Manuel Alte da Veiga (Texto)

António Bracons (Foto) fasciniodafotografia.wordpress.com                         

(Excerto de uma carta ao seu tradutor polaco Witold von Hulewikz)

(Pessoalmente, considero uma das perspectivas mais profundamente humanas sobre o significado do cruzamento e implicação constantes entre morte e vida, do ponto de vista de um poeta produto do cristianismo mas que se confessa não cristão. O  poema seguinte enriquece este conceito)

«Nas Elegias (1), a afirmação da vida e a da morte revelam-se como uma coisa só. Admitir uma sem a outra, é… uma limitação que acaba por excluir completamente o infinito. A morte é o lado da vida que não está voltado para nós e que nós não iluminamos; precisamos de tentar realizar a consciência mais completa da nossa existência, que habita nestes dois domínios limitados e se alimenta de ambos constantemente e sem fim. A verdadeira forma da vida estende-se através dos dois domínios, o sangue do grande circuito corre pelos dois; não existe um para aquém nem um para além, mas sim a grande unidade na qual os seres que nos ultrapassam, os anjos (2), se sentem em casa… Nós, os homens daqui e de hoje, não estamos satisfeitos nem um único instante no mundo do tempo; nem nos fixamos nele: transbordamos sem cessar ao encontro dos homens de outrora, ao encontro da nossa origem e ao encontro daqueles que parecem vir depois de nós. … A natureza, as coisas da nossa intimidade e as coisas que nos servem são provisórias e caducas, mas também são, durante todo o tempo em que estamos aqui, a nossa possessão e a nossa amizade… Portanto, não se trata de denegrir ou rebaixar tudo o que é daqui, mas antes, precisamente pelo seu carácter provisório, que é o nosso, de apreender estes fenómenos e estas coisas, com a mais íntima compreensão possível, e de as transformar. Nós somos as abelhas do Universo. Sugamos perdidamente o mel do visível para encher a grande colmeia de oiro do Invisível…»

 

Notas do tradutor:

  • As ELEGIAS DE DUÍNO são provavelmente a obra maior de R.M.Rilke. Existe uma tradução bilingue em português por MARIA TERESA DIAS FURTADO, Assírio & Alvim, 1993.
  • Seres superiores, sem conotação estritamente religiosa, que já vivem, no Invisível, a suprema realidade de todas as coisas visíveis.

Aveiro, 3 Fevereiro 2017.

Tradução de Manuel Alte da Veiga, a partir da introdução a R.M.Rilke por RENÉ LASNE, Anthologie bilingue de la poésie allemande, de Heine à nos jours, Marabout Université, Paris, 1967.

 

DO «LIVRO DA HORAS» DE RAINER MARIA RILKE

 

Senhor, a cada um de nós, dá a sua própria morte.

Aquela morte que desabrocha desta vida

Onde conhecemos o amor, a inteligência e a miséria.

 

Nós somos apenas o revestimento e a folhagem;

A grande morte, que cada um de nós traz dentro de si,

Ela é que é o fruto, o centro à volta do qual giramos.

 

É por esse fruto, que as raparigas vão surgindo

Em melodia, como árvore irrompendo dum alaúde,

E os rapazes anseiam por se transformar em homens;

E as mulheres ajudam os adolescentes

A suportar as angústias que só a elas confiam.

 

É por esse fruto que tudo o que os olhos viram

Se torna eterno, mesmo o que vem do mais longínquo passado

E todo aquele que tenha formado ou construído alguma coisa

Tornou-se Mundo à volta desse Fruto, foi gelo e foi degelo

Abateu-se sobre ele como vento e sobre ele lançou todo o brilho.

 

No Fruto se dissolveu todo o calor

Dos corações, e dos cérebros o branco ardor-:

Mas os teus Anjos passam em bando como aves,

E não encontraram nenhum fruto amadurecido.

 

 

 

NOTA: Trabalhei esta tradução, com muitas e muitas tentativas, a partir do texto alemão, numa edição bilingue, mas com independência da tradução francesa: Procurei transmitir a força poética, a profundidade e congruência de ideias, que descubro no texto original de Rilke. Usei a seguinte obra: LASNE, René, anthologie bilingue de la poésie allemande – de Heine à nos jours .Marabout université, 1967.

Aveiro, 15 de Março de 2017. Manuel Alte da Veiga.