GLOSAS – Espaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente
Glosas a Brève apologie pour un moment catholique
– Laïcité ou séparation –
(pp. 48-82)
(Cont.)
[Primeiro texto: aqui.]
Tiago Azevedo Ramalho
– 20. As três ordens (cont.). – A relação entre as três diferentes ordens – a do corpo, a da alma ou espírito, a da santidade – estrutura-se, no excerto de Pascal, nos termos que se seguem.
Primeiro, têm elas um sentido progressivo: a ordem do corpo é ultrapassada pela ordem da alma ou espírito, a ordem da alma ou do espírito é ultrapassada pela ordem da santidade.
Segundo, dá-se uma distância infinita entre elas.
Terceiro, cada ordem, enquanto alguém nela se inscreve, forma uma totalidade e, dentro dela, parece oferecer perfeito sentido a tudo o que enquadra.
Quarto: embora de cada ordem inferior não seja possível ajuizar das ordens superiores, das ordens superiores é possível simultaneamente ajuizar do valor das ordens inferiores. É o caso, por ex., do poder e da grandeza: para quem se encontre no domínio da primeira ordem, constituem bens absolutos; mas desde a ordem da «alma» ou do «espírito», não deixando de ser – o poder e a grandeza – bens, são infinitamente inferiores aos bens do espírito. E a mesma relação se dá entre a ordem do espírito e a do amor ou caridade: nesta não se nega que o saber possa ser um bem, apenas se reconhece que, no confronto com a pura bondade, com a simples dádiva, é infinitamente inferior.
Mas deste modo se compreende igualmente como um certo «hedonismo», «materialismo» ou «cientismo» se pode desenvolver de «boa-fé» (embora com fanatismo), quando seja o resultado da «lisura» daquele que, inscrito numa ordem inferior, não consegue, realmente não consegue, captar uma ordem superior.
É a esta distinção que recorre Marion para, enfim, exercer a derradeira crítica a um sistema radical de laicização: é ele resultado de uma imposição do horizonte de quem se encontra inscrito ainda na primeira ordem às duas demais. Escreve:
«Aplicado à questão da separação, o esquema permite identificar a neutralidade do Estado ma primeira ordem, e validar a sua impotência positiva em ver (e mais ainda em julgar) a ordem do espírito (liberdade de pensamento, de investigação, etc.) e sobretudo a ordem da caridade (liberdade de consciência, de crença e de não crença, de “religião” e de mudança de religião.» (p. 80)
Assumindo-se esta distinção, então inverte-se o valor relativo de cada uma das ordens. A ordem política, primeira ao nível do poder, é, porém, a «mais abstracta e, portanto, a menos essencial das coisas e do mundo» (p. 80), menos importante no confronto de tudo o que é da ordem do espírito (artes, educação, etc.) e da ordem da santidade. Uma comunidade realmente esclarecida, portanto, é humilde nas suas pretensões e dá espaço à manifestação de ordens maiores que o ultrapassam, onde se joga o realmente fundamental do sentido da vida humana (não o fazer, di-lo-á Pascal em diferentes fragmentos, significa cair na tirania). O elemento de duradoura grandeza do liberalismo político, acrescente-se, está em reconhecê-lo.
Recuamos à citação de Péguy que abrira o capítulo:
«Nous avons eu le désétablissement des Églises.
Quand aurons-nous le désétablissement de la métaphysique?»
[«Tivemos a desinstitucionalização das Igrejas.
Quando teremos a desinstitucionalização da metafísica?»]
Pode, assim, concluir-se o segundo capítulo – com o lamento de Marion pela não inscrição das «raízes cristãs» no projecto de constituição europeia que não chegou a ser aprovada, sinal do oblívio de quais as raízes do regime da separação, do que o nutre e sustenta e de quais possam ser os seus mais estrénuos defensores (pp. 81-2).
(Continua.)
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