Joseph Fadelle, O preço a pagar por me tornar cristão, Prior Velho, Paulinas, 20186.

Este livro é muito mais do que um livro. As suas páginas gotejam… Delas escorre o sangue de um ‘confessor’ (assim se designaram, ao longo da história, os que, em nome da fé, ‘quase morreram’, vítimas de tortura por causa da fé). Joseph Fadelle, o autor, cujo nome original é Mohammed, descendente direto do profeta Maomé, relata-nos, na primeira pessoa, os custos de ter ousado fazer-se cristão.

O cenário de toda esta narrativa autobiográfica densa é o Iraque do período que ouvimos contar nas notícias. Enquanto se erguia o regime ditatorial de Saddam, enquanto se realizavam as guerras entre Irão e Iraque (que terminou em 1988), enquanto se dava a primeira invasão do Iraque pelos americanos, e se abatiam as Torres Gémeas… enquanto se ouvia falar de um mundo de tragédia, desenrolava-se uma das mais belas histórias que podem acontecer a um ser humano: deixar-se encontrar, verdadeiramente, por Deus.

‘O preço a pagar’ é a história densa de uma conversão que começa com um encontro inesperado, no contexto militar, em 1987, e que decorre até que, já em 2000, o convertido é batizado e, por fim, partilha da comunhão. Esta é uma história belíssima, envolvente e que prende quem a lê. Mas não o faz com qualquer tipo de romantismo. É uma história feita de sangue, traição e abandono. É uma história feita do silêncio da Providência discreta que salva, como que miraculosamente (certamente de forma miraculosa!), de um atentado perpetrado pela família que o deixa, baleado, na berma do caminho, em pleno deserto. Um desconhecido samaritano salva-o da morte certa a que o votara a família que o atingira e que, algum tempo antes, o entregara aos carrascos que o torturaram até à exaustão, em penitenciárias como a tristemente célebre prisão de Abu Graib.

Este é muito mais do que um livro. É, como lembrava Tertuliano, ‘semente de cristãos’. Porque muito sangue de mártir se derrama ao longo da narrativa.

Percebe-se porque é que o livro atinge cinco edições, em cinco anos. Esta é uma história que prende quem a lê, porque escrita com factos, com vida. Fadelle fala de uma busca, de um desejo profundo, de um encontro com o vivo Jesus Cristo que é procurado com uma embriaguez que faz ter forças e coragem para tudo superar. Este é um livro que fala de um tesouro que, afinal, para tantos cristãos, se tornou rotina e mera repetição. Fadelle fala de novidade, de um bem desejado a que aspirou, insaciavelmente, durante anos.

Hoje, Fadelle vive, com a sua família, com um nome novo (porque novo é o Homem que nasceu com o seu ser cristão!), em França, onde encontrou a liberdade que não conseguia ter, no Iraque. Mas sobre ele impende uma fatwa. Nunca lhe perdoaram ter-se tornado cristão. Foi o preço a pagar!

Mas de perdão se faz o ser cristão.

Este é um livro de perdão!

(‘Imperdoável, mesmo, é não o ler!’ Poderão soar a marketing estas palavras, mas brotam de quem reconhece que o Portugal cristão precisa de testemunhas que falem do novo que é ser cristão quando tanto nos parece mostrar que o cristianismo se encheu de velhas vestes…

Mas estará perdoado quem não o ler, pois a Graça de Deus-Amor chega ao mais recôndito recanto do coração humano. Mesmo ao do empedernido não leitor!)

 

Luís Silva – leitor