Sex. Dez 3rd, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

Edith Stein*

«O chamamento de Deus ao homem e a vocação do homem aprecem essencialmente mudadas depois da culpa».[1] O pecado original será a causa de que a perfeição do primeiro homem se perca. Edith, seguindo a tradição católica, dá um lugar central na antropologia ao pecado original. São quatro os aspectos que ela desenvolve e que nós apresentamos aqui: o facto do pecado, o sentido, as consequências e a relação pecado-redenção.

 

O facto

Encontramo-lo bem narrado no capítulo terceiro do Génesis:

«A serpente era o mais astuto de todos os animais do campo que o Senhor Deus fizera. É verdade que o Senhor Deus vos disse: Não comais de todas as árvores do jardim? A mulher respondeu à serpente: Nós podemos comer o fruto das árvores do jardim. Só do fruto da árvore que está no meio do jardim nos disse Deus: Não comais dele, nem sequer lhe toqueis, de outro modo morrereis. Então a serpente disse à mulher: Não, não morrereis! Deus sabe que no momento em que o comerdes se abrirão os vossos olhos e sereis como deuses, conhecereis o bem e o mal… Tomou pois do seu fruto e comeu…» (Gn 3, 1-6).

Sobre o facto do pecado Edith interroga-se acerca do seguinte:

«O relato da Criação e da queda dos homens, está cheio de mistério e não seremos nós a resolvê-lo. Mas não nos enganamos se enunciarmos alguns problemas e tirarmos algumas conclusões. Porque razão era proibido comer da árvore do conhecimento? Qual era o fruto que a mulher comeu e deu ao homem? Porque é que o tentador se aproximou primeiro da mulher? É evidente que o homem tinha conhecimento antes do pecado: tinha sido criado à imagem de Deus, tinha dado o nome a todos os seres vivos, e tinha sido chamado para que dominasse a terra. Pode dizer-se que tinha um conhecimento maior do que o que possuirá depois do pecado. Tem que se tratar pois dum conhecimento muito particular. A serpente fala de facto do conhecimento do bem e do mal; não é admissível que os homens não tivessem conhecimento do bem antes do pecado. Tinham o mais perfeito conhecimento de Deus, quer dizer, conhecimento do sumo Bem, e por isso mesmo de todos os bens particulares. No entanto, tinham que preservar-se da ciência do mal que se adquire cometendo-o».[2]

O sentido do pecado

Não é fácil resumir em poucas palavras o verdadeiro sentido do pecado original, ao menos tal como o encontramos na Escritura. Edith Stein propõe diversos sentidos e explicações. O mais evidente parece ser que, no fundo, o pecado de Adão consistia na pretensão de se querer igualar a Deus. Dada a clareza das suas palavras vamos deixar que seja ela mesma que no-lo transmita:

«… a adesão dos primeiros homens à palavra sereis como deuses (Gn 3,5) da serpente tentadora constituem uma revolta contra a natureza própria da criatura e, por conseguinte, contra o Criador. Qual pode ser o sentido e o efeito de tal atitude? O fim que consiste para uma criatura em chegar a ser semelhante a Deus é um fim absurdo e impossível … a recusa por parte da criatura do seu estado de dependência e de submissão à sua própria natureza …

Tal atitude apresenta-se quando a criatura exige ser igual a Deus. Lucifer conhece a distância entre o seu ser e o ser divino, mas não quer reconhecê-lo. Com isto converte-se no pai da mentira. A mentira não é – como o erro – um desconhecimento da verdade ou um conhecimento pretendido, mas a tentativa de aniquilar a verdade».[3]

Descobre outro sentido em relação com o mesmo acontecimento do pecado e o processo que o Génesis narra. Pergunta-se sobre o porquê da serpente ter escolhido Eva, e conclui outra hipótese sobre o conteúdo do pecado:

