Sáb. Nov 27th, 2021
Bioética e sociedade
(Parceria com o Centro de Estudos de Bioética)

Carlos Costa Gomes*

O mundo vive ameaçado por um microrganismo – biológico; o estado de alerta, de contingência e de calamidade são provas desta ameaça que o mundo da ciência biológica ainda procura o antídoto para o contrariar e eliminar. Mas existe um outro tipo micróbio – a microbiologia social – que ao longo do tempo vem ganhando espaço e terreno infetando de modo lapidar a sociedade, como uma “explosão microbiológica social” que atinge de forma consistente a consciência individual. E é já abundante entre nós. A saber: 1) o egocentrismo; 2) o sucesso pessoal; 3) o relativismo; 4) a indiferença; 5) o dogmatismo.

Comecemos pelo egocentrismo que é, no sentido mais direto, a religião do “eu”. Tal modo de atuar leva até ao limite o conceito de autonomia que, vivida de uma forma radical, impede de ver o outro como ser também autónomo criando, na maioria das vezes, situações de rutura no diálogo entre pessoas. O egocentrismo acaba por ser uma arma fratricida entre pessoas e na sociedade.

O sucesso pessoal é hoje palco para o espetáculo individual. É nos meios de comunicação social – TV e nas redes sociais que este espetáculo mais acontece. Reduz a pessoa à mera condição de que tudo o que pode deve fazer para ter sucesso. A competição para aspirar ir mais longe é saudável, mas não a todo o custo. Porém quando este desejo, legítimo, passa a direito sem deveres hipertrofia a competição e hipotrofia a cooperação.

O relativismo é o Big Brother da vida individualizada e não pessoalizada. Cada um apenas observa sem intervir. Cada um por si e ninguém por cada um. O individuo transcende-se a si mesmo e nada mais existe para além dele. Cada qual é cada um e nada existe como certo, tudo é permitido, porque tudo é relativo. Até a vida humana.

A indiferença é, na sociedade atual, a marca do tempo moderno. Com o COVID 19, é evidente que a indiferença pelos mais velhos e mais vulneráveis foi tristemente veiculada. A indiferença extingue por completo a solidariedade humana entre pessoas. Os mais débeis, os pobres, os menos capazes são, neste sentido como “lixo” social. A indiferença é um caminho perigoso para o apagamento da relação humana. Não tem idades, mas os mais velhos são os que mais sentem a ausência de afetos e de gestos de amor e fraternidade.

Por fim o dogmatismo. Na esteira da elevação do prazer e na recusa de todo e qualquer sofrimento, do corpo ou do espírito. Sofrer, hoje, não faz sentido. É uma aberração. A sociedade evoluída na área da biomedicina se não puder ou não souber eliminar o sofrimento do corpo ou do espírito que sofre, deve destruí-lo. Se pelo corpo não for capaz de dar prazer à pessoa, então esse corpo deve ser rejeitado – a eutanásia será uma banalização.

A “microbiologia social” ou estes micróbios sociais são assustadores. Mas a pergunta que se impõe é: não sendo possível eliminá-los é possível evitá-los?

Sim. Pela intervenção corajosa, virtuosa e competente por todos os que nesta geração estão imunizados à “microbiologia social”. Se, como diz Daniel Serrão, procuramos vacinas para erradicar doenças e proteger a vida desde o nascer ao morrer, também é preciso vacinar os adolescentes, jovens e adultos contra esta “epidemia”. A vacina não é nova, é tão velha como a humanidade – é a educação para o amor, para a liberdade responsável e para a justiça desejada.

Quem pode vacinar? Todos os que vivem a dimensão do amor fraterno e aqui, os mais velhos, os avós, se não todos, são o dicionário mais belo onde é possível encontrar a linguagem dos afetos e receitas de humanidade.


*Presidente do Centro de Estudos de Bioética | Membro da Academia ‘Fides et Ratio
Professor e investigador do Instituto de Bioética | CEGE da UCP | Professor Adjunto da ESSNorteCVP

Imagem de Pete Linforth por Pixabay