Artigo recolhido de https://diocese-aveiro.pt/v3/
Pe. Evelio de Jesús Muñoz, OM / a Redacção
Há épocas em que o mundo parece respirar com dificuldade. Guerras que não acabam, economias que tremem, tecnologias que avançam mais depressa do que o coração consegue acompanhar, relações humanas que se tornam frágeis como vidro. E, no meio de tudo isto, a pergunta volta sempre: por onde recomeçar? Também na Igreja, o tema das vocações, da vida comunitária e da transmissão da fé às novas gerações permanece aberto, como uma ferida que pede luz.
É precisamente neste cenário que a figura de São Francisco de Paula se ergue com uma actualidade surpreendente. O fundador dos Mínimos não deixou apenas uma Regra; deixou um modo de respirar. A sua proposta espiritual, nascida há mais de cinco séculos, continua a ser uma resposta silenciosa e firme para quem procura sentido num tempo de dispersão.
A Regra começa por apontar para a humildade, não como diminuição, mas como verdade interior. Humildade é lucidez: é saber quem se é diante de Deus, sem máscaras, sem exageros, sem ilusões. Num mundo saturado de autoafirmação, esta humildade torna-se libertação. Francisco de Paula sabia que só quem desce ao fundo de si mesmo encontra o lugar onde Deus fala.
Da humildade nasce a sobriedade, essa forma de liberdade que recusa o excesso para recuperar o essencial. A vida quadragesimal dos Mínimos, tantas vezes mal compreendida, não é uma renúncia exterior, mas uma forma de respirar. É deixar cair o que pesa, o que dispersa, o que confunde, para que o coração reencontre o seu ritmo. Num tempo dominado pelo consumo e pela ansiedade, esta sobriedade torna-se uma forma de resistência espiritual.
E quando a alma se torna sóbria, descobre o silêncio. Não o silêncio vazio, mas o silêncio habitado. Para Francisco de Paula, o silêncio era caridade: era a forma de não ferir, de não agredir, de não dispersar. Hoje, quando tudo parece exigir resposta imediata, o silêncio torna-se um acto de maturidade. É no silêncio que muitos reencontram equilíbrio, clareza e verdade.
Neste caminho interior, a autoridade deixa de ser domínio e torna-se serviço. A Regra é clara: quem orienta deve ser o primeiro a obedecer. A autoridade mínima nasce da coerência, não do cargo. Num tempo em que é fácil apontar falhas nos outros, a Regra lembra que a credibilidade começa no coração de quem lidera.
E, como fio que atravessa tudo, surge a perseverança. A Regra insiste que o bem não se cumpre se não se persevera até ao fim. Num tempo marcado por desistências rápidas e compromissos frágeis, esta insistência torna-se profética. A vida espiritual não é feita de impulsos, mas de fidelidade.
No meio de tudo isto, o tema das vocações permanece vivo. Muitos pensam que os jovens só respondem a propostas leves, pouco exigentes, quase decorativas. A experiência mostra o contrário. Quando encontram autenticidade, clareza e testemunho, muitos continuam a interrogar-se seriamente sobre o chamamento de Deus. A vida de São Francisco de Paula mostra que a simplicidade, a oração e a entrega aos outros não estão fora do horizonte dos jovens. O desafio está em propor estas dimensões com verdade e sem medo.
Ser “Mínimo” não significa ser menos. Significa aceitar que a grandeza cristã passa pela pequenez, pela discrição e pela caridade concreta. Significa compreender que a força do Evangelho não está no barulho, mas na fidelidade silenciosa. A palavra que melhor resume esta herança é Charitas. Nela se concentra uma visão da vida feita de proximidade, serviço e atenção aos outros. Num tempo que pede respostas humanas e espirituais sólidas, a proposta de São Francisco de Paula continua a merecer atenção.
Ser Mínimo é escolher o essencial. É viver com menos ruído, menos vaidade, menos pressa — e com mais verdade, mais caridade, mais presença. É descobrir que a pequenez não diminui, mas liberta. É compreender que, diante de Deus, só o amor permanece.

A diocese de Aveiro acolheu, desde o dia 16 de fevereiro, uma pequena comunidade da Ordem dos Mínimos, fundada por S. Francisco de Paula, que reside na paróquia de Santo André de Vagos, arciprestado de Vagos.
A 1 de março D. António Moiteiro nomeou o Padre Evélio de Jesús Muñoz, O.M., Colaborador Pastoral das paróquias de Calvão, Gafanha da Boa Hora e Santo André de Vagos, confiadas ao cuidado pastoral do Padre Fernando Lacerda Ferros e também Colaborador Pastoral da paróquia de Vagos, confiada aos Padres Nicolau Claro Miranda Barroqueiro e José Carlos Gabriel Pereira, com especial atenção à pastoral do Santuário de Nossa Senhora de Vagos.