GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Tiago Azevedo Ramalho 

– Fenomenologia da escola (cont.) –

 [Introdução geral: nn.º 1 a 8/ I. Ivan Illich e a Escolarização: nn.º 9 e ss.]

 

– 25. Curriculum obrigatório. – Assenta a escola, por fim, num curriculum obrigatório e padronizado.

Padronizado, em primeiro lugar, por ser proposto um determinado conjunto de conteúdos já pré-definidos como valiosos: «Nas escolas, incluindo nas universidades, a maioria dos recursos são despendidos para comprar o tempo e a motivação de um número limitado de pessoas a debaterem-se com problemas pré-determinados numa forma ritualmente definida.» (Deschooling, p. 19) A característica compreende-se melhor no confronto com a sua alternativa, que seria a de constituir um espaço no qual haveria espaço para descobrir aquilo a que se deveria, ou não, conceder especial valor.

Em segundo lugar, e mais significativo, por o próprio ritual escolar constitui o núcleo do curriculum. «Estamos antes preocupados em chamar a atenção para o facto de que o cerimonial ou ritual da escola constitui ele próprio um curriculum oculto. Mesmo o melhor dos professores não consegue dele proteger inteiramente os seus pupilos.» (Deschooling, p. 32) A escola educa para um modo de relação social assente na entrega de cada um a uma economia de aquisição de serviços: «este curriculum escondido serve como ritual de iniciação, igualmente para pobres e ricos, numa sociedade de consumo em crescimento» (Deschooling, p. 33). Daí que adiante escreva: «a civilização mundial contemporânea é, portanto, a primeira que julgou necessário racionalizar a sua iniciação fundamental em nome da educação.» (Deschooling, p. 38)

Todas estas características não conduzem senão – tal é a tese de Ivan Illich – a estarmos perante a um ritual iniciático a um modo de vida planificado. Neste sentido se compreende que se tenha proposto a estudar o sistema escolar enquanto expressão manifesta das instituições modernas (n.º 12).


Imagem de Gerd Altmann por Pixabay