Seg. Jun 14th, 2021
Bioética e sociedade
(Parceria com o Centro de Estudos de Bioética)

Carlos Costa Gomes*

1 – Falar da vida e da morte não tem outra intenção que não seja falar do processo natural do que é o nascer, viver e o morrer. Não se pretende anunciar uma verdade absoluta nem convencer os que lêem este texto dessa verdade.

2 – A nossa intenção é, somente, discorrer um modo de olhar peculiar para o mistério da vida e para a realidade da morte. Isto é, com olhar de ver com surpresa e a incerteza do que é o viver e para a certeza do que é o morrer.

3 – Este olhar que aqui se transmite é um olhar ético mas também biológico. Na vida de cada um de nós, certamente, já experienciamos o ver nascer e o ver morrer. Nada há de mais maravilhoso e de extraordinariamente belo que é o acolher os olhos do bebé que se abrem, com espanto e surpresa, para o mundo e para quem o olha.

4 – Do mesmo modo, mas diferente, não há de mais solene e profundo do recolher o último olhar de quem se despede da vida, com esperança da vida que há-de vir, ou com o desespero de nada haver para além da morte.

5 – Daniel Serrão afirma: Nasci, muitas vezes, nos que vi nascer; morri, tantas outras vezes, nos que vi morrer. Na pessoa que morre vislumbra-se uma biografia, uma vida pessoal, e não apenas a biologia do corpo morto. Os ensinamentos deste olhar com olhos de ver mais além são uma fonte privilegiada para um mais rico e profundo conhecimento do viver humano de cada pessoa concreta. Entre o nascer e o morrer inscreve-se um património, não apenas genético, mas também pessoal único e irrepetível. Nenhum ser humano é igual a outro ser humano.

6 – Fernando Pessoa falou desta singularidade, um direito que afirmou do seguinte modo: “no meu epitáfio ponham apenas duas datas: a do meu nascimento e da minha morte. Entre uma e outra todos os dias são meus.”

7 – Sobre esta frase falou Daniel Serrão e concluiu que “a morte não existe; existe sim eu e tu que morremos”. Em muitos dos seus textos sobre este tema não fala da morte mas do processo de morrer; não escreve sobre a dignidade da morte porque esta é uma expressão sem sentido.

8 – Escreve, sim, sobre a dignidade de uma certa vida pessoal no tempo que se esgota. Este período de tempo decrescente é vivido de modos diversos, relacionados com causas e circunstâncias que o condicionam; umas dramáticas, súbitas, dolorosas, pouco ou nada conscientes; outras tranquilas, previsíveis, sem dores físicas e bem conscientes até ao último gesto e ao último olhar.

9 – João Paulo II quando já se encontrava no seu processo de morrer, com falência multiorgânica irreversível, pediu para sair do hospital e regressar aos seus aposentos no Vaticano. Pouco antes de esgotar o seu tempo de viver acenou um último adeus à multidão de pessoas na praça de S. Pedro. Esta foi a sua última catequese, esta foi a sua última lição sobre o olhar a vida e não sobre a morte.


*Presidente do Centro de Estudos de Bioética | Professor e investigador do Instituto de Bioética da UCP | Membro da Academia ‘Fides et Ratio’

Imagem de My pictures are CC0. When doing composings: por Pixabay