‘Subindo o Monte’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de autores carmelitas
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

Fontes dos seus livros

José Vicente Rodrigues*

O próprio João da Cruz reduz as fontes dos seus livros a três:

Ciência – experiência – Sagrada Escritura (nos prólogos das suas grandes livros: Subida, nn. 1-2; CA, nn. 3-4; CB, nn. 3-4; CH A, n. 1: CH B, n. 1).

1.Ciência adquirida

João da Cruz, dotado de admirável engenho e aplicação ao estudo, estudou Humanidades, Filosofia e Teologia em centros muito bons e com excelentes mestres num ambiente de grande altura. As declarações daqueles que o conheceram de perto testemunham a abundância dos seus conhecimentos. As citações de outros autores: Aristóteles, Santo Agostinho, São Tomás, Boécio, Teresa de Jesus (CB 13, 7), etc., são consideradas como sinais dos seus conhecimentos. Não é caso de entrar aqui no mundo resvaladiço das possíveis pegadas de autores islâmicos, renano-flamengos, e outros. Como influência bem certa e confessada por ele é o tractatus debeatitudine atribuído então a São Tomás, obra de Helvicus Teutonicus (Herwic de Germar) do século XIII-XIV (pode ver-se uma nota precisa em OC, o. 539 no fim de 2 N 18, 5 e também CB 38, 4, p0. 754, nota 4), etc. Deste escrito estão praticamente copiados os capítulos 19 e 20 de 2 N, toda a parte final de CH A 3, n. 71-75 e CH B, 81-85, tudo o que se refere aos «primores» de amor, de fruição, de louvor, de agradecimento e mais algumas coisas.

2.Ciência infusa

Aqueles que conheceram a João da Cruz pessoalmente e leram os seus escritos não tinham a menor dúvida desta ciência especial comunicada por Deus. Abundam as declarações a este respeito.

João Evangelista, seu confessor e confidente e amanuense, diz:

«… A sua alma era como um templo de Deus, sobrenaturalmente ilustrado, onde se ouviam oráculos divinos para as almas com quem ele comunicava» (BMC 13, 388).

E Fernando da Mãe de Deus numa declaração ampla e detalhada assegura que estes livros… estão escritos por tão alto e admirável estilo  e estão tão cheios de celestial erudição, que esta testemunha julga e entende, como ouviu dizer a outras pessoas espirituais, não se ter adquirido nem estudado esta ciência divina com engenho humano, mas revelada e ensinada pelo Pai dos humildes, que ilumina e ensina a quem Sua Majestade é servido» (BMC 14, p. 335).

Além do que dizem estes e outros companheiros e conhecidos podem ler-se as declarações ou confissões pessoais do próprio Santo (CB, Prólogo, n. 1-2; CH B, prólogo, n. 1).

  1. – Experiência

Pessoal ou da sua própria alma ou pessoa, como declara especialmente em CA e CB, nos prólogos respectivos, n. 1. As testemunhas testemunham também que João da Cruz fala nos seus livros das suas experiências pessoais. O mencionado João Evangelista, testemunha de excepção, declara:

«… foi este santo de grandíssima oração e muito dado a ela como se verá pelos seus livros, os quais vi compor, e nunca lhe vi abrir livros para isto, senão do trato que tinha com Deus, pois vê-se bem que é experiência e exercício, e que passava por ele aquilo que ali diz» (BMC 13, 585).

Não há que esquecer a importância da santidade do autor, como fonte também da sua doutrina pelo caminho da intercomunicação da santidade e da experiência. A santidade de que estava revestido é mãe e filha da experiência e também mãe da ciência.

Experiência alheia ou de outras almas: englobando as duas experiências, a sua e a alheia, escreve: «… não penso afirmar coisa minha, fiando-me de experiência que por mim tenha passado, nem do que noutras pessoas espirituais conheci ou delas ouvi, ainda que de um e outro me penso aproveitar» (CA e CB, prólogo n. 4).

