António Tavares*

Eduardo Domingues*

João Filipe Simões*

Jorge Gonçalves*

 

Em 2018, na mensagem por ocasião do 52.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, o Papa Francisco alertou para as consequências da difusão das chamadas ‘fake news’, entendidas como notícias falsas, com objetivos económicos ou políticos, que levam ao ódio e ao conflito. Na mensagem, o Papa, que também tem sido alvo dessas notícias falsas, sublinha que as ‘fake news’ visam “enganar e até manipular o destinatário”, muitas vezes com objetivos predefinidos, como os de “influenciar opções políticas e favorecer lucros económicos”, tendo apelado aos jornalistas que desempenhem um papel central na defesa da verdade.

Em seguimento a esta mensagem do Papa, foi recentemente publicado o livro “Fake Pope”, onde dois jornalistas analisam 80 falsas noticias sobre o Papa Francisco. No texto introdutório os autores referem que “uma rajada de mentiras ou de semiverdades manipuladas com arte é capaz de devastar o trabalho de anos, de instilar uma desconfiança ali onde o resultado final depende dos delicados equilíbrios e da paciência a nível das relações humanas, sendo esse, muitas vezes, o caso da igreja”. Os autores defendem que “as “fake news” recolocam no centro o tema da verdade, caro ao cristianismo tradicional” e que a resposta certa a este problema não é transmitir novas seguranças intangíveis, dogmáticas e rígidas, mas sim educar para uma busca e verificação contínuas”.

Considerando esta problemática, em setembro do corrente ano, Nelson Ribeiro, diretor da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, revelou nas Jornadas Nacionais das Comunicações Sociais, que 25% das notícias que circulam nas redes sociais são falsas. Ele começou por defender que a manipulação da informação não é um fenómeno novo. A novidade é que, “ao contrário do que sucedia no passado, em que as campanhas de desinformação eram tendencialmente centralizadas na sua execução, e na sua difusão, hoje os agentes de propagação somos potencialmente todos nós e o exército de ‘trolls’ que procura destabilizar as discussões online impedindo a realização de um diálogo racional entre os participantes através de frases inflamatórias e irracionais”. Acrescenta, por isso, que é urgente agir no sentido de alertar os cidadãos para compreenderem os mecanismos de produção e disseminação de conteúdos informativos.

A título de curiosidade, recorrendo à palavra-chave “fake news” para uma pesquisa rápida na base de dados Google Académico, obtivemos um resultado total de 639 000 documentos acerca desta temática. Quando acrescentamos a palavra-chave “Igreja Católica” o resultado desce para 61 900, não deixando de ser um número relevante. Só em 2021 foram publicados 2 770 artigos acerca desta temática e a sua relação com a Igreja Católica, o que manifesta a preocupação em torno desta realidade cada vez mais presente.

A este propósito a Constituição Gaudium et Spes refere que “é próprio da pessoa humana necessitar da cultura” e que “natureza e cultura encontram-se intimamente ligadas” (GS 53). Acrescenta ainda que se trata de um direito universal (GS 60). Nesta cultura, encontram-se englobados os meios de comunicação social que são reconhecidos no Diretório para a Catequese como uma oportunidade extraordinária de diálogo, encontro e intercâmbio entre as pessoas, bem como de acesso à informação e ao saber.

No entanto, de acordo com o DOCAT, fazer bom uso dos media é um desafio para cada um (n.º 41), pois podem enriquecer os Homens, torná-los mais sábios e inspirá-los, mas também os podem seduzir para o mal (n.º 42).

Esta realidade não é nova. Já em 1966, em resultado do Concílio Vaticano II, o Papa Paulo VI, através do Decreto Inter Mirifica, sobre os meios de comunicação social, alertou para a importância destes meios e salientou aqueles (nomeadamente a imprensa, o cinema, a rádio, a televisão e outros) que, por sua natureza, podiam atingir e mover não só cada um dos Homens, mas também as multidões e toda a sociedade humana. O Papa também teve a preocupação de alertar para a relação entre os meios de comunicação social e a ordem moral, referindo no n.º 2 que “os homens podem utilizar tais meios contra o desígnio do Criador e convertê-los em meios da sua própria ruína; mais ainda, sente uma maternal angústia pelos danos que, com o seu mau uso, se têm infligido, com demasiada frequência, à sociedade humana.”

