Sex. Out 22nd, 2021
Bioética e sociedade
(Parceria com o Centro de Estudos de Bioética)

Carlos Costa Gomes*

 

Começamos por definir a questão referida ao ato clínico – médico e enfermeiro – que resulta do encontro de uma pessoa doente que procura, nos profissionais de saúde, ser curada e tratada, se possível, mas cuidada, sempre. A questão é saber se falar de Deus a uma pessoa doente tem relevância para o ato clínico?

Se tem os profissionais de saúde não só podem como devem falar de Deus às pessoas doentes; se não tem será desadequada introduzir esta temática no âmbito do ato clínico.

Falar de Deus às pessoas doentes, e segundo diversos autores e estudos tem relevância. Qualquer doença, mesmo as mais orgânicas, ocorre num ser humano que é pessoa, pessoa que se manifesta aos outros como alguém que tem autoconsciência, ou espírito, que tem pensamento. É através do seu espírito e do pensamento, apesar de ainda não encontramos suporte especificamente orgânico, que a pessoa se manifesta através da inteligência reflexiva e simbolizadora que transcende o corpo da pessoa.

A pessoa doente que perde a saúde do seu corpo pode, na verdade, pode perder também a saúde do seu espírito. Neste sentido, o médico ou o enfermeiro, para curar e tratar a pessoa doente precisa de decidir na terapêutica médica mais adequada ao estado de saúde do corpo; mas precisa também e, do mesmo modo, curar e a cuidar do espírito da pessoa que pode estar, na circunstância, doente: a não-aceitação da doença, a sua recusa, a angústia, a depressão e o sofrimento.

É neste patamar de relação que há lugar para o médico e o enfermeiro falar de transcendência – de Deus – como referencial da eventual disfuncionalidade do espírito mais íntimo que se encontra também doente. Contudo, o profissional de saúde que acompanha a pessoa doente não deverá, no imediato, falar de um Deus particular – de uma certa religião – com o qual se pode identificar; mas sim falar da abertura uma Transcendência, como Espírito Absoluto, que na pessoa se manifesta como ponte unificadora da sua convivência social e pessoal, quando intuído pela pessoa doente como realidade atuante e concreta no seu existir no mundo e no viver em sociedade.

Se no diálogo sobre a Transcendência o clinico identificar que ambos professam o mesmo credo, então haverá espaço para uma abordagem mais particular; se não, deve falar da Transcendência, como força espiritual invisível, mas sensível ao espírito humano. Falar de Deus pode e deve ser uma porta aberta entre outras portas que se abrem no decurso da relação profissional de saúde pessoa-doente. Mas sempre para o seu melhor bem.

*Presidente do Centro de Estudos de Bioética

Professor e investigador do Instituto de Bioética da UCP | Membro da Academia ‘Fides et Ratio’

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