E, nos seus livros, sobretudo nas obras maiores, alude a esta experiência alheia: 2 S 2, 16; 2 S 26, 17: «de que temos muitíssima experiência». A experiência não muito consoladora ou não tão agradável de tantas almas obrigou-o, de certo modo, a escrever: veja-se Subida, prólogo, nn. 3-9; CH B 3, 27.

Também aqui abundam os testemunhos históricos, como se pode ver percorrendo o que dissemos ao falar do magistério oral, o falar do seu discipulado.

  1. – Sagrada Escritura

A Sagrada Escritura é a fonte principal da obra escrita sanjoanina por várias razões:

  1. a) Pelas próprias declarações do Santo que põe a Escritura acima das outras duas fontes. a ciência e a experiência, relativizando-as muito e valorizando-as a partir da mesma Escritura: «nem me fiarei da experiência nem da ciência, pois uma e outra podem faltar e enganar; mas… aproveitar-me-ei… da divina Escritura, porque guiando-nos por ela não poderemos errar, pois quem nela fala é o Espírito Santo» (Subida, prólogo, n. 2). Na Chama falará de ir «apoiando-se na Escritura Divina» (Prólogo, n, 1) e no Cântico volta a confrontar a ciência e a experiência com a Sagrada Escritura: «Não penso afirmar coisa minha, fiando-me de experiência que por mim tenha passado, nem do que noutras pessoas espirituais tenha conhecido ou delas ouvido, ainda que de uma e de outra penso aproveitar-me, confirmando e declarando com autoridades da Escritura divina, pelo menos naquilo que parecer mais difícil de entender» (Prólogo, n. 4).
  2. b) Pelo facto material das citações explícitas e implícitas que se encontram nos seus livros e pela impregnação bíblica que transcende das suas páginas.
  3. c) Pela importância doutrinal que atribui a certos textos bíblicos concretos que, por isso, se tornam como eixos da sua exposição ou de uma série de ideias que deixam transluzir, muitas vezes, o mundo e o transfundo das suas experiências ou vivências.
  4. – Como exemplos podem aduzir-se alguns bens significativos

1º «Amarás o teu Senhor Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças» (Dt 6, 5: 3 S 16,1; 2 N 11, 3-4: amplidão, dinâmica e eficácia do preceito do amor que abrange tudo o que «o homem espiritual deve fazer» e o que João da Cruz lhe pode ensinar para chegar a Deus e unir-se com Ele em perfeição de amor. A razão de ser de toda a noite escura – activa e passiva – é para que o homem com tudo o que é, pode e vale cumpra com perfeição o preceito do amor.

2º «Participantes da natureza divina» (2 Pe 1, 4; CB 39, 6; CA 38, 4; assim traduz o tão usado texto da epístola católica petrina: «divine consortesnaturae». E, apoiando-se nessas palavras, afirma com toda a energia e decisão a participação da vida de Deus, dando claramente a entender que «a alma participará do mesmo Deus, que será operando n’Ele, juntamente com Ele, a obra da Santíssima Trindade».

Assiste-se aqui à culminação do gesto de Deus que, já no baptismo, «inclinando-se para a alma com misericórdia, imprime e infunde nela o seu amor e graça, com que e formoseia e levanta tanto, que a torna consorte (= companheira / participante) da mesma Divindade» (CB 32, 4).

3º. «O que Deus tem preparado para os que O amam, nem o olho jamais o viu, nem o ouvido ouviu, nem caiu no coração e no pensamento do homem» (1 Co 2, 9; Is 64, 4: 2 S 4, 4; 2 S 8, 4; 3 S 12, 1; 3 S 24, 2; 2 N 9, 4; CB 38, 6). Na «utilização combinada de Is 64, 3 e de Jer 3, 16, ou citação do apócrifo Apocalipse de Elias» feita por São Paulo encontra João da Cruz a grande base para planear todo o itinerário espiritual a partir da transcendência de Deus que exige a partir de dentro que se supere tudo o que é meio remoto e nos estabeleçamos nos meios unicamente válidos que são as virtudes teologais com todos os dinamismos que implantam na pessoa humana. No primeiro lugar indicado é onde apresenta o plano aludido. Nos outros vai fazendo as aplicações oportunas e correspondentes, de modo a manter sempre vigente a transcendência, como pauta de comportamento para alcançar a meta: o que Deus tem preparado para os que O amam, isto é, Ele mesmo.

