Mystérios lusitanos | A vinte e três (23) de cada mês, habitamos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra…
(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distração, ocultas, sob múltiplos disfarces, até que alguém as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou caçar o grasnar das gralhas. Está-lhe, por isso, muito grato…)
Alberto Ferreyra*
J. e M. vasculham, entre os papéis de Alberto Ferreyra, pressentindo-o distraído na criação de uma nova narrativa. Encontram os esboços de uma velha história de que desistira.
Começava assim…
Ao longe, ouve-se o dobrar dos sinos. Lento, demorado, lânguido, porque é da morte que fala. Anuncia partida e transfigura em perguntas o rotinar dos dias.
– O Zé da Lombinha. Triste coitado…
Encontraram-no, debruçado na cama, de olhos abertos – Porque a morte se enfrenta com coragem, dizia. – e uma folha com apenas uma frase escrita: ‘onde guardo tesouros’.
Os que primeiro o encontraram nada sabiam de arte. Teriam visto ali um novo quadro de David como se este fosse o repetir da morte de Marat.
Encontrara-a como sempre pretendera: no sossego da cama, e de olhar frontal. Ela não o surpreendera- Seria ele a surpreende-la a ela. Adivinhava-se o susto da morte ao encontra-lo vigilante.
A casa, modesta como a de um agricultor de aldeia, tinha um pequeno sótão, onde dormia. Cama simples, de armação de ferro. Antiga. Velha de ferrugem.
Subia-se por um escadório de madeira rangente. Toda a casa rangia; do soalho às portas, como se ali tivesse decidido o tempo esticar-se para escapar ao passado.
Um grande pátio, desnivelado, abrigava-se sob uma ramada de cachos americanos. A doçura das uvas adivinhava-se, por altura das vindimas, quando se agitavam, alvoroçadas, até que se lavassem os cestos, as afadigadas abelhas. O ranger dos soalhos fazia-se, então, acompanhar do ininterrupto zumbido melífero.
Nas traseiras da casa, os cheiros eram outros. Para ali se descia por um escorregadio passeio cimentado, que levava ao curral das vacas, dos porcos, cabras e ovelhas, numa mistura que lembrava os tempos da velha aliança, selada por ação de uma arca salvadora. Ao fundo, um grande aviário, que, ninhada após ninhada, servia o sustento daquele pobre homem.
Não se lhe conhecia o passado.
Viera, para ali, já entrado na vida.
O sotaque aberto denunciava-lhe a origem nordestina. Não se livrara, por isso, de lhe chamarem ‘brasileiro’.
Comprara aquela modesta casa, não se lhe conhecendo mulher nem filhos. Vivia só. Era homem de poucas falas. As necessárias, apenas, para escoar uns litros de leite ou vender os porcos entretanto cevados.
Temiam-se-lhe os outroras da vida que tornaram desconfiados os seus primeiros meses naquelas terras.
Assim se passara o tempo e tudo parecia destinado a que se emparedasse para sempre numa solidão sem janelas.
Até ao dia em que, por ação de um secreto benfeitor, foi adquirido pela igreja um novo órgão.
A igreja, de paredes totalmente cobertas de azulejo, era surpreendente na sua configuração – quem nela entrava, pelo lado dos cemitérios, imaginava-lhe o altar em frente. Encontrá-lo-ia, porém, do lado direito. Uma igreja lúgubre, apelando à interioridade, ampla como os palácios imperiais romanos… Em todo o perímetro, quadros com os apóstolos.
Alvoroçava-se o pároco, procurando um Buxtehude que pudesse dar bom uso àquele generoso instrumento.
Mas, nada…
Os tempos foram enchendo de poeira as teclas.
Dizia-se, porém, que, enquanto os homens amoleciam com o torpor digestivo, se ouviam melodias que pareciam nascer do interior da igreja. Ninguém conseguira, contudo, descobrir se o rumor era de fantasmas ou de um qualquer anjo humano.