Em face disto, o Sagrado Concílio, acolhendo a preocupação de Pontífices e Bispos em matéria de tanta importância, considerou seu dever ocupar-se das principais questões respeitantes aos meios de comunicação social. Neste Decreto, o Papa fez de seguida uma pormenorizada justificação do papel da Igreja neste domínio. Desta justificação destacamos o n.º 3 que refere: “A Igreja católica, fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo para levar a salvação a todos os homens, e por isso mesmo obrigada a evangelizar, considera seu dever pregar a mensagem de salvação, servindo-se dos meios de comunicação social, e ensina aos homens a usar retamente estes meios.”

Já o Papa Francisco, na sua mensagem para o 52.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, define as “fake news” como informações infundadas, baseadas em dados inexistentes ou distorcidos, tendentes a enganar e até manipular o destinatário. A eficácia das “fake news” deve-se à sua natureza mimética, ou seja, à capacidade de se apresentarem como plausíveis – são falsas, mas verosímeis. Acrescenta, ainda, que se tornam virais pelo fascínio que detêm sobre a avidez insaciável que facilmente se acende no ser humano (por ex. sede de poder, ter e gozar, para nos roubar a liberdade do coração) e que é difícil erradicá-las porque as pessoas interagem muitas vezes dentro de ambientes digitais homogéneos e impermeáveis a perspetivas e opiniões divergentes.

A este propósito, o Diretório para a Catequese, refere é preciso reconhecer que “o ambiente digital é também um território de solidão, manipulação, exploração e violência”. Os interesses económicos, que operam no mundo digital, são “capazes de realizar formas de controle que são tão subtis quanto invasivas, criando mecanismos de manipulação das consciências e do processo democrático”. É preciso lembrar que muitas plataformas favorecem frequentemente “o encontro entre pessoas com as mesmas ideias, dificultando o confronto entre as diferenças. Estes circuitos fechados facilitam a divulgação de informações e notícias falsas, fomentando preconceitos e ódio” (n.º 361).

O nr. º 44 do DOCAT acrescenta, ainda, que os meios de comunicação social podem ser utilizados de um modo que se esgota em diversão sem sentido ou informação inútil, podendo assim alienar as pessoas da vida real.

Na Carta Encíclica “Caritas in Veritate”, o Papa Bento afirma que “os meios de comunicação social não favorecem a liberdade nem globalizam o desenvolvimento e a democracia para todos simplesmente porque multiplicam as possibilidades de interligação e circulação das ideias; para alcançar tais objetivos, é preciso que estejam centrados na promoção da dignidade das pessoas e dos povos, animados expressamente pela caridade e colocados ao serviço da verdade, do bem e da fraternidade natural e sobrenatural.

O Papa Francisco, na mensagem para o 52.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, refere que a primeira Fake New foi a estratégia utilizada pela serpente (Livro do Génesis) que levou às trágicas consequências do pecado, concretizadas depois no primeiro fratricídio e em inúmeras outras formas de mal contra Deus, o próximo, a sociedade e a criação. O Papa conclui que “este episódio bíblico revela assim um facto essencial para o nosso tema: nenhuma desinformação é inofensiva; antes pelo contrário, fiar-se daquilo que é falso produz consequências nefastas”. A distorção da verdade, mesmo aparentemente leve, pode ter efeitos perigosos. O Papa aponta o dedo às motivações económicas e oportunistas da desinformação, convidando a Igreja e a sociedade a “educar para a verdade”.

A Encíclica do Papa Francisco “Fratelli tutti” também reflete sobre esta realidade. Assim, no nr.º 45 refere que “as redes sociais tomaram conta de muitos e a verdade esvai-se em “fake news” e no controlo das mentes, sem capacidade para pensar, tanto mais quanto se nega a outros “a capacidade de existir e pensar”, recorrendo-se “à estratégia de ridicularizá-los, insinuar suspeitas sobre eles e reprimi-los”. A sociedade acaba “reduzida à prepotência do mais forte” e “um projeto com grandes objetivos para o desenvolvimento de toda a humanidade soa a um delírio”. O Papa acrescente que “precisamos de nos construir como um “nós” que habita a casa comum de todos, mas isso “não interessa aos poderes económicos que necessitam de um ganho rápido”.

