Metamorfoses | Mudanças interiores que transformam a realidade
Miguel Oliveira Panão*
O sentimento de não encaixarmos nos padrões sociais que existem à nossa volta não é novo. Franz Kafka explora esta solidão interior vivida por muitas pessoas como uma Metamorfose que faz de nós um insecto gigante incompreensível aos olhos dos outros. Por isso, quando surgiu a possibilidade de nos transformarmos de acordo com aquilo que quiséssemos e desejaríamos ser, muitos aproveitaram. Refiro-me à metamorfose do ser humano em ser digital.
No início das comunidades virtuais, a identificação que unia as pessoas em torno de mensagens trocadas pela internet era o interesse comum. O ser de cada pessoa manifestava-se no modo como se exprimia com as palavras. Ninguém sabia se do outro lado da conexão a pessoa era bonita ou feia porque a atracção acontecia pela mente, não os olhos. Porém, tudo mudou com a Web 2.0.
A possibilidade de partilharmos imagens e vídeo, além de palavras, levou à transformação das comunidades virtuais em redes sociais. Nas comunidades virtuais da Web 1.0, a comunicação fazia-se por fóruns, emails, era assíncrona, descentralizada e baseada em textos. Por isso, não é de admirar que despertasse o desejo das pessoas se encontrarem presencialmente porque as palavras levam os nossos relacionamentos somente até um certo ponto. Nas redes sociais da Web 2.0, a comunicação síncrona de imagem ou vídeo, quase em tempo-real, gradualmente substituiu a presença e levou-nos a criar uma versão digital da nossa pessoa que pode nada ter a ver com a versão real. Muitas pessoas tímidas e introvertidas na vida real podem criar todo um outro modo de ser na vida virtual, sentindo através do ecrã a presença virtual de muitas pessoas que a seguem, com a possibilidade de manipularmos a imagem que os outros vêem de nós no seu ecrã. Na eminente emergência da Web 3.0, o nosso ser poderá tornar-se totalmente digital, habitando mais no metaverso que neste universo.
A metamorfose para um Ser Digital na sua totalidade não dispensa o nosso corpo, aproximando-nos, em desejo ao menos, da distopia do Matrix, não por imposição, mas por escolha pessoal (desde que paguemos). Para muitas pessoas, o corpo presente na vida real tornou-se uma prisão, sendo o metaverso a promessa de libertação para um corpo imortalizado pela conversão da matéria em informação. Se eu desejo que o outro seja realmente feliz, não deveria ficar contente por ele ao vê-lo abraçar a possibilidade de se transformar num ser digital?
Imaginemos que um dia essa ficção se torna realidade? Poderíamos viver para sempre no ambiente digital e, pela primeira vez, materializar a experiência da eternidade? Porém, a verdade é que nem o ser digital se livra da morte. No metaverso, a morte apenas muda de nome. Pois, o ser corporal pode sempre usar um teclado e escrever DELETE MIGUEL. A diferença é que deixaríamos de estar à mercê da natureza, estando antes à mercê dos seres corporais ou de uma inteligência artificial. Não estaremos no metaverso mais vulneráveis? É realmente melhor se abdicar da minha liberdade condicionada pela realidade física, e optar pela sensação de estar livre, embora condicionado pela realidade informacional ditada por outros ou por alguma inteligência artificial? Talvez o problema e os dilemas não estejam na metomorfose que assistimos do ser humano em ser digital, mas na inconsciência de que não somos ainda totalmente humanos.
A metamorfose necessária é a da ideia que temos de nós próprios. Refiro-me a mim como ser humano quando podias referir-me como devir humano. A verdade escondida que a dimensão espiritual da vida humana revela é a de que não somos ainda aquilo que podemos ser. O humanum é um permanente tornar-se humano, através de um movimento impulsionado pelo amor que une todas as coisas. Somos livres de negar a realidade de Deus, mas o que a intuição espiritual tem revelado é que a procura pela experiência de Deus abre-nos à possibilidade de nos tornarmos mais do que pensamos ser, frequentemente através das nossas limitações e imperfeições. Aquilo que o ser digital pretende esconder com maquilhagem informacional, o devir humano revela como potencialidade de transformar a realidade à nossa volta.
Nick Vujicic nasceu em 1982 na Austrália com a síndrome de tetra-amelia, uma condição rara que impede o desenvolvimento dos braços e das pernas. Todos podemos imaginar as dificuldades físicas e emocionais que Nick viveu durante a sua vida e as razões para desejar tornar-se num ser digital com braços e pernas como qualquer pessoa. Porém, se não fosse a sua condição, não seria hoje um dos palestrantes motivacionais mais influentes do mundo que não esconde a razão cristã da sua existência e vontade de viver. Fundou a “Life Without Limbs” (Vida Sem Membros) para inspirar as pessoas com mensagens que as ajudam a superar as dificuldades, a abraçarem a fé, a serem resilientes e positivas na vida. Nas suas palestras realça a importância da autoaceitação, do propósito de vida e de superar os desafios. Nick intitulou um dos seus livros como “Vida Sem Limites” (Caderno, 2011), onde demonstra como a nossa história se escreve quando não desistimos diante das adversidades. Porém, precisamos de o fazer neste universo, não no metaverso. No universo visível e invisível, o Amor é a fronteira da ilimitada potência do devir humano.
*Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter Escritos em – “Tempo 3.0 – Uma visão revolucionária da experiência mais transformativa do mundo” (Bertrand, Wook, FNAC)
Imagem de Estefano Burmistrov por Pixabay