«A consequência imediata do primeiro pecado oferece-nos um ponto-chave para determinar em que pôde consistir: a consequência foi que o homem e a mulher passaram a olhar-se de um modo diferente e perderam a inocência no trato mútuo. É possível, por isso, que o primeiro pecado não tenha sido apenas um acto de desobediência formal a Deus: o que lhes foi proibido e que a serpente apresentou com tanta artimanha à mulher, e a mulher ao homem, teve que ser algo bem preciso na sua consistência, quer dizer, um tipo de união recíproca que contradissesse a ordem original. O facto de que o tentador se aproximasse primeiro da mulher, poderia significar que este acesso mais fácil não se devia a que ela fosse mais suscetível ao pecado (de facto os dois estavam livres de inclinações perversas), mas ao facto de que o que era proposto tinha para a mulher uma maior importância. Pode-se afirmar que desde então ela estaria mais fortemente sensibilizada por tudo o que se relaciona com a geração e a educação dos filhos. A isso mesmo aludirão as diversas penas estabelecidas tanto para o homem como para a mulher».[4]

Segundo estes textos poderíamos resumir o sentido do pecado original no seguinte: o homem cai na inimizade com Deus desde o momento em que não aceita a verdade do seu ser, e pretende superar a barreira insuperável da sua essência, querendo assim ocupar o lugar de Deus. A acção concreta não se especifica claramente, mas teve que ser algo que contradissesse a natureza mesma do ser do homem, isto é, uma desobediência formal contra a ordem estabelecida por Deus.

As consequências

A primeira e fundamental consequência do pecado original é que em Adão todos pecaram. Edith referir-se-á repetidas vezes ao texto paulino Rm 5,12:[5]  «Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte e assim a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram». O mistério escondido nele porque todos pecaram, coloca-o a nossa autora com base nas seguintes perguntas e problemas:

«Mas como compreender que todos pecaram num só homem? No entanto, com toda a evidência, esta questão não se reduz ao significado seguinte: todos os que descendemos do primeiro par humano levamos no mundo as consequências da sua queda como mal hereditário inato. Mas o facto de que a acção do pai original seja atribuída a toda a humanidade, visto que é a sua cabeça, sem que haja uma participação pessoal na falta, não se deixa admitir sem dano para a liberdade e a responsabilidade do homem individual ou para a justiça coercitiva de Deus».[6]

Compreende-se que uma resposta não se torna nada fácil. Ficaria comprometida por um lado a justiça e a misericórdia de Deus, e, do outro, a liberdade e a responsabilidade do homem. Como entender, então, que as consequências do pecado original tenham passado a todo o homem quando este não é necessariamente culpável? E Edith julga ter uma resposta a este mistério:

«Parece-me que a solução deve ser procurada na seguinte direcção: Deus previu no primeiro pecado todos os pecados futuros e nos primeiros homens viu-nos a todos, a nós que estamos sujeitos ao pecado (Rm 3,9). Àquele de entre nós que tivesse a intenção de acusar os nossos primeiros pais porque teriam atraído sobre nós o peso do pecado original, o Senhor poderia responder, como respondeu aos acusadores da mulher adúltera: aquele que de entre vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra (Jo 8,7)… quem poderá atrever-se a afirmar de si mesmo que teria permanecido firme onde os primeiros homens sucumbiram? Somo obrigados a afirmar que se fomos todos condenados em Adão e Eva, é porque o merecemos».[7]

Estas explicações de Edith Stein dão-nos pé para entender porquê todas as outras consequências ligadas ao pecado original recaem sobre todo o género humano. Do texto de Génesis deduzem-se as primeiras consequências, em relação com o castigo ditado sobre Adão e Eva (Gn 3, 16-19):

«Disse à mulher: Multiplicarei os sofrimentos da tua gravidez. Darás à luz com dor os filhos e procurarás com ardor o teu marido, que te dominará. Disse ao homem: Porque ouviste a tua mulher, comendo da árvore que te proibi comer, dizendo-te não comas dela: maldita seja a terra por tua causa; com trabalho comerás dela todo o tempo da tua vida. Dar-te-á espinhos e abrolhos e comerás as ervas do campo. Comerás o pão com o suor do teu rosto até que voltes à terra de onde fostes tirado; porque és pó e em pó te hás-de tornar».

