‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

Edith Stein*

Vamos acompanhar Edith Stein na conferência que proferiu a 5 de Janeiro de 1933 por ocasião de um curso do Instituto alemão para a pedagogia científica, que pretendia assinalar os princípios gerais de uma pedagogia católica. O tema do curso era: “Die Katolische Pädagogik in ihren Grundlagen und in ihrer Bedeutung, A pedagogia católica e os seus fundamentos e significado”.
Dez dias depois da conferência escreverá a uma amiga e faz a avaliação crítica da sua intervenção como conferencista: “Visto desde fora, considero que foi um êxito e estou muito agradecida a todos os que ajudaram com a sua oração. Qual seja o efeito que produzirá a seu tempo, é algo que escapa ao nosso conhecimento. Foram dias esgotantes que claramente me manifestam a grande responsabilidade que é a tarefa que temos” (Ct 343). 
O texto que apresentamos baseia-se no texto autógrafo e nas mencionadas publicações alemãs. O texto está dividido em quatro subtemas e a introdução: Significado da fé e das verdades da fé para a ideia e o trabalho da formação; I –A conceção católica da natureza humana; II – O Fim do Homem; III – Os chamados a serem formadores da juventude; IV – O processo de formação da juventude.

A designação “status viae” ou situação de suspensão diz-nos que se trata de algo transitório, de trânsito até uma meta. E quase é impossível expor o que seja a situação de suspensão sem que isso seja continuamente iluminado por uma meta. A educação enquanto intervenção sobre a situação de suspensão só é possível se está orientada para um fim.  A encíclica afirma: “já que a educação consiste pela sua essência na formação do ser humano, e a ser realizada de forma a ajuda-lo a conduzir-se neste mundo com vista a alcançar o fim último para o qual foi criado, fica claro que não é possível falar, com verdade, de educação se esta não está totalmente orientada ao fim último”. O fruto da educação tem que ser o “cristão autêntico, o homem sobrenatural que constante e coerentemente pensa, julga e actua conforme a sã razão, iluminada pela luz sobrenatural do exemplo e do magistério de Cristo”.

Aqui é necessário distinguir um duplo fim: o fim último e sumo ao qual está dirigido toda a peregrinação terrena, a vida eterna em contemplação de Deus; isto só o pode dar Deus; está-lhe subordinado o fim terreno, em cuja realização pode colaborar o trabalho humano da educação: quer dizer a formação do homem, como é que ele deve ser e como deve conduzir a sua existência neste mundo. Na medida em que se trata da reinstauração da natureza humana na condição em que originariamente foi criada, poder-se-ia falar de um fim natural, se bem que não se possa conseguir apenas com os meios puramente naturais, mas que é necessário que seja iluminado pelo exemplo e magistério de Cristo e a ajuda da sua graça. O “cristão autentico” não está chamado a ser apenas homem natural (entendendo por natural a natureza reinstaurada na sua condição original de perfeita harmonia), mas homem sobrenatural, quer dizer, homem que por graça participa na vida de Deus, homem no qual a vida eterna já começou durante a sua existência terrena. (São Tomás diz que a fé é o início da vida eterna em nós. Então corresponde à graça um duplo objectivo: curar a natureza caída e ser o primeiro grau da vida de glória.

Assim, converte-se numa exigência urgente da pedagogia teórica e prática, obter claridade sobre como tem que ser a imagem do homem. Na narração da criação encontramos as palavras lapidárias: Deus criou o homem à sua imagem[1]. Por isso a pretensão do Senhor: Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito[2]. “Ser imagens de Deus – ser perfeitos”: isto é, resumidamente, o que tem que ser o homem. Mas em que consiste a imagem de Deus? Em que consiste a perfeição? Existe um conhecimento natural de Deus; o seu caminho será também o caminho natural que conduz a conseguir o ideal de perfeição: a contemplação das “perfeições” que nós reconhecemos no homem, e o afastamento mental de tudo o que nele é obscuridade e carência: esta é a via negativa. Para determinar positivamente a essência de Deus, necessitamos da revelação. Desta forma sempre se tentou descobrir e mostrar a imagem de Deus no homem como imagem da Trindade[3]. Também temos uma imagem imediata da natureza humana na sua ordem e desenvolvimento perfeito na doutrina teológica do estado originário, da condição do homem íntegro.

Mas na encíclica é nos apresentado ainda outro caminho; e é o que hoje queremos percorrer: a imagem do homem perfeito é nos dada no exemplo e no ensinamento de Cristo.

Traçar a imagem de Nosso Senhor, assim como passou pela terra, a imagem que os profetas contemplaram e que os evangelhos nos conservam, e que a nossa Igreja nos continua a propor nessa obra admirável da liturgia desenvolvida ao longo de todo o ano – traçar este retrato não pode ser tarefa de apenas uma escassa hora. Quem o quiser compreender plenamente, de um modo sempre mais rico, mais profundo, e de facto inesgotável tem que viver com a Sagrada Escritura e viver e orar com a Igreja.

Pelo contrário, há que tentar extrair das palavras do Senhor a imagem do homem tal como ele deve ser. À pergunta do discípulo: “Que tenho que tenho que fazer para obter a vida eterna”, o Senhor respondeu: “Se queres entrar na vida guarda os mandamentos”[4]. E quando os fariseus lhe perguntaram qual é o maior dos mandamentos da lei, a resposta foi: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente… Nestes dois mandamentos baseia-se a lei e os profetas”[5]. E ainda se diz no Evangelho de S. João: “por isto conhecerei que me amais, se observais os meus mandamentos”[6]. Tudo isto junto dá-nos a entender que: o verdadeiro cristão é o homem que observa os mandamentos, mas fazendo depender a observância de todos os mandamentos do cumprimento perfeito do maior de todos: o amor-perfeito pelo Senhor. Do amor de Deus procedem imediatamente o temor reverencial e a adoração; o amor ao próximo como amor fraternal aos filhos de Deus, e daqui o comportamento correspondente; do amor de Deus procedem o amor a si que nasce do amor a Deus e daqui o comportamento adequado para connosco (de facto temos que amar o próximo como a nós mesmos). O homem que é e vive desta maneira, não é apenas portador de uma perfeição natural, mas vive de uma raiz sobrenatural. De facto, só podemos amar a Deus porque Ele nos amou primeiro. Isto significa que a graça do Senhor está em nós, que a vida eterna já começou em nós. O amor de Deus é esse “único necessário” que Deus propõe à atarefada Marta. Queria indicar aqui a imagem concreta de uma existência humana radicada totalmente no amor de Deus, que foi dada ao nosso tempo na figura de Santa Teresa do Menino Jesus.

Será que de tudo isto devemos concluir que todo o desejo natural de perfeição e, consequentemente também, todo o trabalho de formação que procura desenvolver as capacidades naturais em vista de um missão terrena é supérfluo? De maneira alguma: se temos que amar a Deus com todas as nossas forças, então é evidente que estas forças têm que se desenvolver. Amá-lO com todas as forças não pode ter outro significado que por todas as nossas forças ao seu serviço. Isso não pode acontecer fora do mundo, mas nele, no âmbito de uma relação correta com as criaturas; e para isto são necessárias as capacidades naturais e os dons da graça.

[1] Genesis 1, 27.

[2] Mateus 5,48.

[3] Aqui Edith refere-se essencialmente à obra clássica de Santo Agostinho, De Trinitate, que citará frequentemente na sua obra Ser finito e Ser eterno.

[4] Mateus 19, 17.

[5] Mateus 22, 37.

[6] João 14, 15.

*Edith Stein, La Formación de la Juventud a la Luz de la fé Católica, Obras Completas IV, Escritos Antropológicos y pedagógicos. Coeditores: Espiritualidad – Monte Carmelo – El Carmen, 2003. Pp 428-431.
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