Papa Francisco: o seu legado | Rubrica dedicada à reflexão sobre o legado do Pontificado do Papa Francisco

José Miguel Sardica

(Professor da Universidade Católica Portuguesa)

 

A Igreja católica é uma realidade que se (d)escreve com números majestosos: tem dois mil anos de história, vai eleger o seu 267.º Papa, está espalhada pelos cinco continentes do globo, inspirou inúmeras manifestações filosóficas, políticas, artísticas, ou sociais e agrega, hoje, c. de 1400 milhões de crentes. A esta luz, os doze anos do pontificado do Papa Francisco foram um período minúsculo na vida milenar da Igreja e breve no percurso de um homem cuja existência terrena, anterior à da eternidade, foi de 88 anos – mas foi um período fecundíssimo, fazendo de Francisco, o antigo cardeal arcebispo de Buenos Aires, porventura o líder global mais marcante do presente século XXI e a voz mais discreta e espiritualmente influente, porque ética e de esperança, da nossa atual era da incerteza, da desordem ou do caos.

Feito de uma personalidade muito própria – simples, humilde e empática – de gestos, de textos apostólicos, frases-chave, viagens e apelos, o legado do 1.º Papa americano, do 1.º provindo do hemisfério sul, do 1.º jesuíta e do 1.º a chamar-se Francisco – um nome que foi um programa – marca qualquer balanço que se faça sobre a sua vida ao mesmo tempo que projeta um futuro a que a Igreja deve oferecer respostas.

Francisco diagnosticou os males do nosso tempo e, para cada um deles, ensaiou os antídotos possíveis. Na Cúria romana, como em tantas e tantas organizações e instituições que gerem as nossas vidas, denunciou e combateu o elitismo, a autorreferencialidade, a burocracia, a rigidez normativa ou a mundanidade ética; no mundo dos homens, descobriu e combateu polarizações políticas e ódios belicistas, a globalização da indiferença, o triunfo do relativismo, a cultura de “descarte”, a crise climática, a devastação ambiental, a exclusão tecnocrática ou a “desfraternidade” de uma economia que “mata”. Contra tantas falhas – que são a descendência maldita do que já na pureza original dos Evangelhos Cristo definira como pecados – Francisco ensinou caminhos: uma Igreja “em saída” e uma cultura de diálogo, abertura e encontro participativo e inclusivo das periferias geográficas ou das margens da vida (migrantes, pobres, doentes, idosos); uma espiritualidade de cuidado, atenta à diferença, à dignidade de “todos, todos, todos” (o ex-libris lisboeta do seu pontificado!), e ao bem comum; a ternura e fraternidade sociais no concreto dos muitos que encontrou nas quatro partidas do mundo; uma ecologia integral de salvaguarda da Criação; uma sinodalidade democratizadora e envolvente da Igreja e dos leigos (com importante promoção das mulheres); e um apostolado de paz entre as nações que o fez ser o mediador esforçado (e contestado) das guerras que ensanguentam o mundo.

O crente católico não pode tomar como simples coincidência o facto de Francisco se ter despedido deste mundo com a bênção por ele dada, em Roma, no Domingo de Páscoa – porque a sua morte foi, com certeza, aquela vitória da Ressurreição que é o sentido culminante do Tríduo Pascal. Resta-nos ter fé que quem lhe suceder na cadeira de Pedro seja um pontífice continuador do melhor deste vasto legado, conferindo-lhe projeção e futuro num mundo – como o de 2025 – que precisa de um chão comum e de um norte contra o relativismo dos valores, de uma coesão económica e intergeracional contra as fissuras sociais, de uma cultura de paz contra a radicalização política, de uma consciência ambiental contra a exaustão da nossa “casa comum”, e de uma redescoberta do Evangelho contra as desglobalizações, muros e trincheiras que nos assombram. Tem de ser este o futuro do legado que o Papa Francisco nos deixou – a crentes católicos, a filhos de outras fés e até aos que não têm fé, mas que nele viram a luz e o consolo que não encontram em nenhuma outra fonte.

 


Foto: Papa Francisco