Fizeram-se desentorpecer e, numa das tardes sequiosas de verão, resistindo à sedução da sesta, desvaneceu-se, de vez, o mistério. Zé da Lombinha esgueirava-se, como se adivinhava que sempre tivesse feito, por uma estreita porta por que se subia para a torre sineira, para ali se esconder até que se fechassem as portas, ao fim do dia.
– Como aprendera a melodiar e harmonizar aquelas teclas? Não era ele um modesto criador de gado e pobre agricultor?
Não se lhe sacaram palavras com que explicasse o seu saber.
Doravante, contudo, a comunidade passou a contar com o acompanhamento do mestre brasileiro.
– No sangue de um brasileiro sempre corre sangue musical. – Iam dizendo as línguas do povo.
Volvido o tempo, não longo, porém, a torre sineira deu labor ao seu morador para anunciar a morte de quem melodias trouxera à terra.
Sobrava um reconhecimento feito de mistério e gratidão, mas ninguém parecia compreender a história daquele homem.
E acabar assim. Só, ainda que de olhar fixo e firme perante a morte. E um papel.
Apenas um papel.
(Alberto Ferreyra interrompera a história aqui…)
J. e M. olharam um para o outro.
Havia que tentar descobrir se a casa da Lombinha existira e se nela se reservaria o que pudesse ajudar a desvendar o mistério daquela narrativa.
‘Onde guardo tesouros’…
Seria uma afirmação ou uma interrompida interrogação?
Saídos da narrativa, cruzando o umbral onde se juntam a imaginação e a realidade, M. levou, pela mão, o irmão J.
Desceram pela pequena encosta que os levaria à casa da Lombinha. Desfizeram os últimos degraus e pararam. Diante de si, a porta de duas folhas com que se acede à cozinha da casa da Lombinha. A parte nova fora construída muitos anos após a parte central. Fora uma parte exterior e separada, até que os avós da lombinha decidiram fechá-la, conferindo-lhe a unidade com que, agora, se apresentava.
Entraram. Subiram um pequeno degrau com que acederam ao soalho rangedor.
Os quartos eram pequenos, como era comum entre as casas antigas. Uma sala maior tinha uma porta verde, também ela de duas folhas, umas das quais fixa. Só se abria em duas ocasiões: uma, anual, por motivo da visita pascal; outra, que se esperava que muito tardia, por ocasião da morte de alguém.
Zé da Lombinha comprara a casa que mantivera nas condições em que a encontrara.
Num canto da salinha, de que se podia aceder a todos os quartos, havia um pequeno baú.
– Um pequeno baú? – J. parecia adivinhar o significado do olhar parado de M. sobre aquela grande caixa de madeira castanha de cobertura abobadada.
Abriram-no.
Dentro, só encontraram cartas.
Cartas, cartas, cartas.
Todas destinadas a José Manuel Silva.
Mas os remetentes multiplicavam-se, ainda que todos provindos do interior brasileiro.
J. sentou-se. M. abria, sôfrega, as inúmeras cartas.
Falava-se de gratidão, de reconhecimento, de convites.
Numa delas, das imediações de Manaus, agradecia-se a escola de música criada por José Manuel e que as saudades abundavam.
Enquanto M. lia, de lágrimas nos olhos, J. acotovelou-a.
Reunira quatro pedaços de uma carta rasgada.
Ao unir as partes, percebia-se o seu conteúdo. O reitor de uma universidade pedia desculpas pelo injusto processo que levara à demissão do professor José Manuel Silva por denúncia anónima que lhe lançara o nome na lama.
J. olhou, consternado, para M., que lamentou:
– Então, o brasileiro decidira procurar refúgio neste longínquo lugar da Lombinha, emparedando-se entre os muros da sua sobriedade de falas. Morrera só, mas enfrentara a morte porque se lia como tendo desistido da vida madrasta.
J. e M. abraçaram-se em choro condoído. Assim ficaram, longamente.
M. voltou-se para Alberto Ferreyra. Fixou-o nos olhos, do modo possível à personagem perante o seu criador, e devolveu-lhe o papel recolhido da mão do Zé da Lombinha já finado: ‘é no coração dos outros que se guardam os mais duradouros tesouros’.