4º. «Quem me ama, será amado por meu Pai, e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele…; e meu Pai amá-lo-á e viremos a ele e faremos nele morada» (Jo 14, 21-23; 2 S 26, 10; CH B prólogo 2; CH A prólogo 2; CH B 1, 15: apresentação da inhabitação de Deus na alma de um modo dinâmico, isto é, «fazendo-o a ele (o fiel cristão) viver e morar no Pai, Filho e Espírito Santo em vida de Deus»; e esse morar de assento nele dá-se «ilustrando-lhe o entendimento divinamente na sabedoria do Filho, e deleitando-lhe a vontade no Espírito Santo, e absorvendo-o o Pai poderosa e fortemente no abraço abissal da sua doçura».

5º. «Quão apertada é a porta e estreito o caminho que conduz à vida e são poucos os que o encontram!» (Mt 7, 14; 2 S 7, 2-3; 1 N 11, 4: a porta é Cristo, e, em definitivo, Cristo crucificado e ressuscitado, que não é menos crucificante. A espessura da sua cruz leva à espessura da sua luz e à insondável riqueza do seu mistério (CB 36, 10-13) «porque para entrar nestas riquezas da sua sabedoria, a porta é a cruz, que é apertada» (Ibid.).

«Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Na verdade, quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, há-de salvá-la» (Mc 8, 34-35; 2 S 7, 4 ss: Palavras de Jesus que se integram com as anteriores e no mesmo contexto sanjoanino, mas com uma referência e expressividade maior e com uma ligação mais directa à pessoa de Cristo que vai à frente do caminho. O seguimento implica a renúncia evangélica a tudo: até à própria vida. E quem se fizer «se perder» por Cristo será encontrado por Ele (cf. CB 29, 7-11).

6º. «Guardarei para ti a minha fortaleza» (Sl 58, 10; 1 S 10, 1; 3 S 16, 1; 2 N 11, 3; CB 28, 8; CA 19, 7: o Santo tem um entusiasmo particular por esta passagem do salmo. Conforme o lia na versão da Vulgata: fortitudinem meam ad te custodiam, falava-lhe da fortaleza, da virtude da fortaleza e, neste sentido o explora, embora o texto original fale de outra coisa: de Deus como refúgio, cidadela, fortaleza, etc.

Para João da Cruz «a fortaleza da alma consiste nas suas potências, paixões e apetites, tudo o qual é governado pela vontade, pois quando a vontade endereça estas potências, paixões e apetites para Deus e as desvia de tudo o que não é Deus, então guarda a fortaleza da alma para Deus, e, assim, vem a amar a Deus com toda a sua fortaleza» (3 S 16, 2).

7º. «Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus» (Jo 3, 5: 2 S 5, 5: consolidam-se aqui as raízes baptismais da espiritualidade sanjoanina e a plenitude à qual há-de chegar o baptizado. A espiritualidade baptismal e todas as etapas do caminho nela inscritas deixa-as João da Cruz bem assinaladas em CB 23, 6. Cf. também CA 38, 6 onde se fala da «limpeza baptismal».

8º. «Aquele que se há-de unir com Deus, convém-lhe que creia no seu ser» (Hb 11, 6). O texto da Vulgata corrente dizia assim: «credere enim oportet accedentem ad Deum quia est», mas João da Cruz cita-o da seguinte maneira: accedentem ad Deum oportet credere quod est» e dá a tradução que transcrevemos, como quem se fixa não no facto da existência de Deus (quia est), mas no que é (quod est). Isto dá-lhe pé para insistir poderosamente na transcendência do ser de Deus e reafirmar uma e outra vez essa verdade substancial. Em 2 S 9,1, citando o texto bíblico só em castelhano assim: «aquele que se há-de juntar com Deus, convém-lhe que creia».

