A Quaresma, um convite a caminhar e abrir o coração à mudança
1. O encontro com Cristo
O tempo de Quaresma é um convite a mudar de vida, a cuidar da nossa fé, que é encontro com o Pai através de Jesus, pela ação do Espírito. Esta aceitação exige não só uma adesão interior, mas também uma mudança de vida. «Convertei-vos e acreditai no Evangelho» (cf. Mc 1,15).
São muitos os desafios sobre os quais temos de refletir e decidir juntos: o desafio a edificar uma Igreja referida a Cristo, mais do que a si mesma; o desafio a levar a sério a natureza comunitária da Fé; o desafio a viver em estado de comunhão e de recomeço, através de uma leitura atenta aos sinais dos tempos e de uma capacidade renovada de aprofundar os aspetos espirituais que comportam uma ação apostólica mais sólida. A exortação que o Senhor nos dirige através do profeta Joel «Voltai para mim com todo o vosso coração» (Jl 2,12) é clara.
Só um encontro pessoal com a Pessoa de Cristo crucificado, morto e ressuscitado traz a realização plena para as nossas vidas. Cristo não pode ficar na dimensão do conhecimento, sob pena de os olhos humanos se fecharem pela falta de esperança, quando as coisas não correm bem, quando a fé em Deus se defronta com a realidade do sofrimento e da morte. Estamos, pois, diante do Caminho escolhido por Cristo e o Caminho apontado por Cristo aos seus seguidores.
2. O caminho sinodal, um convite à conversão
Num tempo em que se fala da sinodalidade na Igreja, não significa que as coisas venham a ser mais fáceis e mais cómodas. A sinodalidade significa que a Igreja será mais conforme com a vontade e com o ser de Deus, que é “comunhão infinita” (o Pai, a Palavra e o Espírito). Não se limita a estar juntos, mas a procurar caminhar juntos. Não podemos pretender que o caminho de um seja o caminho de todos, mas de buscar um caminho tecido entre todos. O caminho sinodal é, pois, profundo convite à conversão pessoal, pastoral e eclesial. Esta conversão terá de ser por parte de toda a Igreja, que sai permanentemente “da sua própria comodidade” para servir. O serviço e o diálogo são as atitudes fundamentais desta conversão. Perante adversidades e contrariedades, responder ao mal com o bem, e não com o mal. Não se trata simplesmente de uma questão de palavras, mas de gestos ousados, atitudes corajosas, opções provocantes – o que exige discernimento nas escolhas e opções que fazemos.
A Quaresma chama-nos a repor a nossa fé e esperança no Senhor, pois só com o olhar fixo em Jesus Cristo ressuscitado é que podemos acolher a exortação do apóstolo: “Não nos cansemos de fazer o bem” (Gal 6,9).
3. Amar com obras e em verdade
Para que o discípulo amadureça no conhecimento e seguimento de Jesus deve alimentar-se da Palavra de Deus, que é caminho de autêntica conversão e renovação; da Eucaristia, lugar privilegiado do encontro do discípulo com Jesus Cristo; da oração pessoal e comunitária, o lugar onde o discípulo, alimentado pela Palavra e pela Eucaristia, cultiva uma relação de profunda amizade com Jesus Cristo; do sacramento da Reconciliação, sabendo que Deus nunca se cansa de perdoar; também encontramos e seguimos Jesus de um modo especial nos pobres, aflitos e enfermos. Perante os vários tipos de pobreza e de fragilidade, e nos quais somos chamados a reconhecer Cristo sofredor, o cristão não pode ficar indiferente. «Fechar os olhos ao próximo torna-nos cegos diante de Deus!».
O serviço no amor é o cerne da proposta de Jesus e a primeira exigência da comunidade cristã. “Não amemos com palavras e com a língua, mas com obras e em verdade” (1Jo 3,18). O amor sincero e o serviço alegre, ao estilo de Jesus, hão de ser o modo de presença de cada um neste mundo: despojar-se, tornar-se escravo, pôr o avental, servir. Contra toda a lógica humana, Jesus garante àqueles que confiam na sua proposta: “Sereis felizes”. Felizes os que perfumam os caminhos com a virtude da caridade!
4. O dinamismo da conversão em tempo de Quaresma
A palavra de Jesus torna-se para nós convite. Viver a Quaresma, tempo de purificação e conversão interior na vida da Igreja e de todo o cristão, é assumir a mesma atitude de Jesus e solidarizar-se com todos os que sofrem, os que são explorados, os que são excluídos, os que são privados de amor e dignidade: a não deixar ninguém para trás. Sendo tempo propício para a conversão, apelando ao jejum, ao despojamento e à partilha fraterna (cf. Mt 6,1-18), procuremos, nesta Quaresma, não fazer dos bens materiais as nossas prioridades de vida e vivê-la em ambiente familiar e comunitário com mais intensa oração pessoal e comunitária, atentos às necessidades dos que clamam e imploram misericórdia. O jejum, a oração e a esmola são os caminhos que ajudam a viver este tempo favorável para sairmos transformados.
A oração deve ser mais intensa e alimentada pela Palavra de Deus, o jejum não é apenas a abstinência de alimentos, mas também o uso dos meios de comunicação social, que muitas vezes não nos ajudam a ser pessoas mais livres e solidárias e a esmola como forma de pôr em prática o amor fraterno.
A Renúncia Quaresmal da nossa diocese de Aveiro será metade para os deslocados da guerra de Cabo Delgado, na diocese de Pemba, em Moçambique e a outra parte para o Fundo Solidário do Centro Universitário Fé e Cultura (CUFC), de Aveiro.
Ajudando-nos, faremos o bem para nós mesmos. Coloco esta mensagem no coração de cada um dos diocesanos, de todas as famílias, paróquias, comunidades religiosas e movimentos apostólicos, para que chegados à Páscoa possamos celebrar renovados o mistério pascal e irradiar a alegria da Ressurreição de Jesus. Libertemos o nosso coração para acolher o encontro com o Ressuscitado.
Aveiro, 24 de fevereiro de 2022
+ António Manuel Moiteiro Ramos, bispo de Aveiro