Dostoiévski deixou escrito algo de notável neste sentido: «Quem mente a si mesmo e escuta as próprias mentiras, chega a pontos de já não poder distinguir a verdade dentro de si mesmo nem ao seu redor, e assim começa a deixar de ter estima de si mesmo e dos outros. Depois, dado que já não tem estima de ninguém, cessa também de amar, e então na falta de amor, para se sentir ocupado e distrair, abandona-se às paixões e aos prazeres triviais e, por culpa dos seus vícios, torna-se como uma besta; e tudo isso deriva do mentir contínuo aos outros e a si mesmo» (Os irmãos Karamazov, II, 2).

Nas Jornadas Nacionais das Comunicações Sociais deste ano, Nelson Ribeiro afirma que “é urgente agir no sentido de alertar os cidadãos para compreenderem os mecanismos de produção e disseminação de conteúdos informativos” e por isso defende a criação de “programas de literacia mediática que ensinem as pessoas a saber ler criticamente a informação”.

Para evitar o aparecimento de notícias falsas, D. João Lavrador (Presidente da Comissão Episcopal das Comunicações Sociais) defende a antecipação, por parte da Igreja, das notícias que possam dar origem a manipulação, considerando que “nós temos que ser pioneiros da verdade na própria notícia”, sendo necessário “ou antecipar o conteúdo da notícia que potencialmente vai ser desvirtuado ou, dentro do acontecimento, estarmos a par para podermos desmascarar e repor o que a notícia tem de verdade”. Estas estratégias são “uma das coisas mais difíceis que temos de fazer na comunicação social”, reconheceu o bispo.

Numa perspetiva cristã, o Papa Francisco sustenta que o “antídoto mais radical” ao vírus da falsidade é “deixar-se purificar pela verdade”. “Libertação da falsidade e busca do relacionamento: eis aqui os dois ingredientes que não podem faltar, para que as nossas palavras e os nossos gestos sejam verdadeiros, autênticos e fiáveis”, aponta o Papa. Por isso recomenda o favorecimento da comunhão e a promoção do bem, pois a verdade só brota de relações livres entre as pessoas, na escuta recíproca.

Neste sentido, o Papa afirma que o melhor antídoto contra as falsidades não são as estratégias, mas as pessoas: pessoas que, livres da ambição, estão prontas a ouvir e, através da fadiga dum diálogo sincero, deixam emergir a verdade; pessoas que, atraídas pelo bem, se mostram responsáveis no uso da linguagem. Por isso, exorta a um Jornalismo de Paz, sem fingimentos, hostil às falsidades, a slogans sensacionais e a declarações bombásticas, um jornalismo feito por pessoas para as pessoas, um jornalismo que não se limite a queimar notícias.

Já em 1966, em resultado do Concilio Vaticano II, o Papa Paulo VI recomendava que para o uso adequado dos meios de comunicação social, se respeitem as leis morais do homem, os seus legítimos direitos e dignidade, tanto na obtenção da notícia como na sua divulgação (IM 5). Numa visão absolutamente futurista, o Decreto Inter Mirifica recomenda que os destinatários, sobretudo os jovens, procurem acostumar-se a ser moderados e disciplinados no uso destes meios; ponham, além disso, empenho em entenderem bem o que ouvem, leem e veem; dialoguem com educadores e peritos na matéria e aprendam a formar um reto juízo (IM 10).

Concluindo, é decididamente necessário contrariar o uso abusivo dos media. De acordo com o DOCAT, mesmo com toda a liberdade necessária, os media precisam também de objetivos morais. O conceito ético central aqui é o da “responsabilidade”; responsabilidade perante Deus, que quer que colaboremos no processo da verdade e na procura reciproca, segundo as regras do amor, responsabilidade perante o próximo, o qual através dos media, deve ser integrado, envolvido e enriquecido, responsabilidade perante mim mesmo, que pelos media devo chegar à verdadeira comunidade com os outros, em vez de, num egocêntrico isolamento medial, me dissociar dos outros Homens e das suas reais necessidades.


*Reflexão realizada no âmbito da disciplina de “Introdução à Doutrina Social da Igreja” do Curso Básico Teológico-Pastoral do Centro de Formação D. António Marcelino

https://pixabay.com/pt/