D. António Moiteiro, Bispo de Aveiro
Na conclusão do seu artigo sobre o Catecismo de Bartolomeu dos Mártires (ver I parte), D. António Moiteiro explica o que é um catecismo, que esta palavra surgiu pela primeira vez num livro português, e que o catecismo de Bartolomeu dos Mártires, destinado aos padres, tinha duas partes, uma com as matérias divididas de acordo com as virtudes teologais e outra com homilias para serem lidas ao longo do ano litúrgico.
O que é um catecismo?
Um catecismo deve apresentar, com fidelidade e de modo orgânico, o ensinamento da Sagrada Escritura, da Tradição viva na Igreja e do Magistério autêntico, bem como a herança espiritual dos Padres, dos Santos da Igreja, para permitir conhecer melhor o mistério cristão e reavivar a fé do povo de Deus. Deve ter em conta as explicitações da doutrina que, no decurso dos tempos, o Espírito Santo sugeriu à Igreja.

É também necessário que ajude a iluminar, com a luz da fé, as novas situações e os problemas que ainda não tinham surgido no passado. O Catecismo incluirá, portanto, coisas novas e velhas (cf. Mt 13,52), porque a fé é sempre a mesma e, simultaneamente, é fonte de luzes sempre novas.

Para compreendermos o uso dos vários catecismos que se utilizaram na catequese ao longo dos últimos cinco séculos, temos de ter em conta uma divisão que me parece muito importante: catecismo «maiores» e catecismo «menores». Os primeiros dizem respeito apenas aos conteúdos catequese e, como tal, têm apenas como preocupação apresentar a doutrina cristã, tal como a Igreja a propõe e quer dar a conhecer. Os catecismos menores destinam-se aos catequizandos, com uma pedagogia adaptada à sua idade e metodologia adequadas. Um exemplo de catecismo «maior» é o Catecismo da Igreja Católica, publicado em 1992, e de catecismo «menor», cada um dos dez catecismos do Programa Nacional de Catequese.
A palavra «catecismo» foi utilizada pela primeira vez a nível mundial no CATECISMO pequeno da doctrina e instruiçam que os cristãos ham de creer e obrar pera conseguir a benaventurança, feito pelo português Diogo Ortiz e publicado em Lisboa em 1504.
Catecismo ou Doutrina Cristã e Práticas Espirituais
O Catecismo ou doutrina cristã e práticas espirituais, ou o Catecismo de Frei Bartolomeu dos Mártires, foi publicado no dia 3 de novembro de 1664, dois anos antes do catecismo Romano, e procurou introduzir em Portugal a reforma do concílio de Trento. Pretendia ser um travão à ignorância religiosa do povo português. Era destinado aos sacerdotes, para os ajudar na pregação e na missão de pastores do povo de Deus.

«Querendo eu, de alguma maneira, acudir a este mal (como me obriga o meu oficio pastoral), pela multidão de freguesias que há neste Arcebispado de Braga, na maior parte das quais não há pregação, determinei ordenar a seguinte doutrina, acomodada ao propósito que disse, isto é, qual convém para se dizer a gente popular, para os trazer a algum conhecimento e amor de Deus. E, por isso, não quis multiplicar autoridades, nem trazer doutrinas de teologia escuras e difíceis de entender. Somente escolhi aquilo que me pareceu ser mais conveniente a este propósito».
A estrutura do catecismo
O Catecismo ou Doutrina Cristã insere-se na tradição catequética do seu tempo, ao dividir as matérias no primeiro livro segundo as virtudes teologais da fé, esperança e caridade e, no segundo as homilias para o ano litúrgico.
«Em crer, esperar, amar e fazer consiste toda a sabedoria, justiça e santidade cristã. E a fé e esperança sem caridade e obras (sem as quais não pode estar a caridade) ficam mortas e não limpam nem justificam a alma, nem têm valor diante de Deus. (…) E, assim, como o exercício da fé, isto é, as verdades que se hão de expressamente crer, se contêm no credo, e o exercício da esperança, isto é, as coisas que devemos esperar e desejar, se contêm no Pater Noster, assim o exercício da caridade, que são as obras que a caridade obriga fazer, se contêm nos preceitos e Mandamentos que Deus nos deixou em Sua Lei».
O livro segundo são as homilias que os sacerdotes deviam fazer durante o ano litúrgico. O próprio autor explica como se deve usar o livro primeiro e o segundo: «mandamos a qualquer abade, reitor, vigário ou capelão deste nosso Arcebispado que, em cada domingo ou dia de guarda, para o qual, no presente livro, se não acha ordenado especial sermão ou prática, leia um capítulo da Doutrina Cristã; e, nas Festas ou Domingos para os quais vão escritos particulares sermões, leia, em cada Domingo ou Festa, o Sermão que lhe pertence».
+ António Moiteiro