Oratório Peregrino
Um oratório à maneira de um viático para tempos de carestia
Uma proposta desenvolvida em parceria com
Irmãs do Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro
VIII – O preço da liberdade
A vida espiritual é uma colaboração de duas actividades: a nossa e a de Deus. Mas Deus respeita a nossa liberdade, não nos fará santos se nós não quisermos. Criou-nos livres para podermos fazer o dom total de nós mesmos. Quer que colaboremos na obra que quer realizar em nós. Nisto consiste o mistério da actividade divina e da nossa.
O dom de nós mesmos! Não é um acto passageiro. Não só o temos que fazer hoje, mas amanhã e depois de amanhã e sempre. Que a nossa vida espiritual seja um dom contínuo de nós mesmos, repetido e realizado cada vez com mais humildade.
O acto de amor perfeito é o dom de nós mesmos.
Para compreender o valor deste dom de nós mesmos, temos que olhar para Nosso Senhor. «Ao entrar no mundo, Cristo disse: Eis que venho para fazer, ó Deus, a tua vontade» (Hb 10, 5). O primeiro gesto da humanidade de Cristo foi oferecer-se. E no momento de morrer coroa toda a sua vida com outro acto de oferecimento que confirma o primeiro: «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito» (Lc 23, 46). Estes dois gestos de Cristo dizem-nos todo o valor que tem o dom de nós mesmos.
Poderíamos dizer que toda a «vida espiritual» de Nosso Senhor se resume nisto: dar-se, oferecer-se para realizar o desígnio de Deus. Quando estava com a Samaritana, no poço de Sicar, os apóstolos trouxeram-lhe comida, e Ele disse-lhes: «O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que me enviou» (Jo 4, 34). Isto revela-nos a alma de Cristo. Ama o seu Pai e oferece-se a seu Pai.
Para a realização da nossa santificação pessoal ou para a construção do Corpo místico de Cristo, quer dizer, para toda a obra de misericórdia, Deus quer a colaboração da liberdade humana. Como base de tudo, desta colaboração, também tem que estar presente o dom de tudo o que somos (I 24-7-44; I 2-8-61).
«Se conhecesses o dom de Deus», diz Jesus à Samaritana (Jo 4, 10). No começo está o dom de Deus. Ele tem a iniciativa em todo o dom, desde a criação até à salvação do homem.
Dando-nos o seu Filho, O Pai revela-nos o seu amor e se dá a Si mesmo; e no amor que O une a seu Pai, Jesus realiza o dom total de si mesmo; vem ao mundo e dá a sua vida livremente: «É por isto que meu Pai me tem amor: por Eu oferecer a minha vida… sou Eu que a ofereço livremente» (Jo 10, 17-18).
Disposição fundamental de Cristo, o dom de si é uma disposição fundamental cristã (QV 376). A graça, participação da vida divina, é filial. Faz-nos ser filhos à imagem de Cristo, o Filho único, e só podemos estar unidos a deus se realizamos Cristo, vivendo no seu movimento de amor ao Pai, adequando a nossa vida com «os sentimentos próprios de uma vida em Cristo Jesus» (Fl 2, 5). O dom de nós mesmos é a mais alta expressão da nossa liberdade, e descobrimos o seu valor olhando-o à luz do dom total de Cristo, do seu amor livre e obediente aa seu Pai.
Na base da vida espiritual está este dom, que surge numa pessoa livre. É a resposta de amor à loucura do amor de Deus por nós.
Santa Teresa de Jesus adverte-nos: «Como Ele (Deus) não quer forçar a nossa vontade, toma o que Lhe damos, mas não Se dá a Si de todo, até que de todo nos demos a Ele» (CV 28, 12).
Isto mostra-nos até que ponto o dom responde ao dom. Ao amor de Deus que se dá totalmente, o cristão corresponde dando-se totalmente a Deus, e recebe em herança um amor que o invade e o enche cada vez mais, uma caridade cada vez mais viva. Este é o dinamismo do dom que nos leva a realizar perfeitamente a nossa vocação cristã.
O Padre Eugénio Maria precisa algumas qualidades que o dom de nós mesmos tem que ter para ser verdadeiro.
Tem que ser um dom total, sem restrições, incondicional. Não se trata de um «sim, mas…», mas de acolher o radicalismo evangélico: «Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens…» (Mt 19, 21). O dom total liberta! Deus chama-me cada dia, e a minha resposta de amor é um dom diário de mim mesmo até ao último suspiro.
Teresa de Jesus diz-nos também – talvez com um pouco de tristeza? – «Somos tão tardios em nos darmos de todo a Deus que… não acabamos de nos dispor» (V 11, 1).
Este dom total é um dom na obscuridade, um dom indeterminado. Há certo perigo quando o determinamos tendo em conta os nossos gostos, o que nos atrai; temos que ter cuidado de não cair no engano da imaginação e não nos fazermos ilusões, que nos assaltam sempre. Deste ponto de vista, o Padre Eugénio Maria falava de uma espiritualidade do acontecimento: a fé deve estar desperta nas situações providenciais… fontes de luz e de graça (QV 685). Se partimos do que sabemos pela fé, que Deus é Providência, acaso não são frequentemente os acontecimentos e as situações os mensageiros mais seguros da vontade de Deus? «Sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus» (Rm 8, 28). Deus serve-se dos acontecimentos.
Até onde nos pode levar este compromisso na obscuridade, esta indeterminação nas realizações? Nos conduzirá com Jesus até ao Getsémani? Não queiramos saber. O que conta no dom não é o esforço, mas o movimento de amor que nos faz entrar em comunhão com Deus. O essencial é viver uma fidelidade de amor cada vez mais generosa e desinteressada.
O dom identifica-nos com Cristo nas profundidades. Não se trata de imitar a Cristo de maneira superficial… por meio de um vão formalismo exterior, mas de uma constante disposição que nos entrega à graça de Cristo que vive em nós (QV 376). O «sim» permanente ao amor de Deus, o dom de nós mesmos renovado cada dia, não pode senão atrair o Amor e fazer-nos entrar na profundidade do seu inesgotável mistério.
Cada um de nós tem uma missão na Igreja, e o dom de nós mesmos associa-nos à obra de Deus. Somos os ramos que dão fruto na medida em que estão unidos à videira (Jo 15, 4-5). Deste modo, por muito modestas que sejam as nossas obras, têm a fecundidade das obras divinas.
Nesta colaboração, deus confia no homem, e isto faz que o nosso dom seja cada vez mais humilde. Que diz a Virgem quando o espírito Santo pediu a colaboração dela? «Olhou para a humildade da sua serva» (Lc 1, 48). Deus pede-lhe o seu fiat. «Faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38). Nesta chamada, Maria só vê o olhar da misericórdia do seu Senhor. Diz um sim sem reservas, e é associada ao mistério da Encarnação, da Redenção, à obra mais elevada do Deus Trindade. E está chamada a ser Mãe da Igreja.
«Jesus tem por nós um amor tão incompreensível que quer que tenhamos parte com Ele na salvação das almas. Não quer fazer nada sem nós», diz Santa Teresa do Menino jesus (Ca 135). As missões e vocações na Igreja são sempre variadas porque são pessoais, mas todas são expressão do amor, dom de nós mesmos a Deus para a Igreja: «Compreendi que só o Amor fazia agir os membros da Igreja… o Amor encerra todas as Vocações, que o Amor é tudo» exclama Teresa (Ms B 3 v).
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