9º. «Os que são movidos pelo Espírito de Deus, são filhos de Deus» (Rm 8, 14; 3 S 2, 16; CB 35, 5; CA 34, 4; CH B 2, 34; CH A 2, 30: João da Cruz encontra neste texto paulino uma espécie de definição ou de configuração dos «filhos de Deus», de modo que quem for mais dócil à moção divina virá a ser o melhor filho de Deus. O maior exemplo de uma criatura humana pura encontra-o na Virgem Maria, a quem exalta como ninguém em 3 S 2, 10.

10º. «Aquele que se une ao Senhor faz com Ele um só espírito» (1 Co 6, 17: 3 S 2, 8; CB 22, 3: João da Cruz deduz da afirmação paulina as conclusões para ele mais evidentes: «daqui é que as operações da alma unida são do Espírito Divino, e são divinas»; «são duas naturezas num espírito e amor». E esclarece ainda mais por uma comparação: «Bem assim como quando a luz da estrela ou da candeia se junta e une com a do sol, pois já quem luz nem é a estrela nem a candeia, mas o sol, tendo em si difundidas as outras luzes» (CB 22, 3).

11º. «O que antigamente Deus falou pelos profetas aos nossos pais de muitos modos e maneiras, agora, por último, nestes dias falou-nos no Filho tudo de uma vez» (Hb 1, 1; 2 S 22, 4 ss). Este texto, um dos mais belos e importantes da Bíblia, adquire na pena de João da Cruz o relevo que merece e, partindo dele, escreve como nunca de Cristo Palavra, única palavra, a só Palavra, a palavra definitiva do Pai; e fê-lo «dando-nos o Tudo, que é o seu Filho», dando-no-lo «por Irmão, Companheiro e Mestre, Preço e Prémio». Assim se compreende que Cristo não é só a Palavra dita, mas a Palavra dada e oferecida, Palavra viva e vivificante e riqueza insondável pois no Filho de Deus «estão escondidos todos os tesouros de sabedoria e ciência de Deus» (Cl 2, 3: 2 S 22, 6; CB 37, 4) e também n’Ele, «em Cristo mora corporalmente toda a plenitude da divindade» (Cl 2, 9; 2 S 22, 6).

12º. «Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim» (Gl 2, 20; CB 12, 7; CA 11, 6; CH B 2, 34; CH A 2, 30). Neste texto paulino, com o qual se inflamam os grandes místicos, João da Cruz encontra como o resultado final e mais apetecível da transformação da morte em vida, do homem velho no homem novo. Realça-o muito particularmente ao comentar em CH B e em CH A, lugares citados, o verso: matando, morte em vida tens trocado. Depois de recordar outros textos paulinos – Rm 8, 13; Ef 4, 22 sobre o homem velho e o homem novo –, procura explicá-lo de algum modo, iniciando: «E como cada criatura vive por sua operação, como dizem os filósofos, a alma vive vida de Deus, porque tem as suas operações em Deus devido à união com Ele; e assim, a sua morte trocou-se em vida, ou seja, a sua vida animal em vida espiritual».

13º. «O dia transmite ao outro a sua mensagem e a noite a dá a conhecer à outra noite» (Sl 18, 3; 2 S 3, 5). João da Cruz tira grande proveito desta passagem bíblica como se pode ver pelo simples comentário que faz dela:

O dia,                                                                        e a noite,

que é Deus                                                                 que é a fé,

na bem-aventurança,                                                 na Igreja militante

onde já é dia,                                                             onde ainda é de noite,

aos bem-aventurados                                                 à Igreja e,

anjos e almas,                                                            consequentemente, a qualquer alma.

que já são dia,

comunica-lhes                                                            mostra

e pronuncia

A PALAVRA,                                                          ciência, a qual lhe é noite

que é SEU FILHO,                                                   pois está privada da clara sabedoria

para que O saibam                                                     beatífica e, na presença da fé,

e O gozem                                                                 cega da sua luz natural».

