Sex. Out 22nd, 2021

Georgino Rocha (Texto)

Eu, Judas Iscariotes, filho de Simão, quero fazer a minha alegação final sobre o meu envolvimento no proceeso da Jesus de Nazaré, em que participei activamente na fase da prisão seguida de condenação. Este forte desejo ocorre-me depois de tomar a decisão de pôr termo à vida, tal a intensidade da dor que me assaltou, dor insuportável semelhante a uma ideia fixa, obsessiva, que só podia ser pressão do demónio. Momento terrível, apenas suavizado uns instantes, pelo ecoar em mim a palavra “amigo” com que Jesus me tratou naquela hora decisiva.

O tom da sua voz faz recordar o tempo em que convivi com Ele e com os colegas apóstolos, sobretudo o grupo dos doze; em que me via merecedor da sua confiança a ponto de me destacar para “ecónomo” da bolsa comum; em que me fez algumas advertências, sempre com grande correcção como a que ocorre em casa de Marta após Maria ter derramado grande quantidade de perfume precioso sobre os seus pés; em que dialoga comigo na ceia de despedida  e manifesta conhecer as minhas intenções, identificando-me como aquele que o ia entregar. E termina aquela exortação, que tanto me perturbou: “O que tens a fazer, fá-lo depressa”. De facto, como afirma João, “era noite”, sobretudo no meu espírito. Não via mais nada. Só a realização do meu propósito me determinava.

Queria colocar Jesus numa situação extrema, desafiante, confiado em que, como de outras vezes, ele se sairia bem. E, na prisão no Getsémani, tudo parecia ir nesse sentido. Todos caem por terra, quando ele se identifica: Sou eu; levantai-vos. Outras cenas me passam fugazmente, como a de Pedro cortar a orelha a Malco, servo do sumo sacerdote. Alguns colegas do nosso grupo manifestavam claramente dissonância com o proceder de Jesus para se afirmar como Messias e Rei. O seu estilo de  vida encantava as pessoas humildes, mas deixava furiosos os fariseus e  outros dirigentes, que, vária vezes, o tinham querido matar.

Jesus prossegue na sua determinação. Aceita tudo com dignidade e resistência incríveis. Recusa, como já havia feito aquando das tentações após o baptismo, os meios espectaculares de poder, fama e posse. Afirma livremente a verdade. E carrega com a cruz da condenação decretada por Pilatos.

Perante o sucedido, fiquei desiludido, frustrado, destruído interiormente. Nunca mais fui o mesmo. Entrei numa dimensão mental que eu não conhecia. Apenas o eco da palavra amigo me dava algum alento. Muito breve. No meu desvario, levo ao templo as moedas da denúncia. Parece que me queimavam completamente. E vou a correr, tal a pressa de acabar com a dor triturante,  arranjar meio de a silenciar, pondo fim à vida.

Foi neste percurso que me ocorreu a ideia de deixar a minha “alegação”, ainda que em rascunho, esperando que algum humano de boa vontade venha a dar-lhe escrita legível. Nos limites da resistência, prestes a perder os sentidos, ecoa dentro de mim com grande intensidade a ressonância do trato afável de Jesus, o seu olhar cativante, a sua relação amiga, a sua misericórdia infinita. São estes os meus últimos sentimentos. Morro contrito e confiante, apesar da enormidade da minha acção tresloucada.

Jerusalém, dia da memória inesquecível de um acontecimento  marcante da história da salvação.

Judas Iscariotes