São evidentes as consequências imediatas do pecado: a dor no parto, o esforço n aluta pela vida, a desordem na relação entre o homem e a mulher, a morte, a perda do domínio fácil da terra, a rebelião das criaturas inferiores, a dura luta contra elas para ganhar o pão quotidiano, o cansaço do trabalho e a pobreza dos seus frutos.[8] Em definitivo, quebra-se a harmonia original existente na criação nas quatro direcções possíveis: no interior do homem; entre o homem e a mulher e entre toda a humanidade, em relação à criação, e com Deus:

«O pecado original foi um afastamento do ser humano de Deus, e a sua consequência foi uma perturbação da ordem do universo inteiro. O homem pecador está em revolta contra Deus, e o resto da criação está em revolta contra ele, que procura lutar contra ela. Em vez de um temor reverencial pelas criaturas, que as aceita no seu ser e procura preservá-las e socorre-las, sucedeu a exploração em favor da sua cobiça, exploração que se estende também aos seus semelhantes, quando também a “simpatia” natural não resulte suprimida».[9]

 

Pecado e redenção

Mas à expulsão precede uma frase que inclui uma promessa. No juízo de condenação da serpente diz-se: “Farei reinar a inimizade perpétua entre ti e a mulher, e entre a tua descendência e a dela; esta esmagar-te-á a cabeça ao tentares mordê-la no calcanhar” (Gn 3,15). Este versículo do Génesis, foi longamente comentado na história do cristianismo. Aplicou-se tradicionalmente e devocionalmente à imaculada. Edith não nega esta leitura, embora seja partidária de entendê-la numa chave feminina muito mais ampla, de tal modo que aqui descobrirá mais um aspeto da dimensão vocacional feminina depois do pecado original.

No contexto em que nos encontramos agora, Edith faz-nos cair na conta de outro significado. Refletindo sobre a natureza originária (antes do pecado), sublinha que a plenitude da humanidade não se encontrava ainda totalmente realizada. Adão apontava para uma plenitude que se tornará efectiva só em Cristo, na sua encarnação, mistério de desposório de Deus e do homem. Quando toma o homem consciência desta verdade? Muito possivelmente no seu sentido total e absoluto só depois do pecado, onde se lhe revela – no versículo acima citado – o futuro Redentor. A este respeito escreve Edith:

«Nele (Adão) a divindade e a humanidade não estavam unidas numa só pessoa como em Cristo. Mas estava unido a Cristo pela graça… e esta graça eleva-o até à participação da vida divina. Neste vínculo encontra-se a livre condescendência de Deus e o dom livre do homem que se eleva livremente para Ele, pois Adão possuía um conhecimento de Deus e das suas criaturas mais perfeito que o dos homens depois da queda e uma vontade ainda não debilitada…; Podemos também admitir em Adão um conhecimento de Cristo enquanto cabeça futura, ao mesmo tempo divina e humana, da raça humana e enquanto Filho de Deus feito carne; podemos supor igualmente a sua adesão ao chamamento da graça enquanto união com o homem-Deus e o seu consentimento espontâneo à sua própria missão enquanto origem da humanidade que deve ser regenerada por Cristo e em nome de Cristo. Pelo contrário, o conhecimento do Redentor não chega antes que o conhecimento do bem e do mal, que apenas se relacionava com a queda; é devido à revelação que está unida à condenação depois da queda (Gn 3,15)».[10]

 

[1] A vocação do homem e da mulher. In Obras, p.123.

[2] Ib. 125.

[3] In Ser Finito e Ser Eterno, pp 415-416.

[4] A vocação do homem e da mulher. In Obras, p.125 – 126.

[5] Cf. Mensch, p. 76; SFSE, p. 526.

[6] In Ser Finito e Ser Eterno, p. 532.

[7] In Ser Finito e Ser Eterno, p. 532-533.

[8] A vocação do homem e da mulher. In Obras, p.124.

[9] A Formação da juventude. In Obras 213-214.

[10] In Ser Finito e Ser Eterno, p. 540.

 

* In Javier Sancho. La Biblia con ojos de mujer. Edith Stein y la Sagrada Escritura. Editorial Monte Carmelo, 2001. Pp. 106-113.
Imagem: Fresco de Michelangelo retratando a expulsão de Adão e Eva do jardim do Éden