  1. Estes exemplos podem ser suficientes para mostrar o valor que atribui à palavra de Deus escrita. Além do valor dos textos bíblicos, João da Cruz assume certas personagens bíblicas com toda a carga simbólica que podem conter, por exemplo, Tobias, Job, Jeremias, David, Maria Madalena, Sansão, Salomão, a Samaritana, Raquel, etc.,. Digo carga simbólica sem que o Santo pense desvanecer a vivência ou biografia de cada uma destas personagens, tal como ele as vê. Servem-lhe, na circunstância concreta, para definir os diversos estados da alma: ânsias, amor, enamoramento, escravidão e sujeição aos apetites, vida contemplativa, etc.
  2. Mais uma prova de como a Sagrada Escritura é fonte, e principalmente, se encontra no dado da inspiração geral – para todo um livro ou – quanto à matéria e à forma que lhe subministra a Bíblia: exemplo singular: o Cântico dos Cânticos e o Cântico Espiritual. O próprio livro da Subida-Noite, inicialmente, e muito mais se nos fixarmos nas 8 canções ou esquema poético deste díptico, se encontra nesta linha.
  3. Já há alguns anos nos detínhamos numa comprovação empírica que permanece válida:

– O Romance sobre o evangelho «in principio erat Verbum» arranca com o prólogo de São João e recolhe outras passagens do mesmo evangelista; de São Lucas (1, 26 ss) toma o facto da Anunciação que canta no romance 8; do mesmo evangelista (2, 1 ss) o nascimento do Senhor, tema do romance 9.

A promessa feita pelo Espírito Santo «ao bom velho Simeão», romance 6, é tomada também de São Lucas (2, 22 ss). O romance 5 é uma recriação finíssima e profunda de textos bíblicos, especialmente do profeta Isaías.

– O Romance sobre o salmo «superflumina Babylonis» transparece, sem mais, a sua origem bíblica.

9. Nas estrofes finais e mais pessoais de que bem sei eu a fonte vê o discurso-promessa eucarística do pão do céu do evangelho de João, cap. 6.

A Navidenha, não faz falta dizê-lo, é evocação concentrada de Lucas, cap. 2, vv. 4-7.

10.Numa noite escura, não está talvez inspirada nos lances amorosos do Cânticos dos Cânticos, e no Êxodo lento da liturgia da vigília pascal?

«Acaba já, se queres», quinto verso da primeira canção da Chama é versão poética e mística das duas petições do Pai-nosso: venha o teu reino; faça-se a tua vontade. Nem se pode esquecer o grande elogio que faz da passagem bíblica do Paternóster em 3 S 44, 4.

11. A última estrofe de um pastorinho é totalmente bíblica. Parece-nos a undécima e duodécima estação da via-sacra; Jesus cravado e morto na Cruz.

Conclusão

Não faltava nada a João da Cruz, como homem de letras, nem como poeta nem como prosista, para ser um escritor extraordinário de coisas espirituais, um mestre único de teologia espiritual e um guia de alma por meio do seu magistério de viva voz e dos seus livros que lhe asseguram a sobrevivência mais plena.

As três fontes dos seus livros são usadas por ele conforme os ensinamentos e o espírito da santa Mãe Igreja católica apostólica romana, como diz nos prólogos de Subida, Cântico e Chama.

Por mais que se tenha esforçado por penetrar e explicar convenientemente as realidades mais profundas da vida de Deus no homem ficou sempre, nestes casos, com a insatisfação conatural a quem quer falar do inefável.

Mostra a sua ansiedade de escritor nos prólogos de Subida, Cântico, Chama; no prólogo desta última obra confessa que se atreve a dizer o que souber contando que «se entenda que tudo o que se disser é tanto menos do que ali há como o é o pintado do vivo» (n. 1).

* Vicente Rodrigues. 100 Fichas sobre S. João da Cruz. Edições Carmelo, Avessadas. Pp. 155 -161.


Imagem: A Subida do Monte Carmelo segundo a primeira edição de 1618 de Diego de Astor. Segundo Dicken, esta imagem não é uma representação fiel do pensamento de João e nem é fiel ao desenho original de João. Ela foi publicada pela primeira vez em 1929 e é uma cópia de 1759 da original (perdida), quase certamente desenhada pelo próprio João. É esta, porém, que acabou influenciando as representações do “Monte”, como a que aparece na edição veneziana de 1748 e na genovesa de 1858 das obras de João.