do seu escasso conhecimento do latim. Edith Stein viveu de perto e mergulhada com todo o seu ser o «movimento litúrgico» que propugnava uma participação mais activa e viva dos leigos na liturgia da Igreja. As suas visitas contínuas à abadia beneditina de Beuron introduzem-na, além disso, na corrente da beleza litúrgica.

Talvez a sua origem judaica, e o ter saboreado já desde pequena a recitação dos salmos em contextos festivos como o da Páscoa Judaica, puderam ter influído profundamente nela.

Não é que encontremos em Edith um estudo dos Salmos. Todavia, as referências que encontramos convidam-nos a introduzir-nos nesta linha para aproximar-nos à leitura, meditação e oração dos salmos: entrar na mente do salmista. Consistirá, principalmente, em perguntar-se diante de um salmo, qual é o conteúdo da experiência, que leva o salmista a exprimir-se deste modo: a alegria de uma vitória, a tristeza do desterro ou do pecado, o louvor, o desespero, o medo…

Os Salmos, enquanto escritos poéticos e manifestações livres da experiência de Deus, são um lugar onde o olhar empático pode descobrir muitos elementos iluminadores, principalmente graças «ao estilo atrevido» que apresentam e ao facto de estar «tão cheios de imagens» 25. Edith Stein vê o salmista como parte dessa corrente mística presente sempre na história. Autor ou autores iluminados pelo Espírito contribuíram para o louvor contínuo das Trindade: «Não era talvez a alma do salmista régio uma harpa cujas cordas soavam ao suave sopro do Espírito Santo?» 26.

O salmista é, pois, um homem de experiência. Mas, ao mesmo tempo, é um homem que tem os olhos bem abertos a tudo o que acontece à sua volta, sendo capaz de perceber os sinais da presença de Deus que depois figura nos salmos:

«O cantor de salmos percebe a voz de Deus na natureza; está claro que conhece a Deus unicamente a partir daqui. Encontra a Deus em todas as coisas com mais frequência porque crê e porque Deus fala-lhe no seu interior. No entanto, muitas imagens não fáceis de mostrar, puderam ser elaboradas a partir da intuição da natureza»27.

Estes recursos dos quais deita mão o salmista, são reconhecíveis em muitos salmos. A mesma natureza constitui-se em fonte para o louvor e para apresentar com imagens o próprio ser de Deus. Edith Stein anotará que quando normalmente se fale do agir de Deus já não se recorrerá tão facilmente a imagens sensíveis:

«Na linguagem dos salmos torna-se manifesta a experiência do governar divino, tanto nos destinos particulares, como nos grandes acontecimentos históricos de grande significado. Nisto e nas parábolas deixa-se de lado facilmente o âmbito da percepção sensível. Aqui a imagem é um ideal que pressupõe uma transparência espiritual superior que se dá numa experiência originária»28.

Outra série de imagens, que às vezes nos afastam mais de conhecer a Deus como pai misericordioso, encontram um significado na mente do salmista:

«Quando o salmista medita as histórias do povo eleito, como lhe foram transmitidas pela história sagrada – as maravilhosas promessas e as actuações de graça de Deus, as repetidas deserções do povo e os conseguintes castigos terríveis –, impõem-se então de por si as imagens de Deus como “pai dos órfãos” e pastor fiel e solícito, e também como juiz encolerizado, que abandona os seus como “ovelhas para o matadouro” e se eleva em inflamada cólera contra elas»29.

O autor dos salmos, com o uso que faz da linguagem e das imagens, deixa entrever que a sua intenção é a de suscitar a fé no povo, procurando oferecer ao crente uma série de símbolos que lhe permitam captar «empaticamente» o que se esconde por detrás de tudo isso:

«O povo que escuta e canta os salmos pode compreender a linguagem como fundamento da fé, situando-se na mesma tradição que o santo cantor. Falo do que vive nos corações, ou desperta o que ali dorme»30.

