Sáb. Out 16th, 2021
Modos de interação entre ciência e religião

Perspectivas


Décima Perspectiva: Espacial

Miguel Oliveira Panão

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Uma perspectiva que abrange o “infinitamente” pequeno apesar do nosso conhecimento não ter uma teoria que conceba um espaço mais pequeno do que o comprimento de Planck. Abrange o “infinitamente” grande embora o nosso conhecimento esteja limitado ao limite do próprio universo. Abrange o “infinitamente” simples como uma sala vazia com paredes brancas. E abrange o “infinitamente” complexo como a arte de Jackson Pollock onde somente os especialistas vêem a emoção do pintor na espessura dos traços. A perspectiva espacial é vasta, diversa e percorre os mais diversos domínios da experiência humana.

Em diversas caminhadas dei-me conta de casas que parecem não acolher mais os seres humanos que outrora nelas habitaram, mas acolhem a natureza que nelas floresce de um modo — diria — selvagem. São jardins naturais onde o tipo de flores, plantas, ou árvores cresce ao modo que a natureza quer. Muitas vezes tendemos a ver esses espaços como descuidados, mas o descuido está no nosso olhar que precisa de se converter e perceber serem espaços cuidados pela própria natureza.

Existem períodos de trabalho em que o pensamento está de tal modo emaranhado que baixamos a cabeça, esfregamos os olhos e sentimos que mais vale fazer uma coisa diferente. Pela minha experiência, esses momentos são sinais de alerta que indicam ter chegado o tempo de organizar o espaço de trabalho. Por vezes, ao organizarmos esse espaço, a mente vagueia e despertam em nós as ideias que podem desbloquear os entraves interiores.

Quando visitava o quarto de um grande amigo, tinha sempre a sensação de arrumação porque o espaço se esvaziava das coisas que estavam a mais. Tinha a impressão de ser uma expressão material de uma pessoa com ideias arrumadas. Nem sempre é o meu caso.

A perspectiva espacial vive-se nos aspectos mais simples da vida através do olhar. Por exemplo, só com a memória criada pela perspectiva espacial podemos percorrer a nossa casa, completamente às escuras, até chegar ao interruptor que acende uma luz. E há ainda quem seja suficientemente engenhoso para criar espaço através de ilusões ópticas, usando espelhos, para ampliar, por exemplo, o espaço de uma loja. Ainda, um dos modos como conseguimos que a perspectiva espacial fosse para além do que é real foram os jogos virtuais. Um dos primeiros, e mais viciantes, foi o Tetris. No livro dedicado ao “Efeito Tetris”, Dan Ackerman conta que «a re-criação mental de luz e movimento, despertava sinapses alimentadas pelos dois códigos-base mais importantes da consciência humana, repetição e tempo. Este é o efeito Tetris.» Aliás, um dos efeitos recorrentes deste jogo é o modo como nos podemos divertir a arrumar as malas na bagagem do carro antes de ir para férias. Mas há perspectivas espaciais reais que resultam da junção de linhas e nos fazem experimentar o infinito.

Lembro-me da primeira (e única) vez que visitei os corredores da Biblioteca Nacional em Lisboa. Que impressão a noção real de ponto de fuga que tinha diante do olhar ao contemplar as linhas a moverem-se na direcção do infinito. Corredores que davam acesso às estantes com milhares de livros à espera que os leitores encontrassem espaço na sua vida para os ler.

Da perspectiva espacial fazem parte a curiosidade em identificar padrões, como no cubo mágico. No jornal Daily Express de Londres, uma mãe escreveu uma carta a contar a experiência de que a sua filha com graves deficiências foi capaz de aprender a resolver o cubo mágico. Dizia — «é a primeira coisa que alguma vez conseguiu fazer que tantas crianças normais não conseguem.» Foi a perspectiva espacial que mostrou, através de uma jovem deficiente, como a inteligência não está em saber muitas coisas, mas na capacidade de fazer conexões.

Onde está o Céu? A perspectiva espacial na sua dimensão espiritual não procura um lugar, ou posição, mas onde está o amor. O Céu é o “espaço” de amor onde Deus habita. E se deixarmos, Ele habita em nós. Mas só criamos espaço para Ele se nos esvaziarmos de nós próprios. Pois, o ego humano ocupa muito espaço e serve de muito pouco. O nada de amor de cada um dos nossos corações, liberta-nos dos preconceitos que atafulham o espaço espiritual interior. Desatafulhados, podemos experimentar a profundidade espiritual como Ele quer. E Ele quer fazer do nosso íntimo, um espaço de amor infinito.


Imagem de Hands off my tags! Michael Gaida por Pixabay