Dom. Nov 28th, 2021
Modos de interação entre ciência e religião

Perspectivas


Sexta Perspectiva: Construtal

Miguel Oliveira Panão

Blog & Autor

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Tudo no mundo encontra-se em movimento. Quando nos referimos a equilíbrio, na prática, estamos a reconhecer que os movimentos numa direcção são, permanentemente, compensados por movimentos na direcção contrária. Mas o curioso está na arquitectura gerada por aquilo que se move. Daí que um vale tenha na sua génese o fluir de um rio, ou que as ramificações de uma árvore tenham na sua génese o fluir da seiva. E a semelhança que encontramos entre as ramificações no estuário de um rio, os ramos de uma árvore, ou a estrutura alveolar dos nossos pulmões, faz-nos pensar na existência de um princípio universal subjacente. Esse princípio é o construtal, e oferece uma nova perspectiva sobre tudo o que flui no mundo.

Em 1996, após alguma perplexidade por ter ouvido o prémio Nobel Ilia Prigogine afirmar que as estruturas na natureza provinham do acaso, Adrian Bejan estranhou por não corresponder ao que havia estudado, conseguindo explicar a razão do seu desacordo ao formular a Lei Construtal,

«para um sistema que flui de tamanho finito (não infinitesimal, uma partícula, ou subpartícula) persistir no tempo (viver) deve evoluir com liberdade, de tal modo que providencia um acesso cada vez mais fácil e maior ao que flui.»

Diz Bejan na introdução do seu último livro ”Freedom and Evolution” que se dermos liberdade à natureza, essa devolve-nos a liberdade na forma de vida. Ou seja, o design na natureza tem a sua raiz num princípio físico assente nas ciências clássicas de engenharia como a termodinâmica, mecânica dos fluidos e a transmissão de calor. Esta perspectiva não só despertou o meu interesse científico, tendo feito deste tema parte do meu trabalho de investigação, mas fez-me lembrar como nunca foi usada para interagir com a sensibilidade espiritual de quem se reconhece como fruto de um Deus-Criador.

Em 2012 quando li um outro livro de Bejan sobre “Design na Natureza,” percebi que sentiu a necessidade de clarificar como “encontrar o design na natureza,” nada tinha a ver com pensar num Designer Inteligente. Talvez estivesse ainda marcado com o polémico artigo em 2005 no New York Times, com o mesmo título, onde o Cardeal Schönborn afirmou que «a Igreja Católica defenderá de novo a razão humana ao proclamar que o design imanente na natureza é real. As teorias científicas que procuram explicar o aparecimento do design como o resultado do “acaso e da necessidade” não são científicas de todo, mas, como diria João Paulo, um abdicar da inteligência humana.»

A linguagem é ponto crucial em toda esta polémica. Pois, a língua anglo-saxónica tem a mesma palavra para “projecto” e “desígnio” — design — embora possuam significados distintos. E quando Bejan afirma que «ao longo do tempo, eu iria desenvolver uma nova compreensão do fenómeno evolucionário e da unicidade da natureza que revelaria como o design emerge sem um designer inteligente», eu não poderia estar mais de acordo.

A perspectiva construtal seria o que esperaria de um Deus-Criador e não de um deus-designer. Um Deus que cria, do ponto de vista da experiência cristã, é um Deus que confere a autonomia e a liberdade para que o mundo seja por si mesmo. Liberdade e autonomia são, precisamente, a razão que dá sentido a algo que surge a partir do nada.

Muitas perspectivas procuram explicações em jogos finitos, esquecendo-se de que a criação em Deus é um jogo infinito onde o mais importante é mantermo-nos a jogar — por assim dizer — e não chegar a um determinado fim. Esse permanece aberto. Por outro lado, as limitações perfazem as imperfeições que tornam o jogo da vida, onde tanto flui, tão interessante. E, de acordo com a perspectiva construtal, todo o sistema evolui no sentido de distribuir as suas imperfeições. O que me parece ser uma perspectiva interessante porque não as nega, mas enquadra-as como parte integrante da arquitectura da vida.

Na perspectiva construtal existe a liberdade de mudar, onde o recomeçar pode levar-nos a construir um novo terreno onde continua a história do que fluirá pelo mundo depois de nós. A questão que esta perspectiva nos abre é simples: querer ser rio ou fóssil. Ser rio implica darmo-nos totalmente quando desaguamos no mar da humanidade e na história, enquanto desapegados daquilo que construímos com o nosso fluir. Ser fóssil implica deixarmos uma marca para o futuro de um passado que deixou de fluir.


Imagem de WikiImages por Pixabay