Um exemplo de como isto acontece descobre-o Edith na própria pessoa de Jesus, que participou, como todo o judeu, na proclamação dos salmos:

«Conhecemos pelos relatos evangélicos que Cristo orava, como orava um judeu crente e fiel à Lei. Na sua infância fê-lo na companhia dos seus pais, mais tarde como peregrino para Jerusalém com os discípulos, segundo os tempos prescritos para tomar parte nas celebrações solenes do Templo. Sem dúvida, cantou com os seus, com santo entusiasmo, os hinos em que prorrompia a alegria antecipada dos peregrinos. “Que alegria quando me disseram, vamos para a casa do Senhor!” (Sl 121, 1). O relato da última ceia com os seus discípulos, dedicada ao cumprimento de um dos mais sagrados deveres religiosos, a solene ceia pascal, em comemoração da libertação da escravidão do Egipto, testemunha que Ele rezou as antigas orações de bênçãos, que ainda hoje se rezam sobre o pão, o vinho e os frutos da terra»[1].

Até ao momento só pudemos captar, procurando evidenciar as reflexões steinianas, as intenções do salmista e o uso que faz da linguagem. Em princípio isso servir-nos-ia de apoio para procurar fazer uma aproximação empática dos salmos. Uma leitura assim teria que ter presente pelo menos dois elementos:

– os sentimentos que o salmista nos quer transmitir (alegria, tristeza, triunfo, derrota, esperança, dor, desterro…)

– as imagens usadas e o conteúdo essencial que elas contêm. Neste sentido, e como exemplo, designar o Senhor como o fogo, o trovão, etc… levar-nos-ia a afirmar a potência e o poder de Deus. Outra série de imagens históricas, que deriva, «quase escandalosamente» desde o ponto de vista cristão (por exemplo as alusões aos castigos terríveis para os inimigos do Povo), teriam que levar-nos a compreender como em definitivo a mensagem essencial que o salmista nos quer transmitir é que Deus é o Todo-poderoso e o Justo, e que é o Senhor da história. Assim, torna-se muito mais fácil meter-se na «pele» do salmista.

Entre a infinidade de escritos que Edith Stein produziu, só num caso nos oferece, embora parcialmente, um exemplo de como fazer a leitura empática de um salmo. Neste caso, trata-se do salmo 118. Reproduzimos quanto ela escreve:

«Que se entende por “lei do Senhor”? O salmo 118, que rezamos todos os domingos e solenidades na hora de prima, está imbuído por esse desejo de penetrar a lei do Senhor e de deixar-se conduzir por ela durante a vida. Talvez o salmista pensasse na lei do Antigo Testamento, cujo conhecimento exigia efectivamente a dedicação de toda a vida e o seu cumprimento um exercício constante da vontade. Cristo, no entanto, libertou-nos do jugo  dessa lei. A Lei do Novo Testamento é o grande mandamento do amor, do qual Cristo diz que resume toda a lei e os profetas. O amor perfeito a Deus e ao nosso próximo é, sem dúvida alguma, um objecto digno de contemplação para toda uma vida. Ainda melhor, podemos interpretar o próprio Cristo como a lei do Novo Testamento, pois Ele, com a sua vida, deu-nos o exemplo de como devemos viver»32.

Observamos neste texto como Edith se aproxima ao Salmo com um interesse particular. Mesmo assim o primeiro aspecto que põe em evidência é o «estado de ânimo» do salmista: «desejo de conhecer a Lei e de se deixar conduzir por ela ao longo da vida». E embora não analise explicitamente a possível simbologia e conteúdo presente no salmo, resume-o dizendo que: «O salmista pensava então na lei da Antiga Aliança. O seu conhecimento exigia, efectivamente, uma longa vida de estudo e o seu cumprimento toda uma vida de esforço da vontade». Mas encontramo-nos ainda com um elemento novo que será de grande ajuda para captar ainda melhor o significado dos Salmos (de todo o Antigo Testamento): e é que tudo aponta para Cristo, como o cumprimento perfeito das aspirações do salmista: «Cristo, no entanto, libertou-nos do jugo dessa lei». Daqui poderíamos deduzir que Edith Stein defende uma leitura cristológica dos salmos: Cristo é o objecto e o anelo de todos os desejos, ânsias e sentimentos manifestados pelo salmista.

*Javier Sancho. La Biblia con ojos de mujer. Edith Stein y la Sagrada Escritura. Editorial Monte Carmelo, 2001. Pp. 69-73.
Imagem de Tomasz Marciniak por Pixabay

25 CC 45.

26 A oração da Igreja, em Obras 407.

27 Os caminhos do conhecimento de Deus, em Obras 472.

28 Ib. 474.

29 Ib. 476.

30 Ib.

[1] A oração da Igreja, em Obras 394.

32 Sobre a história e o espírito do Carmelo, em Obras 278.