Homilia | Celebração da Paixão do Senhor

1. A prisão de Jesus: entrega-se livremente

Meditamos a paixão de Jesus segundo o Evangelho de S. João. O evangelista pode comparar-se a um diretor de cinema que em cada cena do filme procura dar uma perspetiva nova aos acontecimentos que está a narrar. Não muda os factos da paixão, morte e ressurreição de Jesus, mas ajuda-nos a vê-los de um modo novo, e ao mudar o olhar, muda também o seu significado.

Quando o vêm prender, Jesus não foge nem se esconde. E pergunta-lhes: “Quem procurais?”. Quando respondem que é Jesus, o Nazareno, ele diz simplesmente “Sou Eu”. Não é somente uma forma de se identificar, mas uma expressão que o identifica com o próprio Deus. A revelação do nome de Deus a Moisés, no Monte Sinai – “Eu sou aquele que sou”, é a mesma de Jesus quando afirma “Eu sou a luz do mundo”, “Eu sou a ressurreição e a vida”. Perante a incredulidade dos seus ouvintes, quando ensinava no templo de Jerusalém, Jesus afirma: “Quando tiverdes levantado o Filho de Homem, então sabereis que ‘Eu Sou’” (Jo 8,28). É como dizer: O que eu sou – e, por isso, “o que Deus é” – será conhecido somente a partir da cruz. A expressão “ser levantado”, no Evangelho de João, refere-se sempre ao acontecimento da cruz.

Estamos diante de uma total inversão da ideia humana de Deus e, em parte, também a do Antigo Testamento. Jesus não veio para retocar ou aperfeiçoar a ideia que os homens fizeram de Deus, mas, em certo sentido, invertê-la e revelar o verdadeiro rosto de Deus. Mais tarde, o apóstolo Paulo irá ensinar aos cristãos da comunidade de Corinto que “de facto, pela sabedoria de Deus, o mundo não foi capaz de reconhecer a Deus por meio da sabedoria, mas, por meio da loucura da pregação, Deus quis salvar os que creem. Com efeito, enquanto os judeus pedem sinais e os gregos buscam sabedoria, nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios. Para os que são chamados, porém, tanto judeus como gregos, Cristo é poder de Deus e sabedoria de Deus (1Cor 1,21-24).

O que para o mundo é derrota, o evangelista João contempla-o como glorificação. A crucifixão não é uma execução, mas manifestação de quem é realmente Jesus.

2. Da morte brota a vida

Olhar a cruz de Jesus atinge o seu ponto culminante no momento da sua morte. S. João escreve que Jesus, inclinando a cabeça, entregou o seu espírito. Não se diz que Jesus morreu, mas sugere-se outra realidade: Jesus comunica o Espírito de Deus. No momento da morte começa uma vida nova para os outros. Onde parecia que tudo tinha acabado, começa uma nova vida e a cruz converte-se, assim, em fonte de vida.

O texto termina com um momento de esperança. José de Arimateia e Nicodemos, que eram discípulos cheios de medo, quando tudo parecia perdido, o mestre morto e a história parecia que tinha terminado, dão um passo em frente: pedem o corpo de Jesus, descem-no da cruz e sepultam-no. A morte de Jesus torna visível o que antes estava oculto. A fé que permanecia escondida manifesta-se agora no momento da sepultura. Na cruz revela-se um amor que não se impõe, mas que se entrega pelos outros.

3. Olhemos hoje para a cruz de Cristo

Numa sociedade secularizada como é a nossa em que vivemos, a cruz pode parecer simplesmente um símbolo religioso do passado ou uma história de fracasso. O Evangelho convida-nos a olhá-la de outra forma: a descobrirmos que nela não existe somente a dor, mas o amor que se entrega; não há derrota, mas uma vida que começa.

Nesta tarde em que vamos adorar Jesus que morre por cada um de nós e pela humanidade na sua totalidade, bons e maus, acolhamos o convite que Jesus dirige ao mundo do alto da sua cruz: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso” (Mt 11,28).

Vem tu, que és idoso, doente e sozinho; tu, que o mundo deixa morrer na miséria, na fome, ou sob as bombas da guerra; tu, que pela tua fé em mim, ou pela tua luta pela liberdade, definhas numa prisão; venham até mim mulheres e homens vítimas de violência e da guerra; vinde a mim todas as vítimas que o mal produz no mundo e que progressivamente vamos perdendo a sensibilidade para o perdão; venham todos, ninguém está excluído: “Vinde a mim e eu vos darei descanso”, porque prometi solenemente: “Quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32).

A missão que Jesus recebeu do Pai foi a de revelar o mistério do amor de Deus na sua plenitude, porque «Deus é amor» (1Jo 4, 8.16) e «Quem o vê, vê o Pai» (cf. Jo 14,9). Este amor que se tornou visível e palpável em toda a vida de Jesus, agora, na cruz, manifestou-se de um modo superabundante. Contemplemos a Paixão de Jesus e deixemo-nos inundar por este amor salvador, porque na cruz de Jesus também se revela a solidariedade de Deus com os crucificados de hoje.

Mãe Dolorosa, de pé junto à cruz do teu Filho, ensina-nos que o amor tem sempre a última palavra e que sempre triunfará.

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Sexta-feira Santa, 3 de abril